Inti Ocon/AFP
Inti Ocon/AFP

Por ‘traição à pátria’, Nicarágua prende 6º candidato presidencial opositor

Além de Medardo Mairena, outros quatro líderes foram capturados pelo governo Ortega

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2021 | 18h44

MANÁGUA - A polícia da Nicarágua prendeu na noite de segunda-feira, 5, o líder camponês e candidato à presidência Medardo Mairena, além de outros quatro líderes da oposição. Eles serão investigados por praticar atos que são considerados traição à pátria. Mairena é o sexto candidato à presidência preso pelo governo do presidente Daniel Ortega.

Os outros candidatos presos são Cristiana Chamorro, Arturo Cruz, Félix Maradiaga, Juan Sebastián Chamorro e  Miguel Mora. Com exceção de Ortega, os únicos aspirantes ao cargo que permanecem livres são Luis Fley e George Henriquez, não alinhados ao governo, mas considerados menos populares.

O líder estudantil Lesther Alemán, que repreendeu Ortega durante o início de um fracassado diálogo nacional para superar a crise sócio-política local há três anos, também foi preso. Completam a lista os dirigentes camponeses Pedro Mena e Freddy Navas e o dirigente estudantil Max Jerez. A polícia não deu informações sobre o dirigente rural Pablo Morales, deputado suplente do oposicionista Partido Liberal Constitucionalista (PLC), capturado junto com Mairena, de acordo com o Movimento Camponês.

A polícia nicaraguense detalhou que os líderes opositores detidos estão sendo investigados por suposta violação da "Lei de Defesa dos Direitos do Povo à Independência, Soberania e Autodeterminação para a Paz", cujos crimes são considerados traição à pátria.

No comunicado, a polícia identificou os camponeses como responsáveis pelo homicídio de quatro policiais em 2018, e os estudantes como executores de "roubo com intimidação (agressões), sequestros, lesões graves, estupros, extorsão, destruição e danos múltiplos, durante a tentativa fracassada de golpe", nesse mesmo ano.

Em 2019, os camponeses, que haviam recebido penas de mais de 200 anos de reclusão, assim como os estudantes, foram beneficiados pela Lei da Anistia, que beneficiou mais de 600 opositores, e gerou polêmica porque os acusados nunca reconheceram ter cometido crimes e atribuíram as denúncias à retaliação de Ortega contra os protestos antigovernamentais.

Os encarceramentos de líderes da oposição ocorrem no âmbito das eleições gerais de 7 de novembro, nas quais Ortega, que também governou entre 1979 e 1980, busca sua terceira reeleição consecutiva para um quarto mandato de cinco anos, e o segundo com sua esposa, Rosario Murillo, como vice-presidente. 

No meio da corrida eleitoral, foram estabelecidas leis que restringem a nomeação para cargos políticos e financiamento externo, e dois partidos políticos de oposição foram destituídos de sua personalidade jurídica.

Também se somam aos capturados da noite passada dois ex-vice-chanceleres, dois ex-guerrilheiros sandinistas dissidentes, um líder empresarial, um banqueiro, uma ex-primeira-dama, cinco líderes da oposição, um jornalista, dois líderes estudantis, dois ex-trabalhadores de ONGs e um motorista de Cristiana Chamorro. 

“O objetivo de Ortega não é apenas eliminar a competição eleitoral ao capturar o sexto candidato presidencial, mas também evitar a resistência cívica. Ele prendeu mais de 20 líderes políticos, cívicos, estudantes e camponeses”, disse o jornalista nicaraguense Carlos Chamorro no Twitter.

Chamorro, que fugiu para a vizinha Costa Rica em meados de junho, é irmão da líder da oposição detida Cristiana Chamorro.

Ortega, um ex-revolucionário de esquerda que governa a Nicarágua desde que voltou ao poder em 2007, justificou sua repressão aos oponentes dizendo que seu governo estava processando criminosos que planejavam um golpe contra ele.

As prisões geraram indignação internacional. O Departamento de Estado dos EUA chamou as detenções de uma "campanha contínua de terror" e disse que os Estados Unidos usariam todas as ferramentas diplomáticas e econômicas à sua disposição para promover eleições justas. /EFE e REUTERS

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