Por que não abolir a vice-presidência?

Sarah Palin é o produto de uma falha de projeto - uma conseqüência imprevista da decisão dos pais da nação de criar a vice-presidência. Durante dois séculos, os candidatos à presidência usaram o cargo para equilibrar suas chapas ao escolher um companheiro de campanha que fosse de outra região, ou que falasse o dialeto ideológico de um eleitorado específico. Teddy Roosevelt - que substituiu William McKinley quando este foi assassinado em 1901 - pode ter sido um grande presidente progressista, mas ele fora nomeado para a vice-presidência pelo arquiconservador McKinley simplesmente para garantir o eleitorado de Nova York. O país elegeu um político de direita, mas acabou com algo muito diferente no seu lugar. Semelhante lógica perversa levou Abraham Lincoln a escolher como parceiro de campanha Andrew Johnson. Lincoln sabia que Johnson era conservador em relação às raças, mas estava mais interessado em conquistar o eleitorado do Tennessee. Este trágico equívoco mancha a pretensão de Lincoln à grandeza. Quando ele foi assassinado, a amarga posição de Johnson prejudicou as relações entre as raças durante gerações.A surpreendente escolha de John McCain deveria nos levar a repensar certos conceitos. O México e a França não vêem necessidade de um vice-presidente. Nós devíamos designar o secretário de Estado para assumir o cargo do presidente até que possa ser realizada uma eleição para substitui-lo. Não se trata de uma questão na qual devamos respeitar os fundadores do país. Eles projetaram seu sistema para um mundo político muito diferente. O Colégio Eleitoral de então buscava dar a homens ricos e influentes de cada Estado o poder de escolher o presidente. Mas a política era eminentemente local no século 18 e temia-se que cada Estado entregasse seus votos a um favorito local - impedindo assim o candidato mais votado de obter maioria. Para resolver esse problema, eles optaram por um esquema engenhoso. A Constituição original dava aos eleitores presidenciais dois votos, ao invés de um, e determinava que eles só poderiam votar em um dos indicados do seu próprio Estado. A idéia era que os eleitores usassem um dos votos para cortejar um favorito local e o outro para escolher um líder nacional, como por exemplo George Washington, garantindo a ele uma ampla maioria. Mas infelizmente o sistema de dois votos estava sujeito à sabotagem. Os eleitores podiam simplesmente votar no seu político Zé Ninguém favorito e anular o segundo voto, ampliando assim a chance de sucesso do Zé Ninguém. Eis que chega a vice-presidência, um prêmio de consolação para os favoritos locais (ou quem quer que tenha ficado em segundo lugar no Colégio Eleitoral). Seu objetivo era garantir a eleição de um presidente de verdade; fornecer um suplente para o cargo era um objetivo distintamente secundário. Esse esquema inteligente não sobreviveu à ascensão dos partidos. Em 1800, os eleitores já seguiam as instruções dos partidos nacionais Democrata-Republicano e Federalista, abrindo uma crise. Os democratas-republicanos ganharam a eleição e os seus 73 eleitores escreveram todos nas suas cédulas os nomes de Thomas Jefferson e seu companheiro de chapa, Aaron Burr, sem ter o poder de indicar que queriam Jefferson para presidente. Isso criou um empate pelo primeiro lugar e Jefferson e Blurr foram obrigados a concorrer à presidência no que se revelou um segundo turno amargamente disputado na Câmara dos Representantes. Depois que a fumaça se dissipou, o Congresso e os Estados simplesmente ajustaram o sistema eleitoral. A sua 12ª emenda simplesmente dizia aos eleitores que votassem para presidente numa cédula e para vice-presidente em outra. Isto impossibilitou a repetição de uma crise semelhante a de Jefferson-Blurr, mas preparou o caminho para os choques vice-presidenciais. Se McCain ganhar a presidência, só podemos desejar a ele uma longa vida. Mas seja qual for o resultado da eleição, deveríamos reconhecer que os fundadores do país não faziam a menor idéia de que a vice-presidência acabaria explodindo episodicamente na nossa cara, e já é hora de consertarmos isto. *Bruce Ackerman, professor de direito e ciências políticas da Universidade de Yale, escreveu este artigo para o ?Los Angeles Times?

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