Sergio Flores/The Washington Post
Sergio Flores/The Washington Post

Como a votação no Texas ajuda a explicar o voto latino em Trump

Grupo compareceu em números recordes este ano nas eleições nacionais, mesmo com os partidos políticos criando vários mal-entendidos e generalizações na hora de reivindicar seu apoio

Arelis R. Hernández, Brittney Martin, The Washington Post

11 de novembro de 2020 | 10h00

SAN ANTONIO - Embora o presidente eleito Joe Biden não tenha vencido no Texas, ele chegou mais perto do que qualquer outro candidato presidencial democrata em anos, perdendo o Estado por seis pontos - um estreitamento possibilitado pelos eleitores latinos dos redutos urbanos.

Mas algo diferente aconteceu ao longo do Rio Grande.

Os republicanos aumentaram seus números nos condados predominantemente hispânicos e consistentemente democratas ao longo da fronteira, aproveitando o habitual subinvestimento e a falta de infraestrutura na região, bem como o abandono por parte do Partido Democrata nos níveis estadual e nacional.

A mudança se deu ao longo da fronteira de quase 2 mil quilômetros, do populoso delta de Brownsville e McAllen até os campos esparsos perto de Laredo e o deserto de El Paso.

Biden fez maiorias em quase todos os condados, mas por margens dramaticamente menores do que Hillary Clinton em 2016. Clinton venceu os condados de Starr e Hidalgo por margens expressivas - 60 e 40 pontos percentuais, respectivamente. Biden venceu o Condado de Starr por 5 pontos e Hidalgo por 17.

O mais azul dos condados azuis ao longo do rio, o condado de Zapata, passou para o presidente Donald Trump, que obteve 52,5% dos votos. Foi a primeira vez desde a Reconstrução que um candidato presidencial republicano venceu no condado de Zapata.

Os condados de Zapata e Starr são pequenas comunidades que talvez nunca influenciem uma eleição. Mas a história do desempenho de Trump e do retrocesso de Biden ao longo da fronteira do Texas, dizem os especialistas, mostra a importância de cultivar relacionamentos mais profundos com uma população latina diversa que continua a reivindicar uma parcela crescente e dominante do eleitorado do Texas.

Alfonso Solis era um trabalhador da indústria petrolífera desempregado quando Donald Trump ascendeu à presidência e prometeu empregos. Pouco depois, o rapaz de 32 anos encontrou um emprego estável no oeste do Texas. Ele votou em Trump este ano.

Alisa Rios-Carroll não conseguia parar de sorrir quando os fiscais eleitorais tocaram uma sineta por ela ter depositado sua primeira cédula na urna, na terça-feira. Recém-formada na faculdade, ela pulou a eleição de 2016, mas disse que a pandemia e os cuidados de saúde a levaram a votar em Biden.

Ambos são mexicano-americanos, ou tejanos - o maior grupo latino do Texas. Os latinos de todo o país votaram em números recordes este ano, mesmo com os partidos políticos criando vários mal-entendidos e generalizações na hora de reivindicar seu apoio nas eleições nacionais.

Suas diferenças representam um retrato complexo dos latinos no Estado da Estrela Solitária e no país em geral. As várias comunidades que compõem os “latinos” do Texas são diversas em termos de classe social, assimilação, geração, educação, história de imigração e região. Isto traz ao comportamento político uma camada de nuances que as pesquisas e os modelos não conseguem captar, colocando em xeque as definições ideológicas e exigindo um envolvimento significativo.

“Eles são conservadores, liberais, indiferentes e híbridos”, disse Trinidad Gonzales, professora de história e estudos mexicano-americanos no South Texas College. “Parte da injustiça de viver como minoria nos Estados Unidos é não receber a mesma compreensão da personalidade e suas complexidades e contradições do que as outras pessoas”.

Os latinos representam cerca de 30% dos eleitores do Texas e mais de 40% da população. Mas, a cada ano, mais de 203 mil latinos atingem a idade de votar no estado, disse Rogelio Saenz, demógrafo da Universidade do Texas em San Antonio. Embora a migração de brancos para o estado tenha diminuído, disse Saenz, houve um aumento significativo de latinos e afro-americanos que se mudaram para o Texas nos últimos anos.

“Há evidências em todos os níveis da votação”, disse Michelle Tremillo, diretora executiva do Texas Organizing Project. “Se você quer o voto latino, precisa merecê-lo”.

Republicanos crescem entre os latinos

Ross Barrera não ficou feliz com o que encontrou em sua cidade natal, Rio Grande City, depois de se aposentar do Exército dos Estados Unidos em 2017. O republicano de longa data repudiava o regime democrata que dominava o governo local e o distrito escolar - os maiores empregadores de um condado onde existem poucas opções de trabalho.

Barrera foi encorajado por seu primo Luis Saenz, chefe de gabinete do governador republicano Greg Abbott, a assumir o comando do Partido Republicano local. Ele aproveitou as dicas de seu homólogo no condado vizinho de Hidalgo, Aron Peña, que se valeu do que aprendera como agente da campanha democrata para atrair democratas hispânicos descontentes para o Partido Republicano.

Peña e sua família trocaram de partido em 2010, ajudando a formar os alicerces para o ressurgimento das bases republicanas no Vale do Rio Grande. Eles organizaram grupos de armas, de pais de escoteiros, de estudo bíblico e fundaram seções de comitês republicanos para apresentar candidatos conservadores ao governo. Eles encorajaram os grupos religiosos a votar não em partidos, mas em valores, promovendo especificamente questões anti-aborto e ascensão social em uma das regiões mais pobres e religiosas do país.

“Os republicanos às vezes zombam do passado de Obama como organizador comunitário. Mas eu os corrijo, porque ele teve a ideia certa. Pegamos esse manual democrata e o aplicamos aqui”, disse Peña. “Aproveitamos o afastamento do Partido Democrata em relação aos centristas”.

Os republicanos do Texas não veem as mudanças demográficas como uma sentença de morte para seu partido. Abbott fez quase vinte visitas ao Vale do Rio Grande durante sua campanha para governador de 2014, e ali foi sua primeira parada na candidatura à reeleição em 2018. Ele obteve o endosso de líderes locais e fez campanha pelos republicanos na região.

Barrera usou a campanha para organizar seus vizinhos. Os amigos aos poucos começaram a se juntar a ele nas redes sociais para defender as políticas de Trump e pontos de vista conservadores.

“Alguns dos meus amigos da cidade me perguntaram: ‘Por que não fazemos uma carreata pró-Trump?’”, Barrera lembrou. Ele não tinha certeza se havia republicanos suficientes para fazê-la funcionar.

Quarenta e seis carros apareceram. E outros mais continuaram chegando.

Barrera se descreve como um americano ou texano de ascendência mexicana cuja família vive no Estado há gerações e que fala inglês ou “Tex-Mex”, em vez de espanglês. Ele ainda se lembra das palmadas das freiras por falar espanhol na escola católica. Quando estava no exército, disse ele, não havia identidades hifenizadas, apenas americanos.

“É difícil ser republicano aqui, porque você está saindo da norma”, disse Barrera.

Os vizinhos de Barrera são agentes da Patrulha de Fronteira e da Alfândega dos Estados Unidos, veteranos e trabalhadores de petróleo e gás que ele afirma serem naturalmente conservadores. Muitos latinos aqui também se identificam como brancos e não seguem uma identidade pan-étnica para além de sua identidade texana.

“Os hispânicos foram aculturados no Texas por muitas gerações e, por causa disso, suas percepções são muito mais parecidas com as da população anglo”, disse Jason Villalba, presidente da Fundação de Política Hispânica do Texas.

A cientista política Sharon Navarro, da Universidade do Texas em San Antonio, disse que o conservadorismo de alguns latinos do Texas não é novidade, principalmente nas comunidades rurais. A diferença este ano é que os republicanos trabalharam para cortejar esses eleitores e adaptar sua mensagem sobre a eleição em torno da economia e do emprego.

Os republicanos disseram estar convencidos de que as margens que conquistaram no Vale do Rio Grande são um sinal de que a política da região está tendendo a seu favor.

“O futuro do sul do Texas é republicano”, disse Peña.

Ideologia contra engajamento

Julián Castro, ex-prefeito de San Antonio e candidato democrata à presidência, disse que não acredita que os latinos do Texas sejam naturalmente inclinados ao conservadorismo.

Os democratas ainda conquistaram uma grande maioria de votos nas comunidades e subúrbios mais populosos do Texas. A análise da Iniciativa Política Latina da UCLA mostrou que Biden ganhou mais de três quartos dos votos em distritos com alta concentração de latinos nos condados de Dallas, Tarrant, Travis e El Paso, que abrangem Austin e Fort Worth.

Mesmo no Vale, os eleitores mostraram abertura às plataformas liberais - os democratas escolheram o senador Bernie Sanders nas primárias. A mudança para o vermelho na região da fronteira é uma questão de engajamento, disse Castro.

“A comunidade latina é simplesmente importante demais para a coalizão democrata permitir qualquer tipo de erosão”, disse ele. “É muito importante gastarmos tempo entendendo o que aconteceu ao longo da fronteira”.

Jen Ramos, líder do comitê executivo do Partido Democrata do estado, ficou em silêncio na terça-feira quando viu quantas pessoas na fronteira votaram em Trump, inclusive em sua cidade natal, Laredo.

“Mas você não quer dizer ‘eu avisei’ na noite da eleição”, disse ela.

Embora houvesse alguma organização liberal nessas comunidades, Ramos disse que não era suficiente e chegou tarde demais. Os principais democratas do estado são quase todos do sul do Texas, mas não ofereceram uma mensagem alternativa. Em 2018, Beto O’Rourke, candidato malsucedido ao Senado, teve resultados ruins na votação do Vale.

“Nós, como partido, precisamos consertar isso e reconquistar a confiança dos nossos eleitores”, disse Ramos.

Jessica Cisneros tem algumas ideias. A campanha da jovem advogada de imigração para tomar o assento do deputado Henry Cuellar - um democrata de longa data conhecido por votar com os republicanos em algumas questões - nas primárias democratas no primeiro semestre começou como uma resposta liberal ao desencanto de seus vizinhos.

“Você tem um monte de gente que sente que foi negligenciada e continua votando nos democratas, mas nada mudou no partido”, disse ela. “Esta área, antes da pandemia, tinha uma taxa de pobreza de 30% e um quarto da população não tem seguro de saúde. Dá para entender por que as pessoas podem estar abertas ao voto republicano”.

Mas os democratas disseram que isso não significa que não possam recuperar o apoio. A campanha de Cisneros era “descaradamente progressista”, mas, quando ela batia às portas, a candidata não usava rótulos ideológicos. Em vez disso, ela explicava como a política afetava diretamente a vida dos cidadãos. Cisneros acabou conquistando o condado de Hidalgo, mas ficou atrás no resto do distrito.

O Fundo Educacional do Projeto Organizador do Texas encomendou um estudo sobre eleitores latinos em todo o Estado que descobriu que eles têm dificuldade de conectar seus interesses políticos com as políticas das pessoas que estão no poder e que não se identificam fortemente com os principais partidos.

Arturo Zuniga e Betty Estrada votaram pela primeira vez em dois locais de votação diferentes em San Antonio no último dia da votação antecipada. Ambos disseram que não viam como a política impactava suas vidas até os últimos quatro anos. Eles votaram em Biden.

“Este ano eu não podia deixar passar”, disse Zuniga, 65 anos, segurando o adesivo de votação em suas mãos como um totem precioso.

“Tudo está terrível”, disse Estrada, de 56 anos, que perdeu amigos na pandemia e temia que seu voto não importasse. “Era mais importante desta vez”.

Os democratas do Estado disseram que o partido está fazendo uma autópsia para reconquistar os eleitores latinos. Mas alguns ativistas políticos latinos que alertaram sobre a mudança dos ventos políticos disseram que o manual já foi escrito - por eles. O partido só precisa ouvir.

A mensagem: Não existe voto latino. Existem milhões de latinos que votam. E, no Texas, vale a pena resistir ao impulso de simplificar demais.

“Invista nos latinos em todos os lugares. É complicado e não é complicado”, disse Cristina Tzintzún Ramirez, fundadora da organização liberal latina Jolt. “Gaste dinheiro com os latinos. Fale com eles o quanto antes e se certifique de que você está compreendendo as diferenças regionais e culturais”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU  

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