Por que o Líbano enfrenta uma crise econômica e como as explosões agravam a situação?

Por que o Líbano enfrenta uma crise econômica e como as explosões agravam a situação?

Cerca de metade da população enfrenta dificuldades para se alimentar no país de 6 milhões de habitantes

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2020 | 14h02

Um país vivendo uma crise econômica, com desvalorização da moeda e preços dos produtos em alta, em que metade da população já tinha dificuldades para comprar alimentos suficientes. Esse era o Líbano antes das explosões que destruíram metade da capital, Beirute, nesta semana. Com a inflação corroendo os salários e a pandemia de covid-19 aumentando a pobreza, a estimativa é que o PIB caia 12% este ano. 

Com uma composição religiosa que tem cristãos, muçulmanos sunitas e xiitas, organizar um governo no Líbano ao longo dos anos sempre foi um desafio para a classe política, que deu mais atenção ao clientelismo do que à qualidade técnica dos ocupantes dos cargos de comando da nação.

Por anos, Beirute era reconhecida como uma das mais belas capitais da região, chamada até de a "Paris do Oriente Médio". Agora, os danos materiais, que abalaram bairros inteiros na metrópole do Oriente, são estimados em US$ 5 bilhões (R$ 26,6 bilhões). Entenda abaixo alguns pontos da crise econômica no Líbano:  

Desvalorização da moeda e alta do dólar

Em outubro de 2019, milhares de libaneses tomaram as ruas da capital para protestar contra uma medida impopular: a ideia de taxar mensagens de áudio pelo WhatsApp. A sugestão do governo provocou a chamada 'Revolução do WhatsApp', que tinha como pano de fundo um país vivendo demissões em massa, famílias vendo suas rendas encolherem e sua moeda perdendo valor a cada dia.

Desde o fim do ano, a crise econômica já afetava o país: havia limitações para sacar dinheiro nos bancos e escassez de dólares. Em poucos meses, a libra libanesa perdeu 85% de seu valor. "O país está quebrado economicamente. Declarou falência e não tem como pagar as dívidas com as instituições financeiras internacionais", explica o cientista político Hussein Kalout, pesquisador da Universidade de Harvard. 

O Líbano importa cerca de 80% do que consome – e as importações são cotadas em dólar. "Toda vez que há uma desvalorização da libra libanesa, os preços da comida sobem quase que automaticamente. Desde o ano passado, os preços subiram quase 200% para a maior parte dos alimentos", explica Maurice Saade, representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO/ONU) no país. 

"A comida está disponível, talvez não tudo, mas a questão é que as pessoas não conseguem comprar. Os preços estão muito altos", resume.

Principal porto inoperante 

A explosão no porto atingiu o principal meio de ingresso de suprimentos no país - cerca de 60%. No Líbano, metade dos cerca de 6 milhões de habitantes já enfrentam dificuldades para comprar alimentos. 

"Em uma situação em que o país está imerso em uma gravíssima crise, ter um porto dessa importância inoperante tende a agravar os contornos da crise e elevar a tensão política", complementa Hussein Kalout. O porto, localizado em uma região nobre de Beirute, é o mais importante do país e um dos principais do Mediterrâneo. Agora, ficará sem funcionar por tempo indeterminado. 

Corrupção endêmica e manifestações contra a classe política 

Desde o fim do ano passado e início deste ano, manifestações exigiam um governo formado por técnicos e sem influência política. "A população estava cansada de governos sectários onde as filiações políticas e religiosas falavam mais alto do que a capacidade de administração de uma determinada pasta. Queriam um governo capaz de resolver os problemas do país e pediam o fim desse sistema político", explica Arlene Clemesha, professora de História Árabe na Universidade de São Paulo (USP).

"O governo que se formou em janeiro ainda foi marcado por alianças políticas, não foi esse governo técnico que a população exigia. Portanto, desde janeiro podemos dizer que a população já não está satisfeita e vem manifestando esse descontentamento. Essa explosão é mais um impacto na economia e no governo". Para Clemesha, é o cenário de um país que "vem se esfacelando e perdendo seus alicerces básicos".

Como as explosões aconteceram? 

As explosões foram causadas por 2.750 toneladas de nitrato de amônio que estavam armazenadas há anos no porto. Elas chegaram lá após um navio russo, com bandeira da Moldávia, fazer uma parada de emergência no ano de 2013. O destino era Moçambique. De acordo com a rede de TV Al Jazira, o navio foi forçado a atracar em Beirute depois de enfrentar problemas técnicos no mar.

O navio acabou sendo abandonado por seus proprietários e pela tripulação. A carga foi então descarregada e colocada porto de Beirute. Armazenado em condições incorretas, esse produto, que é usado em fertilizantes e na fabricação de explosivos, pode ser inflamável. 

O governo recebeu ofícios desde 2014 informando sobre os riscos daquela carga. Nada foi feito. Por isso, uma grande parte da população libanesa associa a catástrofe como uma negligência das autoridades. Até o momento, 16 funcionários do porto foram presos. 

"Todos os ofícios chamavam atenção para o perigo que isso representava para os trabalhadores e para o porto. Isso mostra uma incapacidade, uma incompetência e uma burocracia sem fim. É isso que a população não aguenta mais em relação ao Líbano", afirma Clemesha. 

"Eu diria que cerca de 70% das pessoas hoje estão contra o governo e contra todo esse processo político", afirma o professor de história e estudos culturais Habib Malik, da Universidade Americana do Líbano. Para ele, o país foi “sequestrado” pelo grupo xiita Hezbollah, que tem grande influência sobre o atual governo e impede que o país faça reformas necessárias. 

"O Hezbollah sempre esteve protegendo esse cartel que controla o Líbano. É de interesse deles que o Líbano seja dependente da corrupção daqueles que eles controlam para que consigam continuar com seus esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro. Quanto mais empobrecidos e dependentes os libaneses estiverem, mais eles aceitarão qualquer coisa". 

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