Por que os italianos ainda votam no 'Cavaliere'?

Análise:

O Estado de S.Paulo

01 de março de 2013 | 02h08

Francesco Giumelli e Davide Maneschi / NYT

Acompanhar os resultados das eleições na Itália é como assistir ao mesmo filme várias vezes sempre esperando um final diferente, mas jamais conseguindo. Os espectadores saem do cinema sempre com a mesma pergunta: por que os italianos continuam a votar em Silvio Berlusconi? Os estrangeiros têm dificuldade para compreender porque um magnata da mídia que quase levou a Itália à beira da falência em 2011, acusado de fraudes fiscais, ligações com a máfia, exploração de menores e má administração pública, ainda consegue concorrer e empatar com outros candidatos nas eleições nacionais. Mas os italianos não estão surpresos, por várias razões: quando as primeiras pesquisas de boca de urna mostraram o ótimo resultado obtido pelo Partido Povo da Liberdade, de Berlusconi, a Mediasete, empresa de mídia controlada pela família dele, registrou um ganho de 10% na Bolsa de Milão. Este desempenho da empresa na bolsa foi emblemático do profundo envolvimento da política italiana com os interesses econômicos e de mídia de Berlusconi.

Além de ser um dos homens mais ricos do país, as empresas de Berlusconi deram a ele a possibilidade de influir bastante em todos os aspectos da vida econômica italiana. A Freedom House listou a Itália como o único país da Europa Ocidental com uma imprensa "parcialmente livre".

Mas explicar a popularidade política de Berlusconi somente por sua influência na mídia seria muito simplista. A segunda razão é que inúmeras pessoas se beneficiam diretamente com sua vitória. Desde 1994 ele criou um grande eleitorado, formado por empresários e indivíduos que se beneficiam das normas indulgentes estabelecidas pelo governo.

Além disso, historicamente, os eleitores italianos sempre foram atraídos pelo "uomo forte", um líder carismático capaz de, sozinho, resolver os problemas do país. Com seu aspecto sempre juvenil, ternos elegantes e uma exibição quase desavergonhada da sua riqueza, Berlusconi ajusta-se sem nenhum esforço a essa imagem.

Mas o importante é que os italianos formam uma nação que aclama um partido político cega e intensivamente da mesma maneira que aplaude a equipe de futebol favorita. Na verdade, Berlusconi controla uma equipe de futebol, mas o fato é que esse hábito está enraizado no longo confronto da Guerra Fria entre dois partidos políticos, os democrata-cristãos e os comunistas.

Sem dúvida existem outras razões para o sucesso de Berlusconi nas eleições, incluindo a ausência de um líder carismático no campo da centro-esquerda. Mas a resiliência de Berlusconi no cenário político italiano nos últimos 20 anos tem raízes mais profundas. Os fatores que levam os italianos a votar em Berlusconi são os mesmo que estão levando a Itália para longe da realidade e na direção de um declínio econômico, cultural e social. Enquanto isso a Europa e o restante do mundo esperam, perplexos, que a sala de cinema seja fechada. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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