Beatriz Bulla / Estadão
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Por reeleição, Trump precisa manter fidelidade da classe operária

Para vencer a disputa eleitoral em 2020, republicano aposta no desempenho econômico e no mesmo discurso protecionista e anti-imigrante de sua campanha em 2016

Beatriz Bulla, Enviada Especial, Northampton, EUA

06 de outubro de 2019 | 07h00

NORTHAMPTON, EUA - Desde a chegada de Donald Trump ao poder, especialistas dizem que os republicanos se consolidaram como o partido da “América rural” e os democratas da “América urbana”. Por isso, nas eleições de meio de mandato, em 2018, a grande disputa foi pelo voto dos subúrbios escolarizados - onde os democratas conquistaram a maioria da Câmara dos Deputados.

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No entanto, engana-se quem pensa que a estratégia eleitoral passa longe das localidades rurais onde Trump foi bem votado. A manutenção do apoio em locais como o nordeste da Pensilvânia será crucial para sua reeleição, explicam especialistas. 

“O ponto-chave para entender 2020 não é tão complexa: a classe operária branca de locais como a Pensilvânia comparecerá às urnas na mesma quantidade que compareceu em 2016? É essa a questão essencial. A única forma de Trump se reeleger é se tiver um comparecimento em massa desse grupo em lugares como a Pensilvânia”, afirma Terry Madonna, diretor do Centro de Política e Assuntos Públicos da Franklin & Marshall College.

Segundo ele, Trump ganhou regiões como Northampton e Luzerne dizendo que os democratas desistiram da classe operária e prometeu empregos, com o fim do Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta) e da Parceria Trans-Pacífico (TPP).

“Hillary Clinton não prestou atenção à América operária. E Trump se apresentou como o ‘antiestablishment’. Esses trabalhadores brancos acreditaram que foram abandonados pelos democratas e Trump chega com uma agenda com a qual eles se identificam. Ele ganhou a presidência porque ganhou a classe operária de Pensilvânia, Michigan e Wisconsin”, afirma Madonna.

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Autor de um livro sobre como a região de Luzerne deixou de votar em democratas para eleger Trump, em 2016, o jornalista Ben Bradlee Jr. afirma que a população local foi ignorada pelos democratas.

“Eles foram cativados por Trump, que falou com eles de um jeito que Hillary não fez. E houve a questão da imigração, que é uma grande marca da campanha eleitoral. Essas pessoas cresceram em uma comunidade predominantemente branca e, de repente, olham à volta e começam a ver pessoas diferentes”, afirma o jornalista, que escreveu The Forgotten: How the Abandoned People of One Pennsylvania County Elected Donald Trump and Changed America.

“Fiquei chocado com a vitória de Trump e tentei achar uma forma diferente de contar essa história. Fui a Luzerne, que era tradicionalmente uma região democrata, e foi na direção oposta. É uma janela para explicar como um candidato tão atípico como Trump se elegeu”, afirma Bradlee.

Eleitores da parte rural dos EUA são conservadores nas questões sociais - com uma plataforma que se assemelha mais à dos republicanos. A questão-chave, no entanto, foi a economia e as promessas de empregos. “Nas pesquisas nacionais, os eleitores de Trump continuam a apoiá-lo. A economia está melhor. Não significa que as indústrias de ferro, aço e carvão reapareceram nessas regiões. Mas vemos que a classe operária ainda está com Trump”, afirma Madonna.

A enfermeira Rosemary Hagemenes fez o caminho contrário: votou em republicanos, mas agora se define como democrata. 

“Mudei porque Trump era o candidato”, diz Rosemary, que pretende votar na senadora Elizabeth Warren para presidente. As amigas Shannon Kistner e Latoya Mcmurray também gostariam de ver o processo de impeachment andando mais rápido, mas são céticas. Para o ano que vem, pensam em votar em Bernie Sanders. A primeira nasceu no Texas e a segunda, em New Jersey. 

Moradoras da região de Wilkes-Barre, dizem que os trabalhadores da região votaram na proposta de “fazer a América Grande de novo”, vendida por Trump. Não é o caso delas.

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