REUTERS/The Sun of Lowell
REUTERS/The Sun of Lowell

Por que tantos irmãos trabalham juntos em nome do terror?

Investigar o que leva os irmãos a se unirem em atentados é cada vez mais significante enquanto novas gerações de terroristas trabalham independente de grandes grupos

O Estado de S. Paulo

30 de março de 2016 | 07h00

Quando as autoridades identificaram dois dos suicidas que provocaram as explosões em Bruxelas como Ibrahim e Khalid el-Bakraoui, deram início a uma discussão sobre um estranho padrão nos atentados terroristas recentes: irmãos trabalhando juntos em nome do terrorismo.

Segundo o jornal Los Angeles Times, os belgas que promoveram os ataques ao aeroporto de Zaventem e à estação de metrô de Maelbeek são a quarta dupla de irmãos a participar dos últimos atentados.

Há menos de uma semana, o suspeito mais procurado pelo ataques de novembro em Paris foi preso após uma troca de tiros com policiais de Bruxelas. Salah Abdeslam foi considerado suspeito depois que seu irmão mais velho, Ibrahim, se explodiu em um bar em uma das ações coordenadas que aterrorizaram a França em novembro, deixando 130 mortos.

Em janeiro de 2015, Said e Cherif Kouachi, filhos de imigrantes argelinos, foram identificados como responsáveis pelo massacre na redação da revista satírica Charlie Hebdo, que deixou 12 pessoas mortas.

Dois anos antes, Dzhokhar and Tamerlan Tsarnaev, dois irmãos chechenos que haviam imigrado para os EUA, foram os autores do ataque com uma bomba caseira à Maratona de Boston. A ação matou 3 pessoas e feriu outras 260.

Além disso, 6 entre os 19 sequestradores que participaram dos atentados ao World Trade Center, em Nova York, em 11 de setembro de 2001, eram irmãos.

Irmãos aparecem frequentemente na história do terrorismo, disse John Horgan, professor de estudos globais e psicologia na Georgia State University. “Temos visto isso sob o ângulo da ética e das organizações terroristas nacionalistas, do IRA e Tamil Tigers, direto para os movimentos jihadistas de hoje da Al-Qaeda e do Estado Islâmico”, afirmou. “É comum, mas os especialistas não prestam muita atenção a isso. Estamos lamentavelmente para trás quando se trata de entender as dinâmicas familiares e o terrorismo”, acrescentou.

Investigar a natureza dessas relações estreitas está se tornando cada vez mais significante para as autoridades enquanto uma nova geração de terroristas trabalha independentemente de grandes grupos.

“A única forma de identificar grupos terroristas é por meio de observações daqueles que estão próximos a eles”, disse John Cohen, professor de Justiça Criminal na Rutgers School em Newark, New Jersey, e ex-coordenador de contraterrorismo no Departamento de Segurança Interna dos EUA. “Se os membros da família são atraídos para a história significa que estamos perdendo capacidade de detecção significativa.”

Laços entre irmãos são comuns entre aqueles que são atraídos pelo terrorismo doméstico, assim com os que viajam para se unir aos grupos terroristas em países como Síria e Iraque.

Geralmente os irmãos tendem a se envolver com terrorismo porque compartilham um vínculo estreito e estão sujeitos a influências similares. Segundo Horgan, eles podem ter outros parentes que os radicalizam, podem passar muito tempo com as mesmas pessoas e podem ver os mesmos materiais na internet.

“Envolver-se com terrorismo pode ser um rito de passagem em certas famílias”, explicou. “Irmãos mais velhos normalmente causam tamanho efeito nos irmãos menores que estes querem se unir ao grupo, querem ser parte da aventura”, afirmou Horgan para o Los Angeles Times.

O fenômeno não está restrito aos irmãos. Em 2014, as irmãs gêmeas de 16 anos Salma e Zahra Halane fugiram da casa onde moravam em Manchester, na Inglaterra, para se unir aos jihadistas na Síria. Autoridades acreditam que elas foram radicalizadas pelo irmão, Ahmed.

Em San Bernardino, o casal Syed Rizwan Farook e Tashfeen Malik abriu fogo durante uma festa de fim de ano no Centro Regional Inland, uma agência de serviços sociais, matando 14 pessoas e ferindo outras 22.

Para organizações terroristas, parentes próximos são mais suscetíveis a serem influenciados do que aqueles que vivem sozinhos, tanto por razões psicológicas quanto por segurança operacional. “Estes últimos tendem a ter mais chances de serem vistos como espiões ou infiltrados em potencial”, afirmou Horgan.

Em um grupo terrorista, com base em uma sólida psicologia de grupo, irmãos podem se oferecer níveis intensos de apoio quando se deparam com situações de estresse.

“Irmãos têm um laço psicológico”, disse Horgan. “Eles podem sentir algo como ‘não decepcionarei meu irmão ou desrespeitarei sua memória.”

Especialistas acreditam que muitas organizações terroristas se apoiam na “figura de irmão mais velho”, o qual converte o irmão e lidera o planejamento. No caso da Maratona de Boston, os advogados de Dzhokhar Tsarnaev argumentaram que ele estava sob influência do seu irmão mais velho.

“Se você olhar para os irmãos Tsarnaev, o nível de radicalização deles difere em alguns aspectos”, explicou John Cohan. “Geralmente uma pessoa tem a personalidade mais forte, pega alguém vulnerável e a empurra para a fronteira da violência. Ainda estamos tentando descobrir exatamente a dinâmica dessa relação.”

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