Por que Maquiavel ainda é importante?

Na política, aliados não são amigos; líderes mundiais que não compreenderem essa diferença e desconsiderarem o 'conselho' secular estarão fadados à ruína

JOHN T. SCOTT & , ROBERT ZARETSKY, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2013 | 02h05

Há 500 anos, em 10 de dezembro de 1513, Nicolau Maquiavel enviou uma carta para seu amigo Francesco Vettori descrevendo seu dia, no qual travou discussões com agricultores locais e colocou armadilhas para capturar pássaros para o jantar. Um dia típico de um escritor de cartas atípico, que trocava as roupas sujas de lama pelas vestes que usava como autoridade importante da República Florentina.

No final da carta Maquiavel refere-se pela primeira vez a um "pequeno trabalho" que estava redigindo sobre política. Esse "pequeno trabalho" era, naturalmente, O Príncipe.

Um dos aspectos mais notáveis no caso de O Príncipe não é apenas o fato de Maquiavel tê-lo escrito, mas ter sido capaz de escrevê-lo. Dez meses antes ele fora submetido ao "strappado": um método de tortura em que, de mãos amarradas nas costas, ele era suspenso até o teto da cela na prisão e repetidamente lançado ao chão.

Na época ele supervisionava a política externa e a defesa da sua cidade natal, mas foi destituído das suas funções quando a família Médici retornou ao poder. Os novos dirigentes suspeitavam que ele tramava contra eles e decidiram interrogá-lo. Maquiavel orgulhou-se de não pronunciar uma única palavra.

Ele bem que poderia ter poupado suas palavras em O Príncipe, livro dedicado a um membro da família que ordenou sua tortura: Lorenzo de Médici. Com este livro ele pretendia convencer Lorenzo de que era um amigo cuja experiência no terreno da política e o conhecimento dos tempos antigos faziam dele um conselheiro inestimável.

A história não nos conta se Lorenzo preocupou-se em ler o livro. Mas se o tivesse feito, teria aprendido com seu suposto amigo que, na verdade, no âmbito da política não existem amigos.

O Príncipe é um manual para aqueles que querem conquistar e preservar o poder. A Renascença estava abarrotada de guias como este, mas o de Maquiavel era diferente.

Certamente ele aconselha um príncipe sobre como agir diante dos inimigos, a usar a força e a trapaça em guerra. Mas ele inova na maneira de encarar os nossos amigos. É exatamente na parte central do livro, no capítulo dedicado a este tema, que Maquiavel proclama sua originalidade.

Deixe de lado o que você imagina no tocante à política, escreve Maquiavel, e vá direto à verdade, ou seja, como as coisas realmente funcionam, o que ele chama de "verdade efetiva". Você verá que os aliados em política, seja interna ou externa, não são amigos.

Talvez outros tenham se equivocado com essa distinção porque a mesma palavra em italiano - "amici" - é usada para ambos os conceitos. Aquele que imagina que os aliados são amigos, adverte Maquiavel, está assegurando a sua ruína, não a sua preservação.

Talvez não exista mais um aluno com necessidade deste insight, e com menos probabilidade de acatá-lo, do que os americanos contemporâneos, dentro e fora do governo.

Como os moralizadores políticos que Maquiavel busca subverter, ainda acreditamos que um líder deve ser virtuoso: generoso e caridoso, honesto e leal.

Mas Maquiavel ensina que num mundo onde as pessoas na sua maior parte não são boas, temos de aprender a não sermos bons. As virtudes ensinadas nas nossas escolas religiosas e seculares são incompatíveis com as virtudes que precisamos praticar para proteger essas mesmas instituições. A força do leão e a sagacidade da raposa: estas são as qualidades que um líder precisa ter para preservar a república.

Para este líder, os aliados são amigos quando é de seu interesse que sejam (podemos, com dificuldade, acatar esta lição quando representada por um Charles de Gaulle; mas temos mais dificuldade quando se trata, digamos, de Hamid Karzai).

Além disso, diz Maquiavel, os líderes devem às vezes inspirar medo não só em seus inimigos, mas até nos seus aliados - e até mesmo nos seus próprios ministros.

O que teria pensado Maquiavel quando o presidente Barack Obama desculpou-se pelo fiasco do processo de inscrição no novo programa de saúde pública dos EUA? Longe de merecer respeito, diria Maquiavel, tudo o que ele recebeu foi menosprezo.

Como Cesare Borgia, um dos exemplos favoritos de Maquiavel, compreendeu, cabeças às vezes precisam rolar (embora neste caso Maquiavel tenha sido bastante literal, apesar de Borgia preferir cortar os corpos pela metade e deixá-los em praça pública).

Maquiavel por muito tempo foi chamado de professor do mal. Mas o autor de O Príncipe nunca exortou o mal pelo próprio mal. O objetivo de um líder é manter seu Estado (e, não por acaso, seu cargo). A política é uma arena onde buscar a virtude com frequência leva à ruína de um Estado, enquanto que insistir no que parece ser um vício resulta em segurança e bem-estar. Em resumo, jamais existem escolhas fáceis e ser prudente significa saber como reconhecer os atributos das decisões difíceis à sua frente e optar pela menos ruim como se fosse a ótima.

Aqueles que veem o mundo se não em termos maniqueístas, mas pelo menos em termos hollywoodianos, devem rechaçar estas afirmações. Talvez estejam certos, mas será um erro descartá-las sem pensar duas vezes. Se os ensinamentos de Maquiavel no tocante a amigos e aliados na política são profundamente desconcertantes, é porque ele atinge a essência das nossas convicções religiosas e convenções morais. E isto explica porque ainda hoje ele continua sendo insultado, mas também reverenciado, como na época em que viveu. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

JOHN SCOTT É DIRETOR DO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS POLÍTICAS NA UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA.

ROBERT ZARETSKY É PROFESSOR DE HISTÓRIA NA UNIVERSIDADE DE HOUSTON.

AMBOS SÃO AUTORES DO LIVRO: 'THE PHILOSOPHERS´ S QUARREL: ROUSSEAU, HUME AND THE LIMITS OF HUMAN UNDERSTANDING'

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