Por que Yulia não é Mandela

Enquanto o instinto político de Mandela o guiou no caminho da unidade, a carreira de Yulia foi marcada pelo confronto

Elias Groll*, Foreign Policy/O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2014 | 02h06

ARTIGO

No sábado, Yulia Tymoshenko, a heroína da Revolução Laranja de 2004, considerada por muitos a mártir da oposição ucraniana, saiu da prisão como uma mulher livre. Juntamente com o impeachment e a fuga do presidente Viktor Yanukovich, a libertação de Yulia, que se tornou possível por um ato do Parlamento, marcou o clímax do movimento de oposição da Ucrânia. Foi um momento que inevitavelmente será comparado à libertação da prisão de Nelson Mandela. Ela passou os últimos dois anos e meio na prisão, com acusações de corrupção que para muitos foram politicamente motivadas. E mais importante, sua sentença de prisão e os maus-tratos sofridos nesse período tornaram-se uma mostra das táticas violentas de Yanukovich.

O problema é que Yulia não é Mandela. Enquanto o instinto político de Mandela o guiou no caminho da unidade e do compromisso, a carreira de Yulia foi marcada pelo confronto que com frequência fizeram do seu temperamento impulsivo o seu pior inimigo. Isso não a impediu de cultivar a imagem de mártir que utilizará para se apresentar como solução à crise política da Ucrânia. Como a jornada de Mandela da prisão para um estádio em Soweto quando fez as primeiras declarações que iriam definir sua carreira política, Yulia dirigiu-se imediatamente do hospital da prisão à Praça da Independência, em Kiev. Ela prestou homenagem aos mortos, que chamou de heróis. Depois proferiu um discurso apaixonado, elogiando o movimento de protesto.

Algumas horas depois de libertada ela já planeja disputar a presidência. Embora sua libertação tenha sido saudada como uma grande vitória da oposição, não há garantias de que esse sentimento se traduzirá em apoio político. Provavelmente, por seu legado político complicado. Quando os ucranianos lotaram as ruas de Kiev em 2004 para protestar contra o resultado das eleições presidenciais daquele ano, Yulia se transformou num ícone da conhecida Revolução Laranja. Na época, como hoje, metade da população do lado ocidental, de língua ucraniana, opôs-se ao lado oriental, de língua russa e pró-Rússia. E, como agora, Yulia e seus aliados afastaram Yanukovich.

A revolução teve um final de conto de fadas para o movimento político pró-Ocidente no país. Eles depuseram Yanukovich e instalaram Viktor Yuschenko como presidente e Yulia como primeira-ministra. Mas uma vez no cargo, os dois começaram uma disputa sem fim e dissiparam as promessas da Revolução Laranja. Dez anos depois, a economia da Ucrânia continua frágil, medíocre e totalmente apática. Depois de um mandato tumultuado como primeira-ministra, Yulia disputou a presidência em 2010. Seu oponente era Yanukovich. Embora Yulia tenha se tornado uma política "superstar", perdeu a eleição numa votação descrita como livre e imparcial.

Yulia, na sua busca de poder e seu estilo político combativo tornou-se uma figura astuta. Usando com perspicácia os simbolismos e o estilo, ela não se tornou apenas uma política globalmente reconhecida, mas um ícone. Adotou os símbolos da vida do campo ucraniano e as roupas. Passou a usar uma trança de cabelos em forma de coroa que lhe confere a aparência de uma santa medieval. Mas essa aparência às vezes se traduziu numa implacabilidade de menos bom gosto. Durante a campanha presidencial de 2010, ela declarou que se considerava a reencarnação de Eva Perón, a viúva do líder argentino morto Juan Perón.

E embora tenha atacado o governo de Yanukovich pelas atividades corruptas, ela não é uma política sem mácula. Durante a década de 90, acumulou fortuna como executiva do setor energético num período de desregulamentação repentina, logo após o colapso da União Soviética. Grande parte da sua riqueza estaria depositada secretamente em bancos no exterior.

*Elias Groll é jornalista.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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