Por trás dos poderes de Angela Merkel

A chanceler da Alemanha pode se enganar de vez em quando, mas não pelas razões que todos acreditam

The Economist

23 de agosto de 2015 | 08h38

No dia 19 de agosto, poucas horas antes de embarcar para o Brasil a fim de, mais uma vez, desempenhar o papel de estadista que o mundo associa a ela, a chanceler alemã, Angela Merkel, permanecia sentada em sua cadeira no Bundestag. O Parlamento do país precisava aprovar o terceiro pacote de ajuda financeira concedido à Grécia desde 2010. Como de hábito, toda vez que alguém da oposição a atacava, Merkel se punha a mexer de maneira ostensiva no celular, estampando expressões inescrutáveis no rosto. É provável que estivesse refletindo sobre dois números.

Um deles era o total de parlamentares de seu partido que votariam contra o pacote. Em 2010, quando o Bundestag aprovou o primeiro socorro aos gregos, apenas quatro membros do bloco conservador de Merkel rejeitaram a medida. No entanto, a cada novo pacote de ajuda, aumenta a resistência no interior da União Democrata-Cristã (CDU) e de sua irmã bávara, a União Social-Cristã (USC), conjuntamente conhecidas como União.

Terminada a votação, verificou-se que nem toda a pressão feita pelo líder do governo, Volker Kauder, foi suficiente para conter os revoltosos. O número de dissidentes atingira novo recorde: 63 votos contra e 3 abstenções.

O apoio do Partido Social-Democrata (SPD), membro minoritário da coalizão governamental, e do normalmente oposicionista Partido Verde garantiu a aprovação confortável da ajuda aos gregos. Apesar disso, o comportamento dos partidários de Merkel causou apreensão. Estaria o crescente descontentamento conservador, que agora chega a 21% dos parlamentares da União, finalmente indicando os limites do poder da chanceler, depois de anos de suposta supremacia?

Divulgado nesse mesmo dia, um segundo número aponta em outra direção. De acordo com um novo levantamento, se a eleição marcada para 2017 fosse realizada agora, a CDU de Merkel obteria 43% dos votos. Por conta do funcionamento do sistema eleitoral alemão, esse resultado daria a ela metade das cadeiras do Parlamento, faltando muito pouco para a conquista de uma maioria absoluta.

Isso significa que ela tem chance de se tornar a primeira chanceler alemã, desde Konrad Adenauer, em 1960, a governar o país sem precisar formar uma coalizão. Há dez anos no poder, e sem regras que a obriguem a passar o bastão para outra pessoa, a chanceler da Alemanha está com tudo e não está prosa.

Mostra disso é o comportamento dos social-democratas, tradicionais adversários da CDU que se viram obrigados a aceitar o triste papel de parceiros minoritários na coalizão liderada por Merkel. Embora fosse de esperar que o SPD estivesse se preparando para tentar derrotá-la em 2017, seus integrantes não parecem muito empolgados com a ideia.

Torsten Albig, figura de peso no partido e premiê do Estado de Schleswig-Holstein, chegou mesmo a admitir, na televisão, que Merkel está fazendo um “excelente” trabalho e conjecturou que os social-democratas talvez não devessem se dar o trabalho de nomear um candidato nas próximas eleições.

A declaração foi motivo de constrangimento para o político a quem caberia, em princípio, encabeçar a chapa de oposição a Merkel: Sigmar Gabriel, que é o atual presidente do SPD, além de ocupar os cargos de vice-chanceler e de ministro da Economia.

Em um movimento aparentemente desesperado, Gabriel roubou o estrategista eleitoral dos democratas-cristãos, Thomas Hüser. Para tornar as coisas ainda mais embaraçosas, Hüser disse recentemente no Facebook que Gabriel terá dificuldades para superar os 25,7% de votos conquistados pelo SPD em 2003. (Nos últimos levantamentos, o partido aparece com 23% das intenções de voto.) Alguns membros do SPD falam na realização de prévias para a escolha do candidato em 2017.

Sem um adversário em reais condições de desafiá-la, o verdadeiro limite ao poder de Merkel é de natureza mais sutil: poucos acreditam que a chanceler tenha posições definidas em relação aos temas que movimentam a política alemã. Isso talvez seja motivo de surpresa para os estrangeiros, que a veem como baluarte inexpugnável da austeridade. Mas, internamente, Merkel é criticada por se mostrar hesitante ou ausente em discussões fundamentais, da questão da imigração ao casamento gay. Na disputa que pretende escolher a “palavra jovem de 2015”, a liderança cabe, por enquanto, ao verbo “merkeln”. Significa evitar decisões importantes com o máximo de postergação, passividade e falta de transparência. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

Tudo o que sabemos sobre:
theeconomist

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.