Por que os alemães são os americanos de ontem

Quarta maior economia do mundo, a Alemanha prosperou com base em princípios que os Estados Unidos parecem ter gradualmente perdido

DON LEE, LOS ANGELES TIMES

29 de janeiro de 2012 | 03h04

Todo verão, Volkmar e Vera Kruger passam três semanas de férias no sul da França ou em algum recanto fresco da Dinamarca. Nas outras três semanas de suas férias anuais, eles praticam jardinagem ou viajam algumas horas para torcer por seu time no maior estádio de futebol da Alemanha. O casal, já na casa dos 50 anos, não é aposentado nem rico.

Eles moram em uma casinha estilo Tudor em uma cidade de classe média a cerca de 50 quilômetros a noroeste de Frankfurt. Ele é capataz numa fábrica de vidro. Ela trabalha em tempo parcial numa empresa que monitora estoques para varejistas. Suas rendas combinadas alcançam modestos US$ 40 mil anuais.

Mas os Kruger têm um padrão de vida mais alto que muitos americanos com o dobro dessa renda.

Seu segredo: pouca dívida, hábitos frugais e um governo intensamente centrado em produção alta, inflação baixa e serviços sociais abrangentes.

Isso lhes proporcionou segurança no emprego e um bom sistema de saúde além de estradas de rodagem, trens e ciclovias bem cuidados. Seus dois filhos adultos já se sustentam sozinhos, graças, em parte, ao sistema de formação profissional e aos pesados subsídios à educação universitária da Alemanha.

Por exemplo, os custos que saíram do bolso de Volkmar para uma cirurgia de estômago e dez dias de internação hospitalar não passaram de US$ 13 diários. O custo semestral da universidade para cada filho fica em torno de US$ 260.

A Alemanha, com sua base industrial e força exportadora é os EUA de antigamente, uma potência econômica diferente de todos seus vizinhos europeus. Quarta maior economia do mundo, a Alemanha prosperou com base em princípios que os EUA parecem ter gradualmente perdido. Ela administrou com firmeza seu orçamento e adotou reformas - como aumentar a idade de aposentadoria - que alguns países da zona do euro agora estão sendo obrigados a adotar. E poucos países podem igualar a capacidade da Alemanha de produzir e exportar máquinas e outros equipamentos, ou sua infraestrutura de pesquisa, aprendizagem e financiamento que sustentam a indústria."A indústria alemã é forte", disse Volkmar, falando num inglês entrecortado porque ele precisa consultar a tradução de alguns termos no seu laptop. "As pessoas trabalham bem. É por isso que a economia alemã é a melhor da Europa." Com efeito, a Alemanha foi o único país forte da zona do euro a escapar dos rebaixamentos de crédito que atingiram seus vizinhos. E o país continua a ser a âncora da economia continental.

A despeito de tudo isso, a Alemanha tem seu quinhão de desafios. A desigualdade de renda, embora menos pronunciada que nos EUA, está crescendo. A maioria dos trabalhadores, entre eles os Kruger, teve pouco ou nenhum aumento do salário real nos últimos anos. E a população do país está em declínio. E agora, com a Europa na lona, a Alemanha enfrenta uma queda em seus mercados de exportação e a perspectiva de ter de desembolsar outras dezenas de bilhões de dólares para ajudar a salvar seus vizinhos estrangulados da zona do euro.

Mesmo assim, a confiança das empresas e dos consumidores alemães tem se sustentado. A taxa de desemprego do país caiu para 6,8% no mês passado, o ponto mais baixo em duas décadas e consideravelmente inferior às taxas que prevalecem na maioria da Europa e nos EUA. E embora sua produção industrial esteja começando a desacelerar, a Alemanha até agora manteve um superávit comercial significativo com o resto do mundo, incluindo a China. A economia da Alemanha lembra a dos EUA de uma geração atrás.

Desenvolvimento. Em 1975, a indústria respondeu por cerca de 20% da produção econômica, ou o Produto Interno Bruto (PIB), dos EUA, aproximadamente o mesmo que na Alemanha hoje. De lá para cá, a participação da indústria americana no PIB caiu para cerca de 12%.

Em 1975, o déficit fiscal americano era um manejável 1% da economia, aproximadamente o mesmo que o da Alemanha hoje. No ano passado, o déficit americano alcançou cerca de 10%.

A Alemanha, como a China, promove ferozmente suas exportações e tem relutado em aumentar os gastos domésticos, frustrando Washington, que gostaria de vender mais produtos americanos no exterior. Isso pode ser bom para a Alemanha, mas muitos críticos dizem que a falta de consumo do país causa desequilíbrios pouco salutares para as economias regional e global, da mesma forma que o excesso de consumo e endividamento nos EUA.

Mas as práticas e o estilo de vida da Alemanha estão profundamente entranhados numa cultura que teme o endividamento e a inflação. Por exemplo, o país desencoraja de muitas maneiras o consumismo. Os impostos sobre bens e serviços são altos. Muitas lojas e restaurantes na Alemanha fecham aos domingos. Muitas lojas menores nem aceitam cartões de crédito.

O endividamento familiar na Alemanha vem aumentando, mas continua abaixo do existente em outros países desenvolvidos. A título de comparação, o endividamento familiar na Alemanha ficou em 97,5% da receita total após o pagamento de impostos em 2010, ante 125% nos EUA.

Mesmo assim, os Kruger e outros alemães estão vendo um aumento nos gastos descontrolados, especialmente entre os jovens. Volkmar disse que recebe muitas ofertas de cartões de crédito. O aumento do marketing não significa, contudo, que muitos consumidores estejam obtendo crédito.

"Na verdade, não é crédito fácil", disse Fasun Batmaz, gerente de uma unidade de consumo do TeamBank cujo nome, Easy Credit, oculta o processo rigoroso e os requisitos estritos. "Só um punhado consegue."

Desemprego. A taxa de desemprego mais baixa da Alemanha também reflete sua orientação para o treinamento vocacional formal.

O filho mais velho dos Kruger, Thorsten, era interessado por livros desde tenra idade, e se preparou para uma formação acadêmica. Sua filha, Nadine, recebeu um diploma profissional em assistência social que incluiu três anos de treinamento escolar após a faculdade, em que o ano final é de treinamento no emprego com metade do salário.

Cerca de um quarto de todas as empresas alemãs toma parte nesse programa de treinamento; seis em cada dez trainees acabam sendo contratados em caráter permanente, disse Dirk Werner do Instituto de Pesquisas Econômicas de Colônia.

Ele disse que a prática é a principal razão para a Alemanha ter umas das taxas de desemprego mais baixas para jovens de 15 a 24 anos - cerca de 9,7%, segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico em Paris. Nos EUA, a taxa comparável é aproximadamente o dobro.

Volkmar e outros atribuem parte da taxa mais baixa de desemprego à ética do trabalho alemã. Mas os alemães trabalham, em média, menos horas por ano que os americanos graças, em parte, a cinco ou seis semanas de férias. A duração das férias dos Kruger é típica da maioria dos alemães. Quando vão à França, os Kruger acampam numa velha Kombi, mas ainda assim esperam gastar cerca de US$ 3 mil em três semanas.

Nos recentes feriados natalinos, eles fizeram uma viagem de trem de 45 minutos a Frankfurt para comprar presentes de Natal. Compraram presentes práticos: uma bandeja de café, uma tábua de cortar e uma camisola para Nadine. Para Thorsten, o casal comprou um kit de ferramentas de fabricação alemã.

Volkmar riu quando lhe foi questionado por que comprou ferramentas para o filho. Thorsten pediu, ele disse, acrescentando um pouco encabulado: "A Kombi precisa de reparos". / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK  DON LEE É JORNALISTA ESPECIALIZADO EM ECONOMIA

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