Por que os curdos não lutarão contra o Isil?

Apesar dos apelos de Washington e Teerã, líderes do Curdistão não parecem dispostos a impedir que forças de Abu al-Baghdadi destruam o Estado iraquiano

OMER , AZIZ, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2014 | 02h04

Washington e Teerã divergem em muitas questões, mas uma opinião é unânime: os curdos poderiam ajudar a salvar o Iraque. Nas últimas semanas, o secretário de Estado americano, John Kerry, e diplomatas iranianos insistiram para os curdos combaterem o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isil, na sigla em inglês), movimento islâmico extremista que capturou cidades e refinarias no norte do Iraque. As milícias curdas, aguerridas e disciplinadas (os peshmerga), são uma força tremenda.

Para o governo regional do Curdistão no norte do Iraque, o Isil é uma doença fatal destruindo o país. Mas isso, segundo eles, é bom porque um Iraque dividido pode significar um futuro Curdistão independente.

Os curdos não acham que o responsável pelo desastre sectário seja o comandante do Isil, Abu Bakr al-Baghdadi, mas o primeiro-ministro iraquiano Nuri al-Maliki. Para eles, Maliki é o inimigo número um, político sectário brutal que pôs fim à tentativa do Iraque de se tornar uma república democrática aberta a todos e isolou as minorias do país. Os curdos não acreditam que esse projeto possa ser reabilitado.

Como o Isil, os curdos hoje contemplam este Estado em ruínas que foi consolidado há um século e rapidamente traçado no mapa por uma mulher branca britânica. O premiê do Curdistão diz não acreditar que o Iraque possa permanecer unido.

Massoud Barzani, presidente da região autônoma do Curdistão, declarou à emissora americana CNN antes de uma reunião com Kerry que "este é o momento para o povo do Curdistão determinar seu futuro". Os curdos estão próximos da independência como nunca estiveram.

Rejeição. O Curdistão iraquiano odeia Bagdá por duas razões. A primeira é Maliki ter bloqueado suas tentativas para exportar petróleo independentemente - um ato de "guerra econômica", de acordo com o ministro do Exterior "de facto" do Curdistão, Falah Mustafá. Com valiosos recursos energéticos sob seus pés, os curdos preveem um futuro econômico seguro para seus filhos, cujos pais e avós foram massacrados por Saddam Hussein e traídos pelo Ocidente.

A segunda razão é considerarem Maliki e seu sectarismo xiita uma ameaça existencial. Os curdos dizem que não combateram ao lado das forças americanas em 2003 para substituir um autocrata sunita por outro xiita.

Apesar de serem democratas seculares, os líderes curdos têm interesses que convergem com os do Isil. Ambos são sunitas e foram marginalizados por Bagdá. O irônico nisso tudo - e um indicativo da fragilidade das alianças políticas no Oriente Médio - é que o Isil dependeu da velha rede baathista para fazer sua rápida incursão no Iraque. Naturalmente, o Baath era o partido de Saddam Hussein, mas hoje faz parte da oposição sunita ao governo de Maliki.

Os curdos não combatem o Isil por uma razão simples: não é do seu interesse. Eles certamente se enfrentaram em conflitos localizados, mas quando as forças iraquianas, fugindo do grupo insurgente, abandonaram a cidade de Kirkuk, os peshmerga rapidamente se apoderaram dela e o Isil deixou-os tranquilos. Há notícias até de que o Isil tenha proposto uma trégua para os combatentes curdos.

Perspectivas. Vi pela primeira vez o Curdistão iraquiano no ano passado. Além das inúmeras gruas e arranha-céus, o que observei foram pessoas bastante confiantes das suas perspectivas futuras, apesar do caos em torno delas. Temos nosso petróleo, temos os peshmerga, era o que afirmavam.

Essa autoconfiança esteve à mostra na semana passada quando Kerry pediu à liderança curda para reunir-se com ele em Bagdá. Eles imediatamente disseram não à proposta, convidando o secretário de Estado americano a visitar sua capital, Irbil.

Quando encontrei-me com o ministro do Exterior curdo, ele insistiu na posição dos curdos em favor do desenvolvimento e da democracia. Indagado sobre a independência - ou seja, a constituição de um novo Estado fazendo fronteira com Iraque, Síria, Irã e Turquia -, ele enfatizou que os curdos estavam comprometidos com um Iraque pluralista e democrático. Isso foi no ano passado e todas as condições que ele mencionou desde então se extinguiram.

Israel e Turquia hoje apoiam um Curdistão independente. Com a queda do Iraque, o Curdistão floresceu. "Estamos muito bem", um amigo escreveu-me recentemente. E estão.

Um velho adágio curdo que diz "não temos amigos exceto as montanhas" poderá em breve sofrer alguma alteração, porque um Curdistão democrático, independente e rico em petróleo terá uma abundância de pretendentes num Oriente Médio desgastado por guerras. Os curdos não estão dispostos a colocar em risco essa preciosa situação submetendo-se à vontade de Washington e Teerã. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É ESCRITOR E JORNALISTA

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