Por que não dizer que massacre foi ato terrorista?

CENÁRIO: Rick Gladstone

/ NYT, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2015 | 02h02

O massacre de nove negros em Charleston foi classificado como um possível crime de ódio, cometido por um homem branco de 21 anos que um dia vestiu um emblema do apartheid e outros símbolos de supremacia branca. Mas muitos defensores de direitos civis estão perguntando por que o ataque não foi oficialmente chamado de terrorismo.

Contra o pano de fundo de temores crescentes com o extremismo muçulmano violento nos EUA, os defensores veem hipocrisia no modo como o ataque a tiros e o homem detido pelo atentado foram descritos pelos agentes da lei e a mídia.

Ataques como a explosão de uma bomba na Maratona de Boston em 2013 e o atentado contra a manifestação anti-islâmica em Garland, Texas, no mês passado, foram retratados como atos de terrorismo realizados por extremistas islâmicos. Mas os críticos dizem que os ataques contra negros e americanos muçulmanos são raramente chamados, quando são, de terrorismo.

Além disso, argumentam, os atacantes que são brancos têm menor probabilidade de serem descritos como terroristas pelas autoridades. "Fomos condicionados a aceitar que se a violência é cometida por um muçulmano, então é terrorismo", disse Nihad Awad, diretor executivo do Conselho de Relações Islâmico-Americanas, uma organização de defesa dos direitos civis em Washington.

"Se a mesma violência é cometida por um supremacista branco ou um simpatizante do apartheid e não um muçulmano, começamos a procurar desculpas - ele deve ser louco, talvez estivesse sob muita pressão."

Dean Obeidallah, um apresentador de programa de rádio disse que deveria ser óbvio que o assassino de Charleston é um terrorista. "Temos um homem que foi intencionalmente a uma igreja de negros, tinha animosidade contra pessoas negras e assassinou uma autoridade eleita e outras oito pessoas", disse. "Tudo indica que ele estava movido pelo desejo de aterrorizar e matar pessoas negras."

Enquanto a procuradora-geral Loretta E. Lynch e autoridades da Carolina do Sul diziam que a matança estava sendo investigada como crime de ódio, boa parte da mídia social foi cáustica, com comentadores dizendo que viam dois pesos e duas medidas nessa terminologia. "Um supremacista branco massacra nove negros em Charleston. É um crime de ódio, é terrorismo, é a América 2015", disse Remi Kanazi, um ativista e poeta palestino-americano no Twitter.

A definição de terrorismo é uma questão imprecisa e polêmica, geralmente com nuances políticas. Os opositores à guerra síria e ao conflito palestino-israelense, por exemplo, com frequência acusam-se de terrorismo. Organizações militantes - como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico - que se consideram libertadoras, são oficialmente consideradas grupos terroristas pela ONU e outras instituições.

Abraham H. Foxman, diretor nacional da Liga Anti-Difamação, organização de defesa dos direitos civis, disse que o massacre de Charleston pareceu terrorismo para ele.

"Apesar de o rótulo terrorista ser aplicado, com frequência, a ataques, complôs e conspirações em favor de organizações designadas como terroristas como o Estado Islâmico e a Al-Qaeda, a violência politicamente motivada não é domínio exclusivo de apoiadores de grupos designados como terroristas", disse Foxman numa declaração. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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