Porta-voz francês dá a entender que Chávez negocia liberdade de Ingrid

Líder venezuelano, que nega gestão, buscaria prestígio internacional com mediação de acordo entre Paris e Farc

Andrei Netto, PARIS, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2008 | 00h00

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, estaria intermediando um acordo entre a guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o governo francês para libertar a política franco-colombiana Ingrid Betancourt, mantida refém há cinco anos. Os indícios dessa negociação foram fornecidos ontem, com exclusividade ao Estado, pelo porta-voz interino do Palácio do Eliseu, Pierre-Jérôme Henin, e confirmam em parte informações divulgadas no início da semana pela jornalista venezuelana Patricia Poleo, exilada em Miami, nos EUA.Segundo fontes militares da Venezuela ouvidas pela repórter, Ingrid estaria numa fazenda na fronteira entre a Colômbia e a Venezuela, à espera de ser entregue pelas Farc. O presidente então a levaria ao encontro da primeira-dama da França, Cécilia Sarkozy, num ato que marcaria o fim do seqüestro da ex-candidata presidencial.O porta-voz francês negou a versão de que Ingrid já estivesse em liberdade, aguardando apenas o encontro entre Chávez e Cécilia. ''''Ingrid não está livre e a primeira-dama não está a caminho da Venezuela, mas sim em férias nos EUA'''', disse o porta-voz. ''''Mas quando nos manifestamos oficialmente sobre o tema ontem (segunda-feira) não negamos que o presidente Chávez esteja participando como mediador.'''' Henin, no entanto, recusou-se a dar mais detalhes da negociação. ''''Não temos nada a declarar neste momento sobre o senhor Chávez.''''Em Buenos Aires, antes de partir para Montevidéu, Chávez desmentiu ontem a jornalista venezuelana. ''''Querem fazer com que as pessoas acreditem que a Venezuela está a favor da guerrilha colombiana'''', afirmou. ''''Como isso é algo ruim para a (imagem da) Venezuela, espalhou-se rapidamente.''''No domingo, no entanto, o líder venezuelano anunciou em seu programa dominical Alô, Presidente que se esforçaria para tentar resolver o impasse. Até agora, a intermediação entre as Farc e o governo colombiano de Álvaro Uribe era feita oficialmente apenas pelos governos da França, Suíça e Espanha.Em Paris, a suposta intervenção do líder venezuelano é interpretada pelos jornais como um ''''gesto de boa vontade'''' recheado de interesses políticos. Além de sobrepujar Uribe, seu rival na política latino-americana, Chávez gostaria de ter seu nome vinculado a um tema positivo na Europa, depois de ser tachado de ditador ao não renovar a concessão da emissora RCTV. Segundo Patricia Poleo, uma das intenções encobertas de Chávez seria reabrir o comércio de armas entre França e Venezuela, além de obter a liberdade do terrorista venezuelano Ilich Ramírez Sánchez, conhecido como Carlos, o Chacal - preso em Clairvaux, na França, onde cumpre prisão perpétua por atentados praticados na Europa nos anos 70. A hipótese da ''''troca'''' de Ingrid pelo Chacal, porém, tem sido minimizada pela imprensa francesa.Na Espanha, Hervé Marro, porta-voz do comitê, disse ontem que a eventual intervenção de Chávez seria útil, mas que os rumores só farão sentido se vierem acompanhados de uma prova de vida das reféns. ''''Todas as mediações são bem-vindas. Sabemos que Chávez tem contatos com as Farc e ele pode ser útil se a mediação for feita com boa intenção e inteligência'''', argumentou Marro.Já Fabrice Delloye, ex-marido e pai dos filhos de Ingrid, mostrou-se ainda mais cético. ''''Fala-se da intermediação de Chávez, o que me parece loucura'''', disse. ''''Consultamos todas as partes envolvidas nas negociações e não recebemos nenhum sinal de que as informações sobre a liberdade iminente de Ingrid sejam confiáveis.''''O governo colombiano negou ontem que a libertação de Ingrid seja eminente. ''''Tudo o que temos até agora são rumores'''', disse o chanceler Fernando Araújo. PRESSÃO DIPLOMÁTICA18/5: Presidente francês, Nicolas Sarkozy, recebe familiares da senadora e ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt e diz que sua libertação é uma das prioridades de sua política externa4/6: Presidente colombiano, Álvaro Uribe, acata pedido de Sarkozy e liberta o ''''chanceler'''' das Farc, Rodrigo Granda, para mediar negociações para libertar reféns5/8: Presidente venezuelano, Hugo Chávez, promete ajudar num acordo humanitário entre o governo colombiano e as Farc6/8: Jornalista antichavista Patricia Poleo diz que Ingrid estaria num cativeiro na Venezuela

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