Por trás dos sorrisos, o medo das crianças

Em meio a brincadeiras comuns, crianças tentam expressar o medo e o trauma do terremoto no Nepal

Lisandra Paraguassu, ENVIADA ESPECIAL, O Estado de S. Paulo

03 de maio de 2015 | 05h00

KATMANDU - Nimika Rana Magar, de 8 anos, pulava corda no Parque Tudhikhel, entre centenas de outras crianças que desde o terremoto transformaram o lugar em lar. Sempre rindo e brincando, meninos e meninas parecem não ter muita noção do que aconteceu. No entanto, os sorrisos escondem o medo, mesmo sem saber exatamente de quê.

Nimika, por exemplo, não quer ir para casa. Nos olhos escuros, mostra temor. “Se tiver outro, a casa vai cair”, diz. A experiência de correr para a rua, sem saber onde estavam as irmãs e os pais ainda está viva. “Achei que ia ficar sozinha para sempre.”

Na tenda montada pelo Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef), para distrair meninos e meninas da dura realidade de uma vida sem casa e escola, as brincadeiras fluem. Em meio a cantigas, jogos, tintas e lápis de cor, as crianças fogem das memórias ruins. “Elas precisam de um lugar para serem crianças”, explica Marilyn Hoar, do Unicef.

Na tenda, Nishant Shrestha, de 4 anos, desenha uma casa. “De quem é essa casa?”, é a pergunta. “É a minha, quando ela ficar boa”, responde o menino. “A minha sacudiu, vai cair, mas meu pai vai arrumar.”

“A maioria das crianças está psicologicamente traumatizada. Não conseguem entender exatamente o que aconteceu, mas não querem ir para casa”, afirma o ex-embaixador do Nepal na ONU, Usha Acharya, um dos fundadores do Little Sisters Fund, ONG que dá educação a meninas de baixa renda. “Esse é um dos maiores desafios que vamos enfrentar com essa geração. Mas o ser humano tem enorme resiliência.”

Deslocadas, afastadas de suas comunidades e muitas vezes tendo perdido um irmão ou irmã, as crianças ainda devem sofrer com o inevitável deslocamento interno de uma família que precisa procurar um novo lugar para viver. Neha Patel, de 13 anos, nasceu em Kalaya, distrito de Bara, mas nunca viveu na cidade. Agora, a mãe decidiu voltar para o interior. “Vai ser difícil. Tenho meus amigos aqui. E a escola não é tão boa. Mas tenho de ir com minha mãe”, disse conformada.

Tudo o que sabemos sobre:
nepalterremoto

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.