EFE/Brenda Pérez
EFE/Brenda Pérez

Por transparência, agência de espionagem britânica revela sede histórica

GCHQ, envolvido em polêmicas pelo programa de monitoramento global através da internet revelado por Edward Snowden, interceptou comunicações e quebrou códigos de criptografia em prédio encravado entre cafeteria e pub no centro de Londres

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2019 | 10h43

LONDRES - Encravado entre uma cafeteria Starbucks e um pub especializado em "fish and chips" (peixe e batatas fritas), um prédio de escritórios sem graça no centro de Londres foi a sede secreta de uma das agências de espionagem mais poderosas do Reino Unido nos últimos 66 anos.

Desde 1953, os agentes do centro de escutas britânico (GCHQ, na sigla em inglês) trabalharam para interceptar comunicações e quebrar códigos de criptografia nesta propriedade, localizada na estreita rua Palmer, em frente à estação de metrô de St. James's Park.

A organização de inteligência, que desempenhou um papel fundamental na segurança do Reino Unido durante a 2ª Guerra e na Guerra Fria, divulgou sua localização apenas depois de deixar o prédio. Agora, sabe-se que dali foram coordenados os dispositivos de segurança durante os Jogos Olímpicos de 2012, além do desenvolvimento nos últimos anos dos programas contra o terrorismo e o crime organizado.

Discretas câmeras na fachada eram o único sinal que poderia levantar suspeitas dos pedestres que caminhavam em frente a uma das sedes da agência, que desde 2013 se viu envolvida em polêmicas pelo programa de monitoramento global através da internet revelado por Edward Snowden.

Os documentos do ex-espião americano revelaram que o GCHQ colocou aparatos para interceptar informações da internet que circula pelos cabos de fibra óptica que conectam as ilhas britânicas com o resto da Europa e os Estados Unidos.

A ambição desta estrutura,que poderia coletar 10 gigabits de informação por segundo, ficou evidente em alguns dos textos internos da agência que foram revelados, com títulos grandiloquentes como "Mastering the Internet" (Dominando a internet) e "Global Telecoms Exploitation" (Exploração global das telecomunicações, em tradução livre).

Desde que explodiu a polêmica, a agência de inteligência que trabalha com os espiões do MI5 (serviço interno) e do MI6 (serviço no exterior) lançou uma campanha para limpar sua imagem e aparecer como uma organização mais transparente e amigável para os cidadãos britânicos.

Em particular, colocou ênfase especial em divulgar sua história, que tem seu auge no final da 2ª Guerra, quando sua equipe conseguiu decifrar as mensagens codificadas dos nazistas com a famosa máquina Enigma.

O matemático britânico Alan Turing, um dos pais da computação moderna, foi um dos protagonistas daquele esforço, que exigia milhares de pessoas trabalhando em Bletchley Park, centro de instalações de espionagem construído na zona rural inglesa.

Depois da guerra, no início de 1950, o GCHQ transferiu parte de seus funcionários que ficavam em Londres para o oeste da Inglaterra, e decidiu deixar na capital britânica uma sede menor, onde lidaria com os documentos secretos mais sensíveis e onde estaria o escritório do diretor da agência.

Foi quando então o Ministério do Trabalho cedeu, para esse fim, um edifício de escritórios recém-construído no centro da cidade, a poucos minutos a pé dos palácios de Buckingham e de Westminster.

O GCHQ, que em 2019 celebra o centenário de sua criação, já vendeu o prédio para uma empresa privada, mas ainda não revelou qual será seu uso futuro. O órgão também garantiu que manterá sua presença em Londres, mas não detalhou onde serão os novos escritórios.

Embora ainda mantenha alguns segredos, o desejo de transparência levou a agência em 2016 a se tornar o primeiro serviço de espionagem no Reino Unido a abrir uma conta no Twitter.

A partir desse canal, eles geralmente publicam enigmas, quebra-cabeças e problemas matemáticos que lhes permitem identificar possíveis candidatos para atuar como agentes de inteligência. Os aspirantes, em todo caso, já sabem que, se forem contratados, não irão trabalhar na rua Palmer. / EFE

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