Por uma oposição unida na Síria

Reunião de dissidentes em Damasco destaca as mudanças que revolta contra o regime de Assad provocou no país

Anthony Shadid, The New York Times, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2011 | 00h00

Dezenas de personalidades da oposição reuniram-se em Damasco, na segunda-feira, pela primeira vez desde o início da revolta contra o governo. A reunião oficialmente sancionada destacou as mudanças que a rebelião provocou na Síria e os desafios que existem pela frente para quebrar o ciclo de protestos e repressões que deixaram centenas de mortos.

A reunião foi significativa, principalmente por ser um fato raro - uma manifestação pública de dissensão em um país que há muito tempo confunde oposição com traição. No entanto, também tratou das questões mais prementes na Síria: a possibilidade de uma oposição viável, mas fraca, eliminar conflitos antigos, a possibilidade de o governo adotar um diálogo real e a busca de uma alternativa ao presidente Bashar Assad.

A reunião não apresentou respostas, mas, em todos os discursos, os participantes insistiram que a revolta, iniciada há três meses, só se encerrará se Assad desistir do poder absoluto. Um dos organizadores, Louay Hussein, disse que a reunião de 190 líderes da oposição, número sem precedentes, procuraria analisar as condições para "o fim da tirania e a garantia de uma transição pacífica e segura para um Estado de liberdade, democracia e igualdade desejado por todos".

A reunião vinha sendo preparada há semanas. Embora os representantes do governo indicassem que não se oporiam a ela, os próprios líderes procuraram, sem descanso, um local na capital que pudesse dirimir os temores de retaliação do governo e aceitasse hospedá-los. No fim, a televisão estatal síria, que há muito é um instrumento de propaganda, cobriu o evento.

Alguns ativistas no exterior criticaram a reunião porque poderia sugerir que o governo estava disposto a participar do diálogo e a tolerar a dissensão, enquanto o Exército e a polícia massacram incessantemente os opositores de um lado ao outro da Síria.

O Comitê Local de Coordenação, que tenta falar em nome dos jovens manifestantes, não esteve presente e ainda não fez uma declaração pública sobre a reunião, embora recuse o diálogo enquanto a violência continuar.

"Eles me contactaram, mas recusei o convite enquanto o clima não for propício", disse Hassan Abdel-Azim, um veterano líder partidário e expoente da oposição na Síria. "Que tipo de diálogo pode haver durante a repressão policial?"

Alguns organizadores - como Aref Dalila, um economista, e Hajj Yassin Hajj Saleh, ativista de longa data - decidiram, no último minuto, não participar do evento. "Infelizmente, o que eu vi na televisão foi uma cena ridícula", disse Saleh. "Essa é a minha impressão, então acho que tomei a decisão certa."

Dissidência. No entanto, ainda assim a reunião atraiu algumas das principais figuras da oposição em Damasco, como Louay Hussein, Anwar al-Bunni e Michel Kilo, que já foram presos por falarem abertamente contra um dos governos mais autoritários da região. Hussein disse que não seria convidado nenhum representante do governo, embora dezenas de policiais tenham sido vistos circulando fora do local.

Na reunião, realizada no Hotel Semiramis, os dissidentes procuraram não se declarar porta-vozes dos manifestantes, cujas reivindicações aumentaram em intensidade nas últimas semanas.

"Estamos reunidos para elaborar um plano para solucionar a crise atual", disse Fayez Sara, um dos ativistas presentes. "Não estamos afirmando que representamos os manifestantes. E não estamos irados com os que nos criticaram por realizar esse encontro."

Até agora, Hussein e outros disseram que não participarão do diálogo com o governo enquanto as forças de segurança continuarem atirando em manifestantes pacíficos. Até eles, porém, reconhecem que a crise parece estar tomando um rumo perigoso, enquanto Assad fica cada vez mais isolado, começam a aparecer elementos de uma revolta armada e a economia vacila.

"Há dois caminhos pela frente - o primeiro é um impulso claro e não negociável para uma transição pacífica rumo à democracia, que salvará o nosso país e o nosso povo", disse outro membro ativo da oposição presente ao encontro. "A alternativa é um caminho que leva ao desconhecido e destruirá a todos."

Em um discurso pronunciado na semana passada, o terceiro desde que o levante começou, em meados de março, Assad propôs o que definiu como um "diálogo nacional".

Na segunda-feira, a agência de notícia oficial da Síria disse que o diálogo começará em 10 de julho e serão convidadas "todas as facções e as personalidades intelectuais e políticas", embora muitos dissidentes tenham declarado que não participarão enquanto a repressão persistir. A agência reiterou uma afirmação feita por Assad em seu discurso do dia 20: a agenda incluirá a possibilidade de emendar a Constituição, que consagra o monopólio do poder ao Partido Baath.

Isolamento. Na semana passada, o governo tentou melhorar sua imagem no momento em que está relegado ao maior isolamento em 40 anos. A imprensa síria reconheceu os protestos e permitiu a entrada no país de alguns jornalistas estrangeiros. No entanto, nas ruas, onde as reivindicações foram crescendo até se tornarem uma rebelião, as medidas de Assad foram recebidas com ceticismo e ira. "Nada de diálogo", alguns gritavam.

Os adversários do governo, contudo, também lutam para ter o direito de se manifestar. A oposição no exterior, sem líderes ou programas definidos, tenta unificar os participantes em reuniões na Turquia e na Europa, com sucesso variado. Muitos deles, que dizem falar em nome do povo nas ruas, continuam escondidos, com medo da prisão e da tortura.

Por outro lado, na Síria persiste um temor profundo da influência da Irmandade Muçulmana, que travou uma batalha sangrenta com o governo culminando com os acontecimentos de Hama, em 1982, quando as forças oficiais massacraram pelo menos 10 mil pessoas, ou talvez mais.

Alguns diplomatas esperavam que o encontro de segunda-feira apresentasse pelo menos o potencial para uma oposição mais unida, capaz de tratar com o governo.

"Cada passo que contribua para unir a oposição é um passo positivo", afirmou Burhan Ghalioun, diretor do Centro de Estudos Orientais Contemporâneos na Sorbonne, em Paris. "Precisamos de uma oposição unificada que conduza uma batalha política com o regime para forçá-lo a transferir o poder para um Estado civil democrático." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE NO LÍBANO E IRAQUE

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