Por que Trump concorrerá à presidência

Aparentemente, apresentador pretende usar a campanha à pré-candidatura republicana para estimular a volta de audiência a seus realities shows

ALYSSA, ROSENBERG, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2015 | 02h02

Donald Trump vem ameaçando entrar na disputa presidencial desde 1988. Manifestou interesse em governar Nova York. Falou sobre a presidência quase com a mesma frequência com que o inexpressivo candidato Lyndon LaRouche se apresentou para o mais alto cargo dos Estados Unidos.

Mas toda vez que Trump chamou atenção especulando sobre uma possível candidatura, no final acabou recuando, negando-nos sua presença nas campanhas eleitorais e nos comícios em Iowa, onde seria mais uma presença divertida - como há muito tempo tem sido o mais tedioso reality show da TV americana.

Então por que agora Trump está consagrando o campo republicano com sua presença? A resposta é relativamente simples. Apesar de toda sua fortuna ter como base a incorporação imobiliária, Trump há algum tempo é fundamentalmente um animador de TV.

Mas os negócios do magnata na área do entretenimento não parecem tão bons ultimamente. Ele sempre foi um grande e audacioso apresentador, mas pareceu pensar numa candidatura tantas vezes que essa conversa não aumentou os índices de audiência dos programas O Aprendiz e Aprendiz-Celebridades como deveriam. Desta vez, se Trump pretende fortalecer sua carreira na área do entretenimento terá de entrar no jogo, mesmo que apenas por algum tempo.

É incrível lembrar os primeiros anos de O Aprendiz e sua continuação Aprendiz-Celebridades e ver seu enorme alcance. Em 2004, 27,6 milhões de pessoas estavam sintonizadas na final da primeira temporada de O Aprendiz, que dava aos concorrentes a possibilidade de trabalhar para Trump, número que tornou o programa o mais popular da TV, com uma audiência de 20 milhões de espectadores nos primeiros episódios.

Quando Aprendiz-Celebridades, que apresenta figuras famosas competindo por um prêmio em dinheiro a ser doado para instituições beneficentes, estreou quatro anos depois, 12,1 milhões pessoas assistiram ao programa, um público menor, mas mesmo assim respeitável.

O declínio no decorrer dos anos foi substancial; em 2010 O Aprendiz tinha um quarto da audiência da sua primeira temporada e era exibido entre as temporadas de Aprendiz-Celebridades, cujo declínio foi mais lento talvez porque tinha muito menos a perder.

Houve uma demora de um ano e meio entre as temporadas de 2013 e 2015, o que resultou num pequeno salto nos índices de audiência; 7,6 milhões de espectadores assistiram à temporada de 2015, em comparação com os 5,6 milhões em 2013. Mas dificilmente foi um aumento indicando que um colosso da TV estava de volta.

Até certo ponto, Trump foi vítima de uma fragmentação mais geral da audiência televisiva. Com muito mais opções nos canais de TV a cabo e em serviços de streaming como Hulu, Netflix e Amazon Prime, o número de espectadores está bem menor do que há uma década. A série de TV Empire pode ser considerada um colosso, com uma audiência de 21,1 milhões de pessoas em sua final no início deste ano.

Mas os reality shows em particular enfrentam dificuldades: sua produção é barata, porém, os telespectadores estão saturados dos programas de competição e de famílias aparentemente extravagantes que lhes são oferecidos.

Assim, se Trump vai entrar na disputa, o que vai exigir que a NBC estude se ele poderá continuar apresentando Aprendiz-Celebridades com base nas regras de propaganda eleitoral na TV, o período de 2015 não é uma boa época. E, honestamente, dificilmente ele é o único a usar uma campanha eleitoral para estimular uma carreira no campo da mídia.

Candidatos como Mike Huckabee e Ben Carson provavelmente estão na disputa em parte para aumentar as vendas de livros, as aparições no rádio e sua relevância na Fox News.

Donald Trump pode ser mais extravagante e mais vulgar do que os outros concorrentes, mas de alguma maneira sua presença na disputa é válida e esclarecedora. Grande parte da campanha é puro entretenimento e autopromoção, independentemente de os candidatos, na linguagem dos reality show da TV, "estarem ali pelas razões certas" ou não. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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