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Por trás do acordo com o Irã

Khamenei, Netanyahu, Cheney e Obama desempenharam papéis-chave, positivos e negativos

Thomas L. Friedman*, O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2015 | 02h02

O acordo nuclear com o Irã está selado - por parte de Washington. Mas como observamos algumas das mais importantes mudanças no campo da política externa dos EUA nas quatro últimas décadas, vale a pena conferir notas para o desempenho de algumas pessoas ligadas ao acordo.

Aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã: nota 10

Seu prognóstico, feito na semana passada, de que Israel não mais existirá dentro de 25 anos, foi feito no momento exato de modo a complicar os esforços do presidente Barack Obama para o acordo ser aprovado pelo Congresso. Khamenei é um indivíduo infame. Quando pedi a um amigo especializado em Oriente Médio para explicar seu comportamento, ele invocou uma maldição judaica contra o iraniano: "que todos os seus dentes caiam exceto aqueles que doem". Mas é também um sujeito sagaz. Por meio desse acordo Khamenei consegue livrar o Irã de sanções devastadoras, o que é desejado por sua população, estender o chamado "breakout time" (tempo necessário para produzir material físsil suficiente para a bomba atômica), e consegue que o mundo consagre o programa nuclear "pacífico", apesar de o país ter mentido para conseguir seu objetivo. E Khamenei fez tudo isso, deixando ao mesmo tempo sua base formada por radicais com a sensação de que ele realmente se opõe ao acordo e os negociadores achando que ele é a favor. Assim todas as suas opções estão em aberto, dependendo de como o acordo vai funcionar.

Tiro o chapéu, Ali, você é ótimo. Quando vender minha casa, posso lhe telefonar?

Observação para os pais: Ali recebeu uma nota 10, mas tem tendência a ser muito arrogante. Acredita de que pode se safar do acordo sem nenhuma mudança na política interna no Irã.

Dick Cheney: nota 0

Cito Dick Cheney porque sua oposição ao acordo, que vem divulgando com um novo livro, foi inteiramente desonesta e de uma maneira que ilustra bem a preconceituosa oposição republicana: este é um mau acordo porque Obama foi um frouxo. Não, este acordo é o que é porque reflete o equilíbrio de poder e um fator-chave desse equilíbrio é que os iranianos hoje acreditam que os EUA nunca usarão a força para eliminar seu programa nuclear. Mas não se trata apenas de Obama. Os republicanos, e Cheney pessoalmente, tiveram um grande papel na perda de credibilidade dos EUA e as ameaças de uso da força contra o Irã.

Observação para os pais: "Dick tem problemas para dizer a verdade, mas não é o único. Algumas críticas republicanas ao acordo devem ser consideradas, mas nunca levadas a sério se o partido não for honesto quanto ao próprio papel na nossa perda de dissuasão com relação ao Irã".

Binyamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel: nota 5

Ninguém teve mais impacto para conseguir que o mundo impusesse sanções e levar a sério a ameaça nuclear iraniana do que Netanyahu. Mas sua disputa imprudente com Obama prejudicou o premiê israelense, prejudicou Israel e o acordo.

Tivesse Bibi se aferrado a Obama e ele teria tornado Israel o sexto integrante do grupo do P-5 nas negociações com o Irã e teria se imbuído de mais poder. Em vez disso, ele marginalizou Israel. E ao convocar eleições em meio às negociações e formar um gabinete de extrema direita com colonos extremistas judeus, Netanyahu está fazendo o jogo do Irã, que apoia a solução de um Estado em que Israel jamais deixe a Cisjordânia, continue em conflito permanente com palestinos e muçulmanos, de modo que o Irã pode contestar a legitimidade de Israel e isolar o país ainda mais.

Observação para os pais de Netanyahu: "Bibi não quer ser punido por nenhum dos seus erros: a política interna dos Estados Unidos se encarregará disto. Mas atenção: isso só aumentará as probabilidades de ele levar Israel a uma ocupação permanente e corrosiva da Cisjordânia, tornar o apoio a Israel uma causa cada vez mais republicana e perder a próxima geração de judeus americanos.

Presidente Barack Obama (Prova incompleta)

Observação aos seus pais: "Este acordo tem sentido. Pode manter o Irã longe da bomba atômica. Mas Obama deve ir para a cama todas as noites durante os próximos 15 anos preocupado se o Irã está cumprindo o acordo. Esta é a melhor maneira de assegurar que ele, seu Partido Democrata e seus sucessores se mantenham vigilantes e implementem medidas efetivas de dissuasão para Teerã jamais fabricar uma bomba. Espero que ele consiga obter nota 10, mas somente a História é que poderá lhe conferir essa nota. / Tradução de Terezinha Martino

* É colunista do The New York Times

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