AFP PHOTO / Nazeer al-Khatib
AFP PHOTO / Nazeer al-Khatib

Por que os moradores de Duma fugiram após o ataque de Assad?

Quem estava na cidade relata cenas de horror após lançamento de agentes químicos

Ben Hubbard, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

13 Abril 2018 | 05h00

O ataque na cidade síria de Duma, no sábado, onde foram usadas armas químicas, ecoou muito além do lugar já arrasado pelo conflito: fez subir a tensão entre potências mundiais e deu nova dimensão à multifacetada guerra civil síria

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Embora grande parte do ataque ainda não tenha sido esclarecida, o New York Times assistiu a mais de 20 vídeos, ouviu gravações de voos conseguidas por observadores e entrevistou uma dezena de moradores, paramédicos e socorristas. O material sugere que, durante uma ofensiva militar desfechada para expulsar rebeldes de Duma, forças favoráveis ao governo da Síria lançaram algum tipo de componente químico que sufocou até a morte pelo menos 33 pessoas e deixou muitas lutando para sobreviver quase sem conseguir respirar.

“Imagine o dia do Juízo Final, com morte por todos os lados”, disse o estudante Al-Hanash. “É uma cena que não desejo que ninguém presencie: idosos, mulheres e crianças sofrendo e gritando.”

Seja qual for a munição empregada, o ataque surtiu efeito. Horas depois, enquanto equipes de socorro ainda enfileiravam corpos nas ruas, os rebeldes concordaram em entregar a cidade e seguir de ônibus com as famílias para outra área em poder da insurgência. 

Duma, uma modesta cidade a noroeste de Damasco, estava sob controle da oposição desde os anos iniciais da rebelião e era o último bastião rebelde da área conhecida como Ghouta Oriental. 

Na sexta-feira, com o fracasso das negociações com os insurgentes, o governo iniciou uma nova ofensiva contra a cidade, bombardeando-a por terra e ar. Após um bombardeio na tarde de sábado, 15 pessoas começaram a sufocar, segundo Mahmoud Adam, da Defesa Civil Síria, um grupo voluntário também conhecido como Capacetes Brancos. Testemunhas disseram que o cheiro era de cloro.

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À noite, Al-Hanash ouviu os helicópteros e o assobio que, para ele, era causado pela queda de barris com algum produto químico. Quando os barris caíam, espalhava-se um cheiro que descreveu como “adocicado”. Logo, pessoas abrigadas num porão começaram a gritar e seis foram carregadas desmaiadas por socorristas. Al-Hanash não sabe o que aconteceu com elas.

Um terceiro foi encontrado no telhado de um prédio. Socorristas e um ativista, que pediram anonimato, encontraram dezenas de homens, mulheres e crianças mortos no andar de baixo. Na cena gravada, os mortos não tinham ferimentos visíveis, mas da boca e do nariz de alguns saía uma espuma branca. Outros aparentavam ter sofrido queimaduras na córnea. 

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Após o ataque, uma leva de vítimas chegou a uma clínica local. Os paramédicos, exaustos e quase sem suprimentos, só puderam lavar os pacientes com mangueiras e tratar alguns com os poucos respiradores e medicamentos disponíveis. Uma das vítimas teve espasmos musculares e lutou para respirar, mas pôs sangue pela boca, desmaiou e morreu. A Defesa Civil Síria conseguiu identificar 35 mortos. Outros oito não puderam ser identificados. 

O dia seguinte amanheceu silencioso. Quando moradores saíram das casas e abrigos, viram que os rebeldes haviam se rendido. O governo retomou o controle de Duma pela primeira vez em mais de cinco anos. Rebeldes e dezenas de milhares de moradores foram levados de ônibus para outra área rebelde, no norte da Síria. 

“Ninguém anunciou nada, mas é claro que houve um acordo”, disse Mahmoud Bweidany. “O bombardeio parou e pudemos sair de casa e ver nossa cidade totalmente destruída.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

 

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