Por trás da queda de popularidade, o aumento da pobreza

O governo da presidente Cristina Kirchner aproxima-se das eleições parlamentares do dia 27 com a popularidade em queda e a economia com crescentes problemas. As pesquisas indicam que os candidatos do governo não obteriam mais de 30% dos votos no cenário mais otimista, enquanto que a oposição, embora fragmentada, aglutinaria pelo menos 70%. A presidente, reeleita há dois anos com 54%, corre o risco de perder a maioria na Câmara de Deputados e no Senado.

CENÁRIO: Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2013 | 02h14

Antes mesmo da ida dos argentinos às urnas, o governo já está sofrendo uma fuga de aliados que poderia agravar-se após as eleições. Os próprios peronistas que permanecem do lado da presidente já falam - com maior ou menor discrição - sobre o futuro sem Cristina.

Por trás da perda de poder político, afirmam os analistas, está a volta do crescimento da pobreza, cujo nível, segundo o governo, é um dos mais baixos da história, com 5,4%. Sindicatos e a Igreja Católica afirmem que, longe dos índices oficiais, a pobreza atinge 26%. O desemprego, segundo o governo, é de 7,2%. Mas, de acordo com a principal central sindical do país, a Confederação Geral do Trabalho (CGT), supera o dobro, com 16,2%.

Outro fator para a iminente derrota eleitoral é a disparada da inflação, cuja existência o governo minimiza. Segundo a Casa Rosada, a inflação deste ano não passará de 10%. Já as consultorias econômicas sustentam que a inflação real acumulada será superior aos 27%.

Matías Carugati, economista-chefe da consultoria Management & Fit, disse ao Estado que "os eleitores não acreditam que a economia esteja crescendo tanto como sustenta o governo (5%) e a inflação e o desemprego sejam apenas o que a Casa Rosada diz". "Nessas eleições o governo pagará as consequências de viver pensando no curto prazo", afirma Carugati.

Em meados de 2011, os argentinos tinham nos bancos do país um total de US$ 14 bilhões em dólares, moeda que há quatro décadas é o refúgio financeiro preferido dos argentinos. Após ser reeleita, Cristina desatou uma cruzada contra o dólar que causou temores sobre um eventual confisco. Há apenas US$ 7 bilhões em depósitos em dólares nos bancos do país.

Enquanto isso, as reservas do Banco Central caíram na semana passada para US$ 34,8 bilhões, o equivalente a US$ 17 bilhões a menos do que na época da segunda posse de Cristina.

Uma pesquisa da consultoria Carlos Fara & Associados indicou na sexta-feira que na Província de Buenos Aires (o distrito concentra 38% do eleitorado nacional) o candidato da presidente que lidera a lista de deputados, Martín Insaurralde, perdeu terreno nas intenções de voto: teria 27%, enquanto nas eleições primárias de agosto obteve 29%. O principal rival da oposição, Sergio Massa, do peronismo dissidente "Frente Renovadora", passou de 29% para 43%.

Neste contexto, sobem as apostas pelo governador bonaerense, Daniel Scioli - um kirchnerista 'light', amigável com os mercados -, como o futuro presidenciável que poderia unificar os setores do peronismo.

Scioli, em reunião com 400 empresários de destaque no início da semana, negou que exista um período de "transição" dentro do peronismo. Mas recorreu a uma sutileza para definir o novo período sem o peso gravitacional de Cristina, algo inimaginável na política argentina há pouco tempo: "é a reacomodação…".

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