Por que Israel?

As ações israelenses são sempre mais criticadas, mas não se comparam às de outros países

Shlomo Ben-Ami/Project Syndicate, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2014 | 02h04

A última guerra de Israel na Faixa de Gaza ecoou pelas capitais europeias de modo poderoso e destrutivo. Israel está sendo denunciado como "Estado terrorista". A grotesca combinação de solidariedade legítima com a Palestina e inventivas antijudaicas parece ter forjado uma forma politicamente correta de antissemitismo - uma que, 70 anos após o Holocausto, está despertando o espectro da "Noite dos Cristais" em comunidades judaicas da Europa.

Os israelenses estão tentando entender por que 5 milhões de refugiados e 200 mil mortos na Síria significam menos para a consciência ocidental do que os 2 mil palestinos mortos em Gaza. Eles não conseguem entender como manifestantes europeus podem denunciar as guerras de Israel como "genocídio" - um termo que nunca foi aplicado à hecatombe síria, às 500 mil baixas no Iraque desde a invasão liderada pelos EUA, ou aos ataques aéreos americanos no Afeganistão e no Paquistão.

A resposta é simples: definir os pecados de Israel em termos emprestados do Holocausto é a maneira honrada de se livrar de seu complexo judaico. "O Holocausto", como escreveu Thomas Keneally em A Lista de Schindler "é um problema gentio, não judeu". Ou, como ironizou o psiquiatra Zvi Rex, "os alemães jamais perdoarão os judeus por Auschwitz".

Não há como negar que a agonia de Gaza é um desastre humano. Mas ele nem se aproxima de outras crises humanas das últimas décadas, incluindo as que ocorrem no Sudão, Iraque e Afeganistão. Quando outros países tropeçam, suas políticas são questionadas; quando o comportamento de Israel é controvertido, seu direito de existir é atacado.

As matérias na imprensa sobre Israel focam quase exclusivamente no conflito palestino. Joyce Karam, chefe de sucursal em Washington do jornal pan-árabe Al-Hayat, acredita que isso acontece porque "muçulmano matar muçulmano ou árabe matar árabe parece mais aceitável do que Israel matar árabes". As vítimas sírias, líbias e iemenitas não têm rosto; o tratamento do número menor de vítimas de Gaza como celebridades as torna únicas.

A hipocrisia de alguns críticos de Israel não justifica, de nenhum modo, a invasão colonial do território palestino, o que faz de Israel o último país "ocidental" desenvolvido a ocupar e controlar um povo não ocidental. A maioria dos conflitos atuais é interna.

O conflito de Israel com os palestinos representa um drama particularmente fascinante para o Ocidente. A história de Israel se estende muito além do atual conflito, para narrar uma simbiose extraordinária entre herança judaica e civilização europeia que terminou em calamidade. Desde seu nascimento, Israel carrega cicatrizes do maior crime já cometido em solo europeu. O sofrimento dos palestinos - vítimas do triunfo do sionismo - toca outro ponto nevrálgico da mente europeia.

Mas a tragédia palestino-israelense é uma odisseia de duas nações com pretensões mutuamente exclusivas em terras sagradas e santuários religiosos que são centrais nas vidas de milhões de pessoas em todo o mundo. É também uma guerra de imagens conflitantes, em que ambas as partes reclamam um monopólio da justiça e do martírio. A perseguição aos judeus, e o modo como o sionismo a empregou, tornou-se um modelo para o nacionalismo palestino. Palavras-chave como "exílio", "diáspora", "Holocausto", "retorno" e "genocídio" são agora um componente inextricável do ethos nacional palestino.

É importante notar que o Holocausto não imuniza Israel a críticas, nem cada ataque à políticas israelenses pode ser reduzido a uma manifestação de antissemitismo.

Do mesmo modo como a reabilitação de cidades egípcias na esteira da Guerra do Yom Kippur de 1973 aplainou o caminho para uma paz egípcio-israelense, uma Gaza próspera servirá aos interesses de todas as partes envolvidas - a começar por Israel. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É EX-CHANCELER DE ISRAEL

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