Por que os terroristas estão saindo como vencedores

CENÁRIO: Leonid Bershidsky / BLOOMBERG

O Estado de S.Paulo

10 Janeiro 2015 | 02h02

Apesar de a polícia francesa ter matado os suspeitos do ataque contra o semanário Charlie Hebdo, os terroristas, pelo menos em dois aspectos, venceram: conseguiram atemorizar várias organizações de notícias poderosas e fomentaram a islamofobia europeia que ajudará os islamistas a recrutar mais simpatizantes.

Imagine que você é um líder terrorista lendo as notícias neste momento. Você colocará no ridículo as imagens das grandes manifestações nas cidades europeias em solidariedade às vítimas do ataque.

As pessoas nas ruas carregam cartazes dizendo "não temo" ou "Je suis Charlie" (Eu sou Charlie), mas essas multidões não são de jornalistas. Algumas organizações de notícias preferiram censurar imagens em que charges do Charlie Hebdo são visíveis, entre elas o Telegraph, de Londres, o New York Daily News e a Associated Press. Esta última na verdade baixou os cartoons para seu banco de dados, mas depois os deletou. Grandes redes de TV americanas também se recusaram a mostrar essas imagens, dizendo que são contrárias às suas políticas.

The New York Times e a CNN optaram por descrever as charges, mas não exibi-las, alegando que isso dará aos leitores uma compreensão da história, mas não ofenderá sensibilidades religiosas: afinal, o Islã se opõe precisamente a imagens irreverentes do profeta Maomé.

Um terrorista lendo tudo isso daria gargalhadas diante da hipocrisia: são charges, pelo amor de Deus, trabalhos de arte visual engraçados ou expressivos, apenas isso. É ridículo descreve-los verbalmente tentando explicar a piada. Aqueles que estabelecem as regras nessas organizações noticiosas podem se cobrir da cabeça aos pés com adesivos "Je suis Charlie", mas claramente não são Charlie.

Com certeza outras organizações têm defendido a liberdade de expressão ocidental face à forte resistência que deparam há décadas. Tenho orgulho de trabalhar para uma destas organizações. Mas há outras como The Huffington Post, o Expressen, da Suécia, o Daily Beast ou o Berliner Zeitung da Alemanha, o Berlingske, da Dinamarca.

No geral, contudo, para um terrorista que ler as notícias esse medo jornalístico é uma vitória convincente.

A segunda vitória é mais sutil. Após o ataque em Paris, o número de pessoas que "curtiram" a página no Facebook do grupo anti-imigração Pegida, na Alemanha, e tem realizado manifestações semanais em Dresden saltou de 7.500 para 120.500.

A página agora exibe uma tarja preta em memória das vítimas do Charlie Hebdo. E contém também uma das mais hipócritas mensagens que já li após um grande ataque terrorista: "Mesmo se o covarde ataque de Paris, um ataque contra a liberdade de expressão, a democracia, e a própria Europa, parece nos favorecer, não aproveitamos a oportunidade para dizer 'nós avisamos'. Não, exatamente porque não somos falastrões como os que nos vilipendiam, não somos nenhum grupo como aqueles que irrefletidamente afirmam 'nunca mais na Alemanha' e querem impedir nossas manifestações, na maior parte silenciosas. Continuamos em silêncio na tristeza, humildade e solidariedade com as famílias dos editores franceses que foram as primeiras vítimas. Permaneceremos calados e faremos uma caminhada na segunda-feira em silêncio e com faixas pretas nos braços."

Após os assassinatos, Marine Le Pen, líder do partido de extrema direita Frente Nacional, fez um discurso politicamente correto condenando o fundamentalismo islâmico, mas um de seus principais assessores, Wallerand de Saint-Just, explicou em uma entrevista antes de Marine se manifestar que o problema é o Islã, que "tem uma tendência a criar fanáticos mais do que qualquer outra religião", e a nacionalidade francesa dos suspeitos terroristas, o que torna impossível sua deportação.

O ataque de quarta-feira claramente vem encorajando forças anti-islâmicas e anti-imigração. Estas forças também estão colocando broches com a frase "Eu sou Charlie", apesar de o semanário ser uma publicação de esquerda que as tem colocado em ridículo com mais frequência do que o faz com relação a Maomé.

Neste ponto, o terrorista que está lendo as notícias esfregará as mãos. Afinal os grupos militantes islâmicos não querem que os muçulmanos europeus se integrem, tornem-se europeus como o editor da Charlie Hebdo, Mustapha Ourrad, e o policial Ahmed Merabet - ambos mortos no ataque - fizeram. Eles querem que os muçulmanos se unam para praticar mais atos terroristas ou partir para combater pelo Estado Islâmico. Com a mídia mal ocultando seu medo e a extrema direita em ascensão, os terroristas é que vencerão. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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