Ricardo Moraes/Reuters
Ricardo Moraes/Reuters

Maduro manda fechar fronteira com o Brasil; Bolsonaro mantém envio de ajuda

Governo chavista fecha espaço aéreo e isola Venezuela para impedir entrada de comida e de remédios; após reunião em Brasília, presidente brasileiro apoia iniciativa da oposição venezuelana e garante saída de carregamentos de Roraima

Tânia Monteiro / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2019 | 19h11
Atualizado 21 de fevereiro de 2019 | 23h21

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, fechou nesta quinta-feira, 21, o espaço aéreo do país e enviou blindados à fronteira com o Brasil para impedir a entrada de ajuda humanitária. Em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro manteve o envio de ajuda. Um deputado da oposição venezuelana postou fotos em sua conta no Twitter de caminhões do governo transportando veículos blindados do Exército na cidade de Santa Elena de Uairén, a 12 km da fronteira com o Brasil. 

A decisão ocorre a dois dias de a oposição venezuelana iniciar uma operação de entrega de mantimentos enviados pelos EUA com ajuda brasileira e colombiana. “Decidi que, no sul da Venezuela, fica fechada completamente a fronteira com o Brasil, até segunda ordem”, disse Maduro, após reunião com o alto comando militar em Caracas.

Como ocorre diariamente, a fronteira entre a cidade de Pacaraima, em Roraima, e o país vizinho foi fechada para veículos às 20h (21h no horário de Brasília) desta quinta-feira. Só será possível saber se o bloqueio irá permanecer a partir das 8h (9h em Brasília) desta sexta-feira, 22, horário normal de abertura.

Sobre a Colômbia, o chavista afirmou que avalia uma medida similar e disse que o armazenamento de ajuda humanitária é uma “provocação barata”. “Responsabilizo o senhor Iván Duque (presidente colombiano) por qualquer violência na fronteira.” 

Mesmo com o fechamento da fronteira da Venezuela com o Brasil, Bolsonaro decidiu manter a missão humanitária. O porta-voz da Presidência da República, Otávio Rego Barros, informou que os produtos serão mantidos nas cidades de Boa Vista e de Pacaraima, em Roraima, até que meios de transporte venezuelanos busquem os suprimentos.

“Estamos disponibilizando os meios para a operação e continuamos aguardando a vinda dos caminhões de transporte dirigidos por venezuelanos”, disse. Segundo ele, os alimentos não são perecíveis e o prazo de validade dos medicamentos é longo, o que permite o armazenamento por um longo período.

Mais cedo, o governador de RR, Antonio Denarium (PSL), disse que a fronteira terrestre entre Brasil e Venezuela havia sido fechada por tanques de tropas venezuelanas por volta das 15h. O porta-voz afirmou, contudo, que a fronteira ainda estava aberta no final da tarde, com fluxo normal. Depois disso, Denarium recuou, afirmando que a confirmação do fechamento só ocorrerá na sexta-feira, 22.

A partir de sábado, 23, começa o envio de ajuda humanitária desde Roraima para a Venezuela, afirmou María Teresa Belandria, representante de Guaidó no Brasil. “Foram definidos os procedimentos para realizar a operação, por meio da qual serão transportadas em uma primeira fase até 100 toneladas de ajuda, composta por alimentos, remédios e kits de emergência, que sairão da cidade de Boa Vista”, explicou María Teresa. O controle completo da operação será das autoridades brasileiras.

A decisão de manter a operação foi tomada em reunião nesta quinta-feira, 21, entre Bolsonaro e os ministros Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Onyx Lorenzoni (Casa Civil) e Santos Cruz (Governo). O chanceler Ernesto Araújo não participou. Segundo o governo, contudo, ele foi consultado por telefone.

A pedido de Jair Bolsonaro, o vice-presidente Hamilton Mourão irá a Bogotá para representar o Brasil na reunião do Grupo de Lima e discutir os desdobramentos da crise. Mourão reforçou nesta quinta-feira, 21, que o Brasil não tem intenção de entrar na Venezuela.

“Maduro mandou fechar a fronteira para evitar que o pessoal da Venezuela venha ao Brasil buscar suprimento”, disse Mourão ao Estado. O vice-presidente garantiu que, “em hipótese alguma”, o Brasil entrará na Venezuela para qualquer finalidade. “Isso não existe”, avisou.

De acordo com Mourão, “não há situação tensa”. “Está da mesma forma que antes. Nada mudou. Vamos aguardar o que vai acontecer amanhã (sábado, 23)”, comentou, referindo-se à decisão de Guaidó de forçar a entrada de ajuda. Mourão ainda falou sobre a possibilidade de corte de energia da Venezuela - "possível, mas não provável" - e ressaltou que "não há outra solução (para a crise) a não ser a saída de Maduro". O governador roraimense, Antonio Denarium, também disse temer prejuízos a exportações, importações e ainda no fornecimento de combustível aos moradores.

Segundo o líder da oposição venezuelana, as doações chegarão por Cúcuta, na Colômbia, e Roraima, no Brasil. No entanto, com a fronteira fechada, isso pode não acontecer.  O aumento da tensão com o fechamento da fronteira ocorre no momento em que o alto comando do Exército se reúne em Brasília, desde a segunda-feira, em uma agenda previamente marcada, para definir as promoções de março. Nos encontros são feitas avaliações de conjunturas nacional e internacional. Durante as reuniões, os militares brasileiros descartaram qualquer chance de confronto. 

As Forças Armadas e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) ainda têm adidos em Caracas e mantêm o governo brasileiro informado. “A situação é de observação. Apenas isso”, afirmou um general, que preferiu não se identificar, já que a questão está sendo conduzida pelo Ministério das Relações Exteriores em conjunto com o Planalto.

Na viagem a Bogotá, Mourão será acompanhado pelo chanceler Ernesto Araújo. Na quinta-feira, 21, o vice-presidente negou que sua ida à Colômbia represente o isolamento de Araújo. “De jeito nenhum. Ele vai comigo, só que a reunião é de presidentes e, por isso, o presidente Bolsonaro pediu para eu representá-lo”, declarou Mourão. 

 


Na reunião do Grupo de Lima, na segunda-feira, na Colômbia, estarão representantes dos 14 países do Grupo de Lima. Entre os integrantes, apenas o México não reconhece Guaidó como presidente interino da Venezuela./ COM AGÊNCIAS

 

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