Andrew Testa/The New York Times
Andrew Testa/The New York Times

Por trás da guerra do Reino Unido contra a covid-19

O governo traçou planos para uma reabertura gradual; mas profissionais da saúde estão no limite e os números locais se assemelham a períodos de guerra

Alan Cowell, The New York Times, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2021 | 05h00

LONDRES - Os números podem estar em queda, mas a batalha não está menos intensa. Na terra de Winston Churchill ela às vezes se assemelha a uma guerra, a guerra contra a covid-19.

Na mais recente fase da campanha do país contra o coronavírus, o primeiro-ministro Boris Johnson, na semana passada, expôs o que será um longo caminho de transição com vistas a uma reabertura gradativa do lockdown, de março a junho.

Mas apesar da rápida distribuição da vacina, o cronograma de mudanças foi na verdade adiado - e declarado reversível -, por uma boa razão.

Depois de quase um ano de mensagens contraditórias, a covid-19 ainda divide o país entre os que conhecem e temem seu alcance aterrador e aqueles seduzidos por promessas improváveis e inventando datas para seu fim.

O efeito da doença é visto nas ruas praticamente vazias, lojas fechadas e cervejas não servidas. O mundo paralelo do sofrimento continua amplamente confinado às estreitas alas de terapia intensiva dos hospitais, lotadas de pacientes e onde médicos e enfermeiros trabalham longe da vista à beira do desespero.

É graças ao seu heroísmo que o número de mortos não é maior do que o já registrado - mais de 120 mil. As imagens às vezes evocam aquelas das unidades de triagem de combate em meio ao turbilhão da batalha, com o barulho, o caos, os monitores emitindo alertas e os médicos envoltos em uniformes de proteção, um exército espectral lotando os espaços repletos de pacientes mais ameaçados de morrer.

“Um dos sentimentos mais fortes na segunda onda tem sido a raiva ao ver quantas pessoas vêm ignorando ostensivamente as normas e não pensam no que estão fazendo por aí”, disse Susan Jain, anestesista e especialista em terapia intensiva do Hospital Homerton em East London. “Quero que as pessoas saibam como isso é terrível, a enorme ameaça que essa doença é para todos nós”.

O governo britânico define sua luta com superlativos: a mais rápida autorização de vacinas, a mais rápida distribuição das inoculações. Mas há um outro marcador mais macabro: o Reino Unido contabiliza o maior número, per capita, de mortes do que qualquer outro grande país no mundo.

Foi necessário o surgimento de uma variante muito mais transmissível do vírus em Kent, em dezembro, para galvanizar o país e o governo. No mês passado, Sharon Peacock, que dirige o programa de vigilância genérica da Inglaterra, disse que a variante “se propagou rapidamente no país e com toda a probabilidade vai varrer o mundo”.

A unidade de terapia intensiva onde Jain trabalha teve de aumentar o atendimento de 10 pacientes para 30, quase todos necessitando de ventiladores. “Estamos lotados”, disse ela. “Não é tão terrível como em M.A.S.H., mas é o que me vem à mente”.

Em meados de janeiro, as mortes decorrentes da covid-19 estavam aumentando juntamente com as hospitalizações e os números de infectados. Em 20 de janeiro, o número diário de óbitos no país chegou a um pico de 1.820 pacientes que morreram 28 dias depois de testarem positivo para a doença.

O número foi particularmente alto entre algumas minorias étnicas. “Nossa carga de trabalho aumentou dez vezes”, afirmou Idris Patel, fundador e diretor executivo da instituição beneficente Muslim Patel Burial Trust/Supporting Humanity. “Estávamos habituados a dois ou três funerais por semana no verão, quatro a cinco no inverno. Agora são seis enterros por dia”.

Normalmente os rituais começam numa mesquita com o íman fazendo as orações islâmicas, a Janaza. Mas atualmente, Kafil Ahmed, que dirige o Al Birr Islamic Trust Funeral Service, em Greenwich, no sudeste de Londres, às vezes realiza esse ritual ele próprio, junto à sepultura.

A campanha de vacinação do governo foi recebida como um vislumbre de esperança, e vem sendo ampliada.

Com a doença aparentemente se retraindo, o temor da infecção vem sendo suplantado por um anseio quase palpável de um sonho contrário, de uma espécie de Shangri-lá onde cervejas são servidas em pubs ensolarados, as crianças nas salas de aula pintadas de cores vivas, e os aviões voando para praias distantes.

Embora o mais recente “plano” de saída do lockdown esboçado por Johnson tenha sido considerado cauteloso pelo governo, a notícia deixou Mike Padgham, diretor do lar para idosos St. Cecilia, no resort de Scarborough, a nordeste da Inglaterra, “um pouco nervoso”.

Na primeira onda, residentes desse lar de idosos sofreram de maneira desproporcional uma vez que os hospitais transferiram pacientes de idade para unidades de saúde para liberar leitos para aqueles com covid-19. Até um terço de todas as mortes verificadas em 2020 ocorreram nas unidades de saúde com pessoas mais idosas, muitas delas sofrendo de demência.

Na atual onda, poucos pacientes que estão se recuperando da covid-19 têm sido levados para esses lares de idosos, como o de Padgham, onde têm um andar só para eles. Os riscos continuam altos.

Com base nas novas mudanças adotadas pelo governo, que entrarão em vigor em 8 de março, os residentes podem receber a visita de um membro da família, mas sob condições estritas. Nada de abraços ou beijos, apenas um aperto de mão. Mas ele se preocupa de que sempre haverá “aquela pessoa que acaba abraçando ou beijando a mãe ou o pai”.

Uma infecção, disse ele, “se espalhará como um incêndio florestal” pelos 110 moradores da casa. Muitos receberam somente a primeira dose da vacina, o que aumenta o temor. “Acho que o governo não refletiu sobre isso como deveria. Temos de estabelecer freios”.

Num artigo que escreveu recentemente, ele comparou a luta contra a covid às palavras de Churchill no meio do caminho da 2ª Guerra, “alertando que a guerra ainda não tinha acabado”.

Para outros também há uma comparação incômoda com as fases de encerramento de conflitos militares distantes em terras destruídas pela guerra.

“Acho que me sinto bem descrente quanto a isto. Não vejo honestamente um tempo em que vou me sentir livre para caminhar por aí, ir a cafés, ao teatro, a concertos, ficarmos todos espremidos como numa lata de sardinhas. Você tem de ter o mundo todo vacinado para retornarmos a esse tempo e nos certificarmos de que a vacina é eficaz."

No momento ela é uma serva dos estranhos rituais da pandemia, não menos entediantes por causa da familiaridade e da urgência. A colocação e a retirada dos equipamentos de proteção pessoal assumiram uma importância preponderante na contenção da infecção, disse Jain, que tem dois filhos, os pais idosos e uma tia para cuidar.

“No final do dia, tomo um banho no trabalho e logo que chego em casa eu tomo outro banho antes de chegar perto das crianças. Como você vai saber o que está trazendo para casa?"

“O tempo todo desde que tudo isto começou, especialmente no início, eu estava convencida de que acabaria por contrair a doença. Achava que era inevitável”, afirmou ela.

Mas não. Inevitavelmente, aqueles que trabalham na linha de frente - médicos, enfermeiros, trabalhadores de funerárias, são os mais expostos. Como também seus parentes.

Em dezembro, disse Ahmed, do Al Birr Islamic Trust Funeral Service, seu irmão mais novo, Zia Ahmed, adoeceu. Como a ambulância não chegava ele próprio o carregou até o carro e o levou para um pronto-socorro. “Disseram que ele estava com a covid. Então eu fui testado, e meu teste deu positivo também."

Sua mulher, Nasim, que perdeu a mãe e um cunhado para a covid, também testou positivo. Nenhum deles precisou ser hospitalizado. "Foi muito difícil” disse Kafil Ahmed. “Isto te deixa destruído por dentro."

Em 19 de fevereiro, autoridades do hospital disseram a ele que “se meu irmão sobrevivesse àquele fim de semana seria um milagre”. Em 21 de fevereiro, chegou a notícia de que ele havia falecido. O milagre não se verificou. “A covid virou tudo de ponta cabeça”, disse ele. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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