Por que os EUA não têm margem de manobra com Teerã

Embora o fim da capacidade iraniana de enriquecer urânio seja o resultado ideal, essa possibilidade não é realista por seis motivos:

15 de outubro de 2013 | 11h32

Primeiro. Rohani não aceitará o fim prematuro do enriquecimento de urânio. Em 2003, quando ocupava o cargo de chefe da equipe de negociadores iranianos, ele convenceu o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, a aceitar uma suspensão temporária do enriquecimento. O diálogo com a comunidade internacional, porém, foi interrompido no início de 2005, em razão da falta de um acordo a respeito do direito do Irã ao enriquecimento. Pouco depois, Teerã decidiu desconhecer a suspensão. Rohani acredita - assim como seus críticos na Guarda Revolucionária e o líder supremo - que o Ocidente se apoderou das concessões iranianas e Teerã nada obteve em troca.

Segundo. É uma questão de orgulho e de princípio para a república islâmica. O regime investiu uma parte muito grande da sua legitimidade interna na defesa dos "direitos" do Irã ao enriquecimento para uso civil. O programa nuclear e "a resistência a potências arrogantes" estão firmemente arraigados na razão de ser da república islâmica. Khamenei, a quem cabe a última palavra sobre a questão nuclear, e a Guarda Revolucionária não desistirão absolutamente do programa, porque isso poderia ser visto tanto por seus partidários quanto por seus adversários como uma derrota total. Entretanto, Khamenei poderá aceitar um acordo que limite o programa nuclear, mas permita um enriquecimento reduzido. Com esse acordo, ele pode se gabar ao povo iraniano: "Eu disse que nós jamais quisemos armas nucleares e insisti que os nossos direitos deveriam ser respeitados. Agora, eles o são".

Terceiro. Se o Irã quiser prosseguir com o programa, as sanções não conseguirão detê-lo a tempo. Embora os falcões acreditem que Teerã está à beira do colapso e novas sanções possam obrigar o Irã a desmantelar completamente seu programa nuclear, as trajetórias econômica e nuclear não convergem. Evidentemente, a economia do Irã está em condições desastrosas e o desejo de aliviar a pressão aumenta a aparente disposição do regime de negociar. No entanto, apesar dos atuais sofrimentos, o Irã não enfrenta um iminente colapso econômico.

Quarto. Washington continua sendo um espantalho muito eficiente. Khamenei, provavelmente, acredita que a eleição de Rohani e o tom moderado do novo presidente proporcionarão suficiente credibilidade interna e internacional para reduzir os riscos do fracasso da diplomacia. O mecanismo de pressão capaz de afetar os cálculos iranianos é a preocupação do regime com a agitação popular. As negociações do P5+1 deverão fracassar em razão da insistência de Washington no fim do enriquecimento, fracasso que o público iraniano, provavelmente, atribuirá aos EUA, não ao regime.

Quinto. A pressão será menos eficaz se os EUA mostrarem intransigência. Se o diálogo fracassar porque Washington não se dispôs a um acordo, será também mais difícil incrementar as sanções da ONU. As aberturas diplomáticas de Rohani, sejam ou não autênticas, já conseguiram mudar a percepção internacional sobre o Irã. Se os EUA, e não o Irã, surgirem como a parte irracional, será muito mais difícil manter a coalizão internacional que hoje isola Teerã.

Sexto. Uma posição intransigente pode empurrar o Irã na direção da bomba. Finalmente, se as negociações fracassarem e os EUA insistirem em adotar uma posição radical, Khamenei e outros líderes da linha dura no Irã interpretarão isto como prova definitiva de que o verdadeiro objetivo de Washington é mudar o regime no Irã, e não um acordo nuclear. Se essa percepção se consolidar, ela aprofundará as motivações do Irã para buscar um instrumento de dissuasão nuclear como meio de garantir a sobrevivência do regime. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

COLIN KAHL É PROFESSOR DA

UNIVERSIDADE GEORGETOWN

ALIREZA NADER É ANALISTA DA

RAND CORPORATION

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