Por que presidentes dos EUA decepcionam

Esperamos demais quando se trata do desempenho presidencial. E não desistiremos da busca pelo bravo líder

É ANALISTA, ESCRITOR, AARON DAVID , MILLER, FOREIGN POLICY, É ANALISTA, ESCRITOR, AARON DAVID , MILLER, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2013 | 02h06

Seis meses após vencer uma reeleição impressionante, Barack Obama está enredado em alguns problemas - quase escândalos e desafios de política externa que não pode manejar.

Há muito que sumiram as esperanças e aspirações expressas naquele histórico dia de janeiro quando seus seguidores acreditavam - e seus detratores temiam - que ele se tornaria um presidente de fato transformador. Mas restaurar a fé dos americanos nas instituições nacionais e transcender o rancor partidário é mais fácil falar do que fazer.

Se me pedissem para resumir a presidência de Obama em meados de 2013, eu diria: ele tem sido um presidente histórico, mas deficiente, que conseguiu terminar as duas guerras mais longas dos EUA e ajudou o país a evitar um colapso econômico durante tempos sombrios. Consequente, sim. Grande, não.

Obama ainda pode se recuperar desse mau pedaço. Sortes mudam, em particular na curta duração de um mandato. E os julgamentos do legado de um presidente também podem mudar com o tempo - embora não tenha sido o caso para a maioria dos 43 antecessores de Obama.

Os americanos são muito lentos em aprender quando se trata de seus presidentes. Há muito que esperamos demais quando se trata do desempenho presidencial. E não desistiremos facilmente da busca por aquele líder bravo e virtuoso de princípios incomuns e conhecimento político. Se quiserem outro grande presidente, rezem por outra grande crise. Somente uma calamidade de alcance nacional consegue amansar nosso sistema político tornando as elites e o público receptivos a permitir que um presidente conduza a América, a indomável.

Eu lhes garanto que dentro de um ano ou dois, a máquina de viciar em presidência começará a produzir um novo conjunto de imagens para nos persuadir a ungir outro suposto líder para nos salvar. E as chances são de que ele - ou talvez ela, desta vez - provavelmente nos decepcionará também. O que há em nosso DNA político que nos predispõe dessa maneira? Por que não podemos ter expectativas realistas sobre nossos presidentes?

A presidência em si continua sendo o maior obstáculo ao sucesso. Os desafios que presidentes enfrentam excedem em muito os poderes à sua disposição. Os "pais fundadores" não queriam uma presidência fraca, mas estavam determinados a encontrar um equilíbrio entre depositar demasiado poder nas mãos de um governante ambicioso e popular capaz de solapar sua nova república, ou dar muito pouco poder à presidência, o que poderia produzir o mesmo resultado.

Para encontrar esse equilíbrio, os fundadores criaram um sistema político caracterizado pelo equilíbrio entre poderes que eram não só separados, mas compartilhados. O presidente tem grande poder: ele pode agir unilateralmente por decretos executivos, usar a visibilidade do cargo para comover o público, e acumular um grande poder, particularmente em tempos de emergência, para levar o país à guerra sem aprovação do Congresso. Mas não pode proteger os EUA das retrações de uma economia globalizada, fabricar bons empregos, ganhar guerras no exterior, ou fechar um vazamento de petróleo no Golfo do México.

Como confidenciou Lyndon Johnson, em 1968, sobre o Vietnã, "eu me sinto como um caroneiro numa estrada no meio de uma chuva de granizo no Texas. Não posso correr, não posso pegar carona e não posso fazer a chuva parar". Eu lhes garanto, às vezes, Obama se sentiu da mesma maneira. Observem a saga recente do controle de armas. A tragédia em Newtown não conseguiu superar os esforços do lobby bem organizado, nem mesmo com amplo apoio público.

A distância entre expectativas e realidade existe desde que políticos começaram a fazer discursos. E isso porque política tem a ver com o que se promete às pessoas - governança tem a ver com o que elas recebem.

À medida que o papel do governo crescia em nossas vidas, essa distância só fazia aumentar. Nós nos acreditamos com o direito de receber mais do que nunca do governo. Apesar de recearmos um excesso de governo e nos ressentirmos do seu alcance, continuamos a querer as mordomias que ele oferece.

No nexo da divisão entre o que esperamos e o que podemos ou não podemos ter está o presidente - a face dos EUA, o único no qual nós todos votamos, e aquele que esperamos que nos salve de uma economia ruim, de terroristas e de uma invasão alienígena.

Somos viciados em presidência. Nenhum aspecto isolado de nosso governo causa mais interesse e fascínio. Por isso, nós naturalmente supomos que é na presidência que está o poder. Os benefícios do cargo criam a imagem de um líder poderoso capaz de fazer coisas assombrosas. Mas não é bem assim. Obama tem apanhado tanto de amigos quanto de inimigos, pois não mostrou liderança.

Esperamos que nossos presidentes sejam um cruzamento de Super-homem, Moisés, Maomé e Jesus. E temos uma concepção quase caricatural de sua capacidade de fazer o restante das instituições americanas funcionar conforme a sua visão. O poder do presidente, como defendeu famosamente Richard Nixon, é o de persuadir. Mas as circunstâncias para essa persuasão precisam estar presentes - e na maior parte do tempo, não estão.

A presidência é demasiado fechada e pessoal. Para ser decepcionado, é preciso primeiro ter expectativas. Podemos nos fingir de realistas cínicos com respeito a nossos presidentes, mas não acreditem nisso. A natureza de nossa política e da mídia nos obriga a nos interessar pelo que se passa no Salão Oval.

Os fundadores não queriam uma presidência tão personalizada, mas ao fazer do povo americano a principal fonte de autoridade do cargo, criaram um laço indestrutível. A presidência é o único cargo nacional que todos podemos ajudar a moldar.

Apesar da proteção elitista dos formuladores - o colégio eleitoral - o vínculo popular entre a presidência e o público americano foi muito forte desde o início.

A personalização da presidência só se intensificou desde os tempos de Washington. Primárias diretas, a campanha permanente, e o ciclo de notícias 24 horas criaram uma imagem exagerada do presidente. O governo e a mídia querem que você acredite, é uma espécie de show de um homem só - e isso causou expectativas estratosféricas, levando presidentes a prometer bem mais do que podem cumprir. Isso tanto ampliou o caráter impositivo da presidência, quanto banalizou o cargo.

Há um risco constante de a supersaturação de mídia despojar a mística requerida da liderança. A mídia garante um fluxo constante de informação em excesso, e presidentes, com frequência, topam colaborar.

O presidente tem de jogar muitos jogos em casa - ao mesmo tempo. O caráter ininterrupto do cargo cria uma situação que nenhum indivíduo pode gerir sozinho. Some-se a isso um Congresso polarizado e um mundo integrado que os EUA não podem controlar, e não surpreende que a presidência seja um trabalho impossível, implausível talvez. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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