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Portugal é a exceção na Europa

Todos os países, do Reino Unido à Hungria, da Itália à Letônia e Polônia e mesmo Alemanha e França, estão contaminados pelo 'populismo'

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2019 | 05h00

Era sabido que nas profundezas das florestas da Europa Central, nas cavernas e subterrâneos do Maciço Central e no silêncio das montanhas, ainda havia bandos de sobreviventes que, às vezes, participavam das manifestações de rua brandindo pequenas placas nas quais estava escrito: “Partido Socialista”.

Já em 2015, essa horda rupestre havia saído de seus esconderijos em Portugal e conseguira uma boa pontuação, o que permitiu a seu líder, António Costa, ao preço de uma aliança com a esquerda radical e o Partido Comunista, formar um governo. Eles foram contemplados com certo espanto e um pouco de compaixão. Nós nos tranquilizamos: essa esquisitice não resistiria ao exercício do poder. Esse inesperado sucesso eleitoral não passava do soluço da morte.

Mas esse mesmo Costa, sempre socialista, saiu-se vitorioso das eleições de domingo, melhorando ainda mais sua situação. Tribo estranha. Ela manteve o ditador António Salazar muito tempo depois que o fascismo italiano já havia desaparecido na Europa. E hoje, aqui está, extraindo do seu século 20 o socialismo do qual ninguém na Europa quer mais ouvir falar. E ele dá a esse partido sobrevivente rostos novos e o sorriso da modernidade.

Costa não abandonou seu catecismo socialista. Apesar de toda a Europa continuar a repetir “Rigor! Rigor!”, isso não o impediu de aumentar as aposentadorias e os salários dos funcionários públicos. Uma loucura – e essa loucura funcionou. As contas do país estão saneadas. O déficit público foi reduzido para 0,2% do PIB. Tudo isso não impediu que o crescimento fosse um dos mais sólidos do continente: 3,5%, em 2017, e 2,4%, em 2018. O desemprego caiu. Ele voltou a níveis modestos de antes da crise de 2008.

Outra anomalia. Enquanto todos os poderosos países europeus se voltam contra a entrada de imigrantes, Portugal busca imigrantes. É preciso dizer que o gênio português, tão inteligente, tão maleável, tão audacioso, como comprovou ao descobrir a outra metade do mundo, por volta de 1500, faz maravilhas. Os estrangeiros são bem-vindos, e não importa a cor da pele. O sorriso está em todo lugar. 

Estrangeiros consolidam a máquina econômica.

Sorrimos para eles quando os encontramos – os parisienses deveriam tirar uma lição de tão bons resultados. O estrangeiro não dá medo. Até o momento, não há ataques jihadistas. Entrevistado pelo Financial Times, um empresário brasileiro em Portugal descobre que é possível caminhar pelas belas ruas de Lisboa ou Guimarães “sem ficar olhando por cima do ombro”. A taxa de criminalidade é a mais baixa da Europa.

Costa declarou oficialmente que a imigração é “uma coisa boa” e pediu a toda a Europa que “se mobilize contra o populismo e a xenofobia”. Os portugueses, que haviam saído do país durante os anos sombrios, retornaram. Entre 2010 e 2015, 500 mil portugueses deixaram o país e 350 mil já voltaram para casa.

Além disso, a beleza de Portugal, seu charme, sua memória, seus sorrisos, suas belezas e seu sol ajudaram a apoiar o socialismo de Costa: os estrangeiros chegam em massa para provar por alguns dias a beleza do Porto ou do Algarve, ou para deixar passar os dias de paz durante a aposentadoria – o que torna perigosamente elevados os preços dos imóveis, infelizmente. Há 50 mil franceses felizes em Portugal. E na Europa?

Em 2015, pensava-se que o Portugal de Costa se afastaria da União Europeia. Nada disso. “Portugal”, diz o Financial Times, “seria um oásis de estabilidade e crescimento em uma Europa instável, ameaçada por uma nova recessão”. Talvez o mais estranho: durante alguns anos, a Europa foi atormentada pela crise. 

A maioria de seus países, repletos de ideias saudosistas, rejeitou todos os modelos moderados e abertos. A Europa afastou os navios cheios de milhares de refugiados da África e da Ásia, muitas vezes transformados em milhares de afogados. Ela cercou suas fronteiras com arame farpado, deu as costas a seu talento em quase toda parte, para substituí-lo pela máscara dos vingadores ou desesperados. Os antigos partidos recuaram e perderam o poder. Dos socialistas não restam mais que algumas amostras confusas.

Assim, a Europa se tornou um continente cansado e ranzinza, no qual extremistas de direita furiosos, como o antimuçulmano chamado Eric Zemmour, se agitam como as fúrias da esquerda, tal como Jean-Luc Mélenchon, que já foi o maior tribuno da Assembleia Nacional. Três quartos da Europa sonham com Estados fortes, como se costuma dizer, amaldiçoando estrangeiros e lamentando a ordem e a miséria que reinaram na Europa de 1939. 

Todos os países, do Reino Unido à Hungria, da Itália à Letônia e Polônia e mesmo Alemanha e França, estão contaminados pelo “populismo”. Alguém poderia acreditar em tal fatalidade da história se, lá embaixo, nos promontórios do Oceano Ocidental, não brilhasse a face da Fada da Esperança. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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