Por que Hagel foi a escolha para a Defesa

Chefe do Pentágono terá função árdua de supervisionar o início do declínio do Exército americano

, DAVID, BROOKS, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA , , DAVID, BROOKS, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA , O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2013 | 02h07

Análise

Os americanos não gostam particularmente do governo, mas querem que ele subsidie a assistência médica. Acham que os gastos com a saúde melhoram sua vida mais do que qualquer outro bem público. Numa democracia, os eleitores têm aquilo que desejam, de modo que a linha que traça os gastos com a saúde é igual à subida de um jato decolando do aeroporto de LaGuardia. As despesas com o Medicare devem quase dobrar na próxima década. E esse é um elemento crucial no aumento dos gastos que elevarão a dívida americana para 250% do PIB em 30 anos.

Não há aumento de imposto que faça frente a esse crescimento de despesas. Os democratas tiveram chance de aumentar a receita e o que conseguiram foram míseros US$ 600 bilhões em 10 anos, que não mudarão o quadro fiscal.

Como resultado, os gastos no setor da saúde, que as pessoas realmente valorizam, estão comprimindo todas as outras despesas, para as quais se dá menor importância. As verbas destinadas a programas como educação, ciência, infraestrutura e redução da pobreza já sofreram cortes.

O presidente Barack Obama criticou duramente Paul Ryan por apresentar um orçamento que reduziria os gastos domésticos de 3% a 4% do PIB para 1,8%. Mas o orçamento apresentado pelo presidente prevê uma redução das despesas discricionárias para 1,8% do PIB em seis anos.

Até agora, o orçamento de Defesa não tinha sido comprimido pelo Medicare. Mas isso deve mudar. Oswald Spengler tinha razão quando disse aos líderes europeus que eles ou poderiam fazer dos seus Estados potências militares globais ou pagar pelo bem-estar social, mas jamais ambos.

Os europeus optaram pelo bem-estar social. Nos anos 90, destinavam 2,5% do PIB à Defesa. Hoje, gastam 1,5% e, em meio ao mal-estar no continente, os fundos devem diminuir mais. Os EUA passarão por um processo similar.

O atual orçamento prevê um declínio abrupto na Defesa, de 4,3% do PIB para 3%, de acordo com o Departamento do Orçamento do Congresso. À medida que o governo federal se torna um provedor da saúde, a Defesa sofrerá cortes. Esses cortes transformarão a posição dos EUA no mundo e nos tornarão muito parecidos com a Europa. Foi por isso que o almirante Mike Mullen qualificou a dívida nacional como a maior ameaça à segurança do país.

Chuck Hagel foi nomeado para supervisionar o inicio desse processo de cortes da Defesa, que deve durar uma geração. Se um presidente democrata decide reduzir o orçamento do Pantágono, vai querer um republicano para lhe dar cobertura política e um herói de guerra condecorado para dar a arrancada. Todas as críticas sobre as opiniões de Hagel sobre Israel ou Irã são secundárias.

A pergunta de fato é como ele iniciará esse longo processo de cortes? Como equilibrará a modernização do Exército e o pagamento do pessoal? Como reorganizará a estratégia de Defesa com 445 mil homens a menos em serviço? Em resumo, como Hagel supervisionará o início do declínio do Exército americano? Se os membros do Congresso não desejam que o país enfraqueça militarmente, não terão ninguém para culpar senão os eleitores e eles próprios. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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