Tom Pennington/Getty Images/AFP
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Por que o discurso infantil do magnata funciona?

Magnata que lidera corrida entre os republicanos usa linguagem primária e ideias simplórias para conquistar eleitores raivosos e ansiosos

DANA MILBANK* / THE WASHINGTON POST, O Estado de S. Paulo

29 de fevereiro de 2016 | 07h00

Você concluiu a terceira série na escola? Se concluiu, talvez por isso tenha dificuldade para compreender o apelo exercido por Donald Trump.

No debate presidencial republicano, na noite de quinta-feira, Ben Carson falou na abertura sobre “o abismo da destruição”. Uma análise mostra que sua linguagem era adequada à compreensão de um aluno da primeira série do ensino médio. Marco Rubio, que falou da “identidade dos Estados Unidos no século 21”, também se manteve no nível do ensino médio.

O discurso de Ted Cruz e John Kasich foi adequado ao último ano do ensino fundamental. O de Trump foi adequado à terceira série do fundamental.

“Nós não ganhamos mais... Vamos construir um grande país de novo. Vamos começar ganhando de novo. Vamos ganhar muito. A diferença será grande, acreditem”.

Não se trata de uma anomalia. Alguns notaram o discurso particularmente prosaico de Trump no início da campanha – e ele foi se tornando cada vez mais pronunciado: palavras simples. Sentenças simples. Conceitos simples. Vejam Donald. Vejam Donald, ele está concorrendo. Vejam Donald, ele está ganhando.

Aparentemente, isso confirma as pesquisas que indicam que Trump recebe grande parte do apoio dos americanos menos instruídos: “Eu amo os menos instruídos”, ele declarou depois da vitória em Nevada na semana passada. Isso não significa que todos os seus seguidores sejam estúpidos. Ocorre que – deliberadamente, sem dúvida – ele procura comunicar-se num nível muito mais rudimentar do que qualquer outro candidato de ambos os partidos.

“Ele diz cinco coisas”, afirmou Rubio, em tom de provocação, na quinta-feira. “Todo mundo é estúpido, ele (Trump) fará com que a América seja novamente um grande país, nós vamos ganhar, ganhar, ganhar, ele ganha nas pesquisas.”

Num nível primário, esse discurso funciona. Os americanos – particularmente os irados e ansiosos, como em geral são os seguidores de Trump – querem que lhes digam que tudo ficará bem, que há respostas simples. Nas declarações de Trump sobre o Oriente Médio, há um apelo óbvio – “Eu sou totalmente favorável a Israel” –, ao contrário da versão princetoniana de Cruz – “A ideia de neutralidade baseia-se no fato de que a esquerda assimilou o relativismo moral frequentemente alardeado na mídia”.

O índice de legibilidade Flesch-Kincaid, uma medida de linguagem, mostra a sofisticação pelas sílabas em cada palavra e pelas palavras em cada sentença. Ele se destina à linguagem escrita, mas, aplicado aos discursos e aos debates da campanha, dá uma ideia aproximada dos níveis relativos da retórica dos candidatos.

Nos discursos da primária da Carolina do Sul, Cruz manteve o nível do primeiro ano do colegial, Rubio do último ano do básico – e Trump, o do quinto ano do básico. Nos discursos depois dos caucuses de Nevada, Cruz e o candidato democrata Bernie Sanders chegaram ao último ano do básico, Hillary Clinton ficou no sétimo. E Trump? No nível do segundo ano do primário com frases como “Nós amamos o Estado de Nevada”; “Nós vamos comemorar por muito tempo esta noite. Divirtam-se”; “Logo o país começará a ganhar, ganhar, ganhar”;

“Agora, vamos ficar gananciosos a favor dos EUA. Vamos agarrar, agarrar e agarrar mais”; “Vamos construir o muro (na fronteira com o México). Vocês sabem. Construir o muro”; “Vocês vão se orgulhar do seu presidente. E vocês vão se orgulhar ainda mais do seu país. Certo?”.

É uma campanha no nível do personagem Capitão Cueca e de outros protagonistas de livros infantis. Mas parece mais eficiente entre os eleitores republicanos desta temporada do que, por exemplo, Carson, que na noite de quinta-feira falou em selecionar juízes “de acordo com a salada de frutas da vida deles”.

Por outro lado, não há muito a refletir sobre o que Trump quer dizer quando ele chama Cruz de “fanático maluco” ou diz a Rubio: “Você não sabe nada de negócios, você perde de todo jeito”. Trump, solicitado a dar detalhes do seu plano orçamentário, disse: “Vamos cortar tanta coisa que você vai ficar zonzo”. 

Ao âncora Hugh Newitt, de uma rádio conservadora, ao ser pressionado no debate a tornar públicos os dados de sua declaração do imposto de renda, ele respondeu: “Em primeiro lugar, são poucas as pessoas que ouvem seu programa de rádio. Essa é a boa notícia.”

Raramente, Trump abandonou a linguagem do primário durante todo o debate. A respeito dos imigrantes ilegais, seu discurso esteve adequado ao quinto ano. Suas opiniões sobre Mitt Romney e sobre as pesquisas com hispânicos, ao quarto ano. Seu histórico de empregador? Terceiro ano. O tempo inteiro, seu vocabulário teria agradado ao cartunista conhecido como Dr. Seuss: “Eles irão embora. Voltarão. Alguns voltarão... O muro será 4 metros mais alto... Vamos fazer muitos cortes... Vamos nos livrar de muitas coisas diferentes”.

E acabou onde havia começado – no terceiro ano do primário. “Eu vou mandar fazer isso”, afirmou. “Os políticos nunca vão fazer isso. E nós vamos tornar a América novamente um país grande. Obrigado.” 

Ganhe, Donald, ganhe. Agarre, Donald, agarre. Vejam Donald fazendo a América novamente grande. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*É COLUNISTA

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