Ilana Panich-linsman/NYT
Ilana Panich-linsman/NYT

Por que há tantos imigrantes do Haiti na fronteira do Texas?; leia análise

Motivos podem ser econômicos, mas muitos são refugiados do tremor de 2010

Amber Phillips*, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2021 | 05h00

As travessias ilegais estão aumentando e os haitianos representam uma parte cada vez maior delas. O Haiti é um país com problemas políticos, econômicos e humanitários, incluindo um presidente assassinado e um forte terremoto recente. Mas muitos desses haitianos no Texas são refugiados de um outro tremor, o de 2010. Na época, eles se refugiaram na América do Sul, mas, por uma série de razões, agora estão fugindo para os EUA.

O motivo pode ser econômico. “Um trabalhador que vem do Chile pode ter uma renda 3,5 vezes maior nos EUA”, disse Alex Nowrasteh, analista do Cato Institute. O agravamento da pandemia em países como o Brasil também desempenha um papel importante. “Quando você olha o que está impulsionando a migração, é uma combinação de deterioração econômica, social e, às vezes, de segurança nos países em que eles vivem”, disse Jessica Bolter, do Migration Policy Institute. “Além da percepção de que, sob o governo de Joe Biden, é mais fácil entrar nos EUA.” 

Biden fez várias mudanças na política de imigração de Donald Trump – principalmente reduzindo as deportações. Mas ele continuou a usar ferramenta controversa para expulsar os estrangeiros: um código de saúde, conhecido como “Título 42”, que cita a pandemia como razão para limpar a fronteira o mais rápido possível. Então, os migrantes estão sendo mandados para casa sem a chance de solicitar asilo.

Biden reconhece que as coisas no Haiti estão muito ruins. No semestre passado, o governo concedeu proteção temporária a milhares de haitianos que já estavam ilegalmente nos EUA, citando “condições extraordinárias e temporárias”, como uma crise política, violência e abusos dos direitos humanos. Talvez isso tenha alimentado a falsa percepção de que os imigrantes poderiam entrar nos EUA agora, disse Theresa Brown, do Policy Center. Agora, muitos desses haitianos presos na fronteira estão sendo deportados – muitos dos quais não moram lá há anos. Alguns disseram que foram algemados nos voos para casa. 

Mais atenção do público na fronteira é a última coisa de que Biden precisava. É seu ponto fraco desde que assumiu o cargo, e ele tem se preocupado em ser visto como muito leniente em temas migratórios. Mas, enquanto o presidente segue a mesma política de Trump, os migrantes continuam chegando. A crise no Texas ganhou espaço porque os haitianos são diferentes dos migrantes da América Central, mais comuns na fronteira, e por causa da foto de agentes perseguindo os refugiados a cavalo.

Defensores dos direitos humanos e das liberdades civis aumentaram o tom contra Biden. Agora, muitos democratas entraram na fila para criticar o governo. O líder democrata do Senado, Chuck Schumer, pediu a Biden o fim das deportações. “Não podemos continuar essas políticas odiosas e xenófobas de Trump”, afirmou. A NAACP, uma das mais fortes organizações de defesa da igualdade racial, também disparou contra a Casa Branca. “A crise humanitária que está acontecendo sob esse governo espelha de forma repugnante alguns dos momentos mais sombrios da história dos EUA. Se fechássemos os olhos e isso estivesse ocorrendo sob o governo de Trump, o que faríamos? O tratamento desumano dispensado aos refugiados haitianos é repugnante”, disse o presidente da NAACP, Derrick Johnson.

* É ANALISTA DE POLÍTICA DO ‘WASHINGTON POST’

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