Por que o Irã defende a Síria enfraquecida?

País representa um elo geoestratégico vital entre Teerã e o Hezbollah, núcleo de um "eixo de resistência" contra Israel

NICHOLAS BLANFORD , THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2015 | 02h03

O Irã revelou-se um elemento crucial por ajudar a manter o presidente Bashar Assad no poder, após quatro anos de uma guerra sangrenta, com o envio de milhares de soldados e de paramilitares para fortalecer o enfraquecido Exército sírio, e com empréstimos de bilhões de dólares destinados a impedir o colapso da economia.

Mas, apesar dessa enorme demonstração de apoio, no mês passado, o regime de Assad perdeu terreno para as forças da oposição nos campos de batalha. Fundamentalmente, ele se depara hoje com uma grave escassez de tropas e de milícias dispostas a continuar a luta, tornando-o cada vez mais dependente do Irã, seu aliado há 35 anos.

As autoridades iranianas declararam que a Síria é de suprema importância estratégica e não parecem dispostas a reconsiderar a opção militar para derrotar os rebeldes. A questão é por quanto tempo o Irã, submetido a sanções internacionais, terá condições de continuar enviando recursos, material e homens a Assad, causando uma animosidade ainda maior e, atualmente, uma reação adversa dos países sunitas da região.

"Os iranianos poderiam fornecer mais combatentes estrangeiros, mas, a certa altura, a utilidade dessas forças estrangeiras adicionais se tornará cada vez menor", diz Robert Ford, pesquisador do Instituto para o Oriente Médio, com sede em Washington, e embaixador americano na Síria entre 2010 e 2014. "Não que os rebeldes possam conseguir depor o regime, mas acredito que sua posição está se tornando cada vez mais difícil, à medida que a guerra de desgaste se volta lentamente contra ele."

Calcula-se que o Exército sírio tenha perdido de 80 mil a 100 mil homens em quatro anos de guerra, o que representa um golpe devastador. Para fazer frente ao enfraquecimento do Exército sírio, os iranianos enviaram milhares de soldados da Guarda Revolucionária, combatentes do partido militante xiita Hezbollah, do Líbano, e paramilitares xiitas do Iraque e do Afeganistão. Também ajudaram a criar a milícia da Força de Defesa Nacional, de 80 mil homens, leais a Assad, principalmente alauitas, a seita formada por uma cisão xiita, à qual o presidente pertence.

Ofensivas. Embora a ajuda militar do Irã tenha proporcionado algum alívio ao regime, ainda não dispõe de força suficiente para lançar ofensivas e é obrigada a escolher cuidadosamente onde colocar suas tropas. "Não existe uma massa crítica disponível para que Assad possa vencer", diz um ex-funcionário sírio que pediu para não ser identificado. "Para isso, seria preciso convencer 200 mil a 300 mil mães a enviar seus filhos para a guerra. Mas por que uma mãe e um pai sunitas mandariam seu filho para morrer por Assad?"

A escassez de homens aumentou com a recente coordenação na política síria de poderosos países sunitas da região - a Arábia Saudita e a Turquia - com a cooperação da Jordânia e o Catar. No início de março, o novo monarca da Arábia Saudita, Salman, e o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, concordaram com a "necessidade de aumentar o apoio à oposição síria a fim de apresentar resultados".

Tais resultados têm-se materializado rapidamente. No mês passado, o regime de Assad perdeu a cidade de Idlib, no norte, Bosra a-Sham, no sul, e a passagem da fronteira de Nasib com a Jordânia. Na semana passadsa, grupos rebeldes capturaram mais uma cidade do norte, Jisr al-Shughour.

No sul, uma ofensiva liderada pelo Irã nas províncias de Dera e de Quneitra estancou após se defrontar com uma oposição mais forte do que o esperado, enquanto uma ofensiva liderada pelo Hezbollah, prevista havia muito tempo na região de Qalamoun, ao norte de Damasco, ao que tudo indica foi adiada.

Com a captura de Jisr al-Shughour, as forças contrárias a Assad controlam as duas maiores áreas urbanas da Província de Idlib. Isso lhes permitiu montar uma ofensiva a oeste contra Latakia, uma fortaleza do regime na costa do Mediterrâneo. Se os rebeldes conseguirem empurrar as forças de Assad em Idlib mais para o sul, a ligação entre Damasco e a cidade de Alepo, ao norte, se tornará perigosamente tênue.

A Síria representa um elo geoestratégico vital entre Teerã e o Hezbollah, núcleo de um "eixo de resistência" contra Israel e as ambições ocidentais em relação ao Oriente Médio. Em fevereiro de 2014, Mehdi Taeb, um clérigo iraniano, destacou a importância da Síria para o Irã, afirmando que ela é uma província estratégica para os iranianos. "Se o inimigo nos atacar e quiser tomar a Síria ou a província iraniana do Khuzestão, a prioridade será manter a Síria", afirmou. "Se mantivermos a Síria, poderemos recuperar também o Khuzestão, mas se a perdermos, não poderemos manter Teerã."

Alepo. Fontes diplomáticas em Beirute calculam que o Irã gaste entre US$ 1 bilhão e US$ 2 bilhões por mês na Síria em dinheiro e apoio militar. Staffan de Mistura, enviado da ONU à Síria, disse recentemente, em uma reunião em Washington, que o Irã vem canalizando US$ 35 bilhões ao ano para a Síria, segundo um dos participantes do encontro.

"O Irã sempre considerou a Síria a porta de entrada para a região árabe. Não creio que esta avaliação tenha mudado", diz Randa Slim, diretor do Instituto para o Oriente Médio.

No entanto, os recentes revezes de Assad no sul e no norte da Síria poderão levar o Irã a reconsiderar suas opções militares, até mesmo a possibilidade de aconselhar Assad a abandonar Alepo se os rebeldes ampliarem suas posições na Província de Idlib.

A perda de Alepo, a maior cidade da Síria e motor comercial do país, seria um golpe psicológico para o regime. No entanto, os interesses estratégicos do Irã na Síria não exigem o controle de Assad sobre todo o país, somente no corredor vital que une Damasco a Tartus, na costa do Mediterrâneo, paralelo à fronteira com o Líbano. O corredor permitiria que o Irã continuasse fornecendo armas ao Hezbollah.

"O Irã não está comprometido com Assad. Ele está comprometido com a preservação de seus interesses na Síria", afirma Karim Sadjadpour, membro do Programa para o Oriente Médio do Carnegie Endowment for International Peace.

No entanto, o Irã investiu a tal ponto no regime - com a exclusão de outros partidos na Síria - que Teerã não tem outra escolha senão dobrar sua aposta no aliado sitiado. "Com exceção do regime, o Irã não tem contatos na Síria. Os empresários sírios negociam com outros países árabes", afirma um ex-funcionário sírio, acrescentando ironicamente que os bilhões de dólares dados pelo Irã à Síria "estão financiando as importações sírias da Arábia Saudita e de outros países do Golfo, e não do Irã".

Se o acordo incipiente entre o Irã e a comunidade internacional a respeito do programa nuclear iraniano for concluído nos próximos meses, poderá pôr fim às sanções devastadoras contra Teerã, enchendo mais uma vez os cofres do país. No entanto, a combinação de uma aliança regional sunita mais afirmativa contra Assad e a desesperada escassez de homens para manter afastados os rebeldes que lutam contra seu regime talvez seja um sinal de mau agouro para o governo sírio - e para o avanço do Irã no Levante -, no longo prazo, afirmam os analistas.

"Às vezes, penso nesta situação lembrando o que aconteceu com o Exército alemão na 1.ª Guerra, em 1917, que foi sendo lentamente eliminado na frente ocidental", diz Ford, ex-embaixador na Síria. "Penso numa lenta progressão, que os iranianos poderiam tornar ainda mais lenta, mas será uma surpresa para mim se eles conseguirem reverter essa situação". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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