Alexey Nikolsky/AFP - 24/2/2022
Alexey Nikolsky/AFP - 24/2/2022

Por que Putin está em guerra mais uma vez? Porque ele continua vencendo

O rearmamento da Rússia na última década e meia não foi acompanhado por um aumento comparável nas capacidades ocidentais

Chris Miller*, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2022 | 17h00

Nos dias de hoje, quando se trata de empregar o poderio militar, não há líder mundial com histórico mais vencedor do que o presidente russo, Vladimir V. Putin. Seja contra a Geórgia em 2008, a Ucrânia em 2014 ou na Síria desde 2015, os militares russos repetidas vezes converteram sucessos nos campos de batalha em vitórias políticas. O rearmamento da Rússia na última década e meia não foi acompanhado por um aumento comparável nas capacidades ocidentais. Não é de surpreender, portanto, que a Rússia se sinta encorajada a usar seu poderio militar enquanto o Ocidente só fica de prontidão.

As últimas três guerras da Rússia são bons exemplos de como empregar a força militar de maneiras limitadas para alcançar objetivos políticos. A invasão da Geórgia em 2008 durou cinco dias, mas forçou o país a fazer concessões políticas humilhantes. Na Ucrânia, em 2014, a Rússia mobilizou unidades militares regulares por algumas semanas, mas isso foi suficiente para forçar Kiev a assinar um doloroso acordo de paz.

Quando a Rússia interveio na Síria em 2015, alguns analistas ocidentais previram um desastre semelhante à invasão soviética do Afeganistão, que começou em 1979 e se encerrou, depois de uma década de atoleiro, em retirada. Mas, em vez disso, a guerra civil da Síria serviu como campo para os russos testarem seus armamentos mais avançados.

Na última década, os americanos passaram a acreditar que a força da Rússia está nas táticas híbridas – guerra cibernética, campanhas de desinformação, operações secretas – e na sua capacidade de se intrometer na política doméstica dos outros países.

No entanto, enquanto procuramos fantasmas russos por atrás de cada post de desinformação no Facebook, a Rússia substituiu o exército mal equipado que herdara da União Soviética por uma força de combate moderna que tem tudo, desde mísseis novos até sistemas avançados de guerra eletrônica.

Hoje, a ameaça à segurança da Europa não é a guerra híbrida, mas o poderio bruto, visível nos mísseis de cruzeiro que atingiram a Ucrânia.

“Somos mais de 50% do PIB global”, argumentou recentemente Jake Sullivan, conselheiro de segurança nacional do presidente Biden, contrastando esse dado com a inexpressiva participação de 3% da Rússia na produção econômica mundial. Mas as economias não travam guerras; as forças militares, sim. O poder econômico dos Estados Unidos foi posto à prova quando Biden ameaçou sanções duras se a Rússia invadisse a Ucrânia; Putin invadiu mesmo assim, apostando que o poder bruto iria vencer.

Ainda não há dúvida de que os militares americanos têm tropas mais bem treinadas e sistemas mais potentes. No entanto, o que importa não são os confrontos militares hipotéticos, mas a capacidade de usar a força para objetivos específicos. A Rússia desenvolveu precisamente as capacidades necessárias para reconstruir sua influência na Europa Oriental. Enquanto isso, os Estados Unidos viram seu espaço de manobra na região diminuir cada vez mais, cercado por sistemas antiaéreos russos e ameaças de guerra cibernética e eletrônica.

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Deixar o equilíbrio militar na Europa pender a favor da Rússia foi uma escolha. Os Estados Unidos têm parte da culpa. Mesmo depois dos primeiros ataques da Rússia à Ucrânia em 2014, os reforços americanos no continente foram suficientes apenas para frear um pouco o ritmo do avanço da posição russa.

O governo Biden promoveu cortes de gastos militares, descontada a inflação. O orçamento de defesa dos Estados Unidos, hoje em cerca de US$ 700 bilhões, pode parecer impressionante, mas a Rússia tem a vantagem de pagar menos pelos salários dos soldados e por equipamentos produzidos internamente.

Considerando para essas diferenças, o orçamento de defesa da Rússia cresceu muito mais rapidamente do que o dos Estados Unidos nas últimas duas décadas. Os aliados europeus têm ainda mais responsabilidade pela situação: a Alemanha e outros países europeus precisam acordar da fantasia de que a paz é seu direito inato. Esses países tinham uma força de combate considerável. Está na hora de reconstruí-la.

Pode ser que, ao tentar engolir toda a Ucrânia, Putin tenha dado um passo em falso, finalmente. Uma longa ocupação da Ucrânia pode sobrecarregar as capacidades russas, especialmente porque suas vantagens militares ficarão menos significativas se o conflito se deslocar para as cidades ucranianas mais populosas.

No entanto, não devemos simplesmente presumir que a Ucrânia se tornará o Afeganistão ou o Iraque de Putin, porque outros líderes cometeram seus próprios erros. Putin poderia simplesmente escolher destruir a Ucrânia e deixar o Ocidente juntando os cacos. Uma Ucrânia desmembrada e disfuncional poderia muito bem atender aos seus interesses. As guerras recentes da Rússia foram cuidadosamente calculadas e limitadas em termos de custo. Não há garantia de que esse conflito também não venha a ser.

A estratégia americana de divulgar informações públicas sobre a escalada militar da Rússia em torno da Ucrânia foi inteligente, mas Putin não caiu no nosso blefe. As pessoas costumavam zombar do presidente russo por sua visão de mundo do século 19, mas seu uso do poderio militar para reforçar a influência da Rússia funcionou no século 21.

A suposição do Ocidente de que o arco da história naturalmente se curva em seu favor parece ingênua. Assim como a decisão de deixar nossa vantagem militar se esvanecer. É bom ter soft power e influência econômica, mas essas vantagens não conseguem deter os blindados russos que agora avançam rumo a Kiev. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Miller é professor assistente de história internacional e codiretor do programa de Rússia e Eurásia na Fletcher School da Tufts University. Ele escreveu diversos trabalhos sobre a Rússia e é autor do livro Putinomics.

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