Por trás de ato, luta interna, chantagem e descontrole

Os últimos atos da Coreia do Norte, vistos como temerariamente perigosos pelo restante do mundo, podem ser explicados genericamente de três maneiras. A primeira é que Pyongyang está às voltas com uma crescente luta pelo poder sobre a sucessão do presidente enfermo e Grande Líder do país, Kim Jong-il. Kim, de 68 anos, reapareceu recentemente em público após sofrer o que parece ter sido um derrame no ano passado. Mas ele não parecia bem - quase uma sombra de sua pessoa antes roliça e ocasionalmente exuberante. Alguns especialistas em Coreia sugerem que Kim nunca se recuperou por completo da morte, em 2004, de Ko Young-hee, a primeira-dama de fato da Coreia do Norte e mãe do mais novo de seus três filhos. Sinais de tensões internas continuaram crescendo apesar da ressurreição política de Kim, incluindo uma reforma do gabinete em que cerca de um terço dos ministros perdeu seus cargos ou foi transferido para outros. Há comentários de que um abalo semelhante ocorreu nos mais altos escalões militares. Essa agitação interna foi acompanhada por uma aguda intensificação da retórica agressiva contra países vizinhos e ocidentais e uma marcada deterioração das relações com a nova e menos conciliadora presidência da Coreia do Sul. Depois de seu último teste com míssil no começo do ano e da censura da ONU que se seguiu, Pyongyang também protagonizou uma escalada diplomática, declarando que "jamais" retomaria as negociações sobre seus programas nuclear e de mísseis nas chamadas conversações de seis partes com Estados Unidos, Japão, China, Rússia e Coreia do Sul. Para agravar as tensões, a economia norte-coreana, um desastre desde que a União Soviética acabou com a ajuda em 1990, tem sofrido ainda mais com o aprofundamento de seu isolamento internacional e, em grau limitado, os efeitos secundários da recessão global na China, sua principal parceira comercial. As especulações sobre uma mudança de poder na cúpula concentram-se nos filhos de Kim. Acredita-se que o mais velho, Kim Jong-nam, cuja mãe foi Song Hye-rim, a primeira amante de Kim, teria caído em desgraça para seu pai depois de ter sido preso em Tóquio, em 2001, durante uma viagem com passaporte falso. Alguns observadores sul-coreanos afirmaram que Kim considera seu primogênito um afeminado, sem a firmeza necessária para assumir o comando. O segundo filho, Kim Jong-chul, também pode ser um pouco problemático. Embora possua uma patente intermediária no aparato militar, seu perfil político é discreto. Seus interesses estão em outras coisas. Em 2006, sua presença foi registrada num concerto de rock de Eric Clapton na Alemanha e também em partidas do Campeonato Mundial de Futebol. Isso deixa o filho mais novo, Kim Jong-woon (também conhecido como Jong-un). A mídia sul-coreana afirmou neste ano que o Grande Líder escolheu seu terceiro filho como sucessor. Isso supostamente porque o caçula de Kim, parcialmente educado na Suíça e que, segundo se diz, fala diversos idiomas estrangeiros, era, por temperamento, "exatamente como seu pai", com vontade forte, ideias firmes e temperamento explosivo quando desafiado. Segundo um importante especialista em Coreia do Norte, o acadêmico britânico Aidan Foster-Carter, a luta em curso pela supremacia é a explicação mais provável para o comportamento agressivo de Pyongyang. "A Coreia do Norte está rosnando mais. Isso sugere uma luta interna pelo poder", disse Foster-Carter num seminário no centro de pesquisas Chatham House em Londres na semana passada. "O cachorro late mais forte quando se sente vulnerável. E talvez seja mais seguro ser um linha-dura que um ?linha-mole? quando está sendo travada uma luta pelo poder." Mas ele acrescentou que não pode haver nenhuma certeza disso por causa da natureza sigilosa do regime. O que poderia parecer uma batalha pela sucessão com muitos lados poderia ser de fato o "serpentear de uma única cobra". Jim Hoare, um ex-embaixador britânico na Coreia do Norte, disse que uma segunda explicação pode ser considerada: que a Coreia do Norte estava reagindo ao que percebia como acontecimentos externos ameaçadores e desestabilizadores, em especial o fim da "política do raio de sol" da Coreia do Sul que havia encorajado uma reaproximação e um entendimento mais profundo entre os dois países. Hoare disse que o governo de George W. Bush tinha uma dose de culpa pela ruptura do acordo de desnuclearização forjado dois anos atrás. "Ambas as partes não conseguiram manter a abordagem passo a passo, ambas perderam prazos." Dessa perspectiva, o mais recente teste nuclear e o lançamento de míssil da Coreia do Norte poderiam ser vistos como uma tentativa para chamar a atenção do presidente Barack Obama e colocar a questão norte-coreana no topo da agenda de Washington. Ao mesmo tempo, apenas um país, a China, e não os Estados Unidos, estaria em condição de aplicar pressões sérias na condição de maior fornecedora de petróleo e alimentos à Coreia do Norte, disse Hoare. As opções dos Estados Unidos eram limitadas e a política da China era movida pelo interesse próprio. "Na prática, Pequim só age quando a questão diz respeito aos interesses nacionais da China. Pequim não tratará necessariamente da questão do jeito que o Ocidente e os EUA poderiam desejar." Foster-Carter disse que seja qual for a resposta da comunidade internacional, a posição "essencialista" da Coreia do Norte provavelmente não mudará. Essa política foi instituída há 50 anos pela experiência do bombardeio americano durante a Guerra da Coreia. "Eles trataram de ficar armados até os dentes desde então. O que eles fizeram durante esses dez anos de (política) reconciliação com a Coreia do Sul? Explodiram um artefato nuclear." Por outro lado, foi um erro ver o regime como totalmente incorrigível, disse ele. Apesar de seu comportamento, sua necessidade de interlocutores era maior do que nunca. No longo prazo, o Ocidente deveria ter paciência. A estrutura toda de Estado autoritário acabaria ruindo, possivelmente como a Romênia de Ceausescu, e quando isso ocorresse, a comunidade internacional deveria estar pronta com planos de contingência estabilizadores. A terceira explicação possível para a ação de domingo da Coreia do Norte é a menos palatável: a possibilidade de que, cada vez mais, ninguém está realmente no comando em Pyongyang e o país está literalmente começando a ficar fora de controle. Se a Coreia do Norte subitamente implodir, os Estados Unidos e a Coreia do Sul poderiam entrar por um lado e a China pelo outro, advertiu Foster-Carter. O perigo de a história se repetir é uma "perspectiva sinistra", concluiu. *Simon Tisdall é comentarista de política internacional

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