Por trás do ocaso do regime, 15 jovens engajados

Com a internet, grupo de profissionais da nova geração delineou as reivindicações e criou a revolta da Praça Tahrir

David O. Kirkpatrick, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2011 | 00h00

Eles nasceram perto da época em que o presidente Hosni Mubarak chegou ao poder. A maioria obteve diplomas das principais universidades do Egito e todos passaram suas vidas adultas queixando-se das restrições impostas pelo estado policial - alguns sendo presos repetidas vezes e até torturados pela causa.

Estamos falando dos jovens profissionais, em sua maioria médicos e advogados, que deram início e então guiaram a revolta que derrubou Mubarak. São parte da geração Facebook e preferiram ocultar a face na onda de protesto - deliberadamente, levando-se em conta a ameaça de prisão ou sequestro nas mãos da polícia secreta.

São apenas 15 jovens que coordenam a revolta, entre eles Wael Ghonim, executivo do Google que foi detido por 12 dias, mas emergiu esta semana como principal porta-voz do movimento.

Apesar de poucos, eles trouxeram sofisticação à causa. Ao longo do processo, formaram entre si elos que refletem o singular caráter não ideológico da revolta da juventude egípcia, que abrange liberais, socialistas e membros da Irmandade Muçulmana.

Na verdade, muitos dos membros desse círculo se conheceram na época em que frequentavam a universidade. Islam Lofti, advogado que lidera a Juventude da Irmandade Muçulmana, disse que seu grupo costumava recrutar os membros dos pequenos partidos esquerdistas. Muitos estão agora na revolta, entre eles Zyad el-Elaimy, advogado de 30 anos ex-comunista.

Elaimy, que foi detido quatro vezes e sofreu nas mãos dos torturadores, trabalha agora como assistente de Mohamed ElBaradei, Nobel da Paz convertido em um dos líderes da oposição. O grupo dele, por sua vez, estabeleceu laços com outros jovens organizadores, como Sally.

As sementes da revolta foram lançadas no levante da Tunísia, quando Walid Rachid, de um grupo de ativistas chamado "Movimento 6 de Abril", enviou uma nota ao administrador anônimo de uma página do Facebook contra a tortura pedindo "ajuda na divulgação" de um dia de protestos marcado para 25 de janeiro. O interlocutor era alguém que ele já conhecia: Ghonim, o executivo do Google.

Testes. No dia do protesto, o grupo ensaiou medidas para tapear a polícia. Os organizadores anunciaram sua intenção de se reunir numa mesquita num bairro de alto padrão do Cairo, e a polícia enviou para lá viaturas. Mas, em vez disso, os organizadores rumaram para um bairro pobre nas imediações.

A própria ideia de começar num bairro pobre foi um experimento. "Sempre começamos pela elite. Agora, pensamos em algo diferente", disse Lofti. Em vez de falar sobre democracia, manifestantes se concentraram em temas como salário.

"Eles comem frango e nós comemos feijão", gritavam eles. Sally disse: "Nosso grupo começou com 50 pessoas. Ao final, éramos milhares". Com o fim dos protestos naquele dia, ela disse se lembrar de ter visto um homem baleado e morto pela polícia. Na manifestação seguinte ela trouxe uma sacola de suprimentos médicos e fez um centro de primeiros socorros.

Quando ocuparam a Praça Tahrir, ela e um grupo de amigos já tinham recrutado o apoio do Sindicato dos Médicos Árabes - do qual muitos membros pertencem também à Irmandade Muçulmana -, estabelecendo uma rede de sete clínicas. Na véspera das manifestações da "sexta feira de fúria", no dia 28 de janeiro, o grupo se reuniu na casa de Elaimy enquanto Lofti decidiu fazer um teste, caminhando duas horas pelas ruas convencendo moradores a se juntar ao protesto. Juntou 7 mil pessoas.

No dia seguinte, eles disseram a ElBaradei em qual mesquita deveria aparecer. Então informaram à imprensa sobre a presença dele, e fotos de um ganhador do Nobel encharcado por canhões d"água correram o mundo.

Essa capacidade de organização se mostrou fundamental alguns dias mais tarde, quando os manifestantes rapidamente formaram uma linha de montagem para se defender do ataque de um exército de partidários de Mubarak, que arremessava contra eles pedras e coquetéis molotov. Um grupo usava barras de ferro para quebrar os paralelepípedos em pedaços menores, outro trazia as pedras até a frente de batalha e um terceiro grupo se ocupava das barricadas.

"Quando há mortes nos protestos, às vezes nos sentimos culpados", disse Lofti. "Mas, depois da guerra daquela noite, temos cada vez mais a sensação de que o Egito merece nosso sacrifício." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.