Portugal elege presidente em meio a grave crise

Problemas econômicos ampliam divergências políticas e Cavaco Silva, favorito à reeleição, não descarta a possibilidade de dissolver o Parlamento

Vitor Sorano, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2011 | 00h00

Com mais de 50% das intenções de voto, o economista Aníbal Cavaco Silva deve se reeleger hoje presidente de Portugal. No entanto, caso vença mesmo as eleições, o país que ele comandará pelos próximos cinco anos é muito diferente daquele que ele assumiu em 2006. Mergulhado em uma profunda crise econômica e política, Portugal é uma nau sem rumo.

Ano passado, o índice de desemprego atingiu o recorde histórico de 11,1%. Em 2011, a tendência é piorar. Estima-se que cerca de 350 mil funcionários públicos terão cortes salariais. Cerca de 60 mil portugueses com diploma universitário não têm trabalho. A grande maioria desse contingente é de jovens recém-formados, o que vem levando muitos analistas a temer uma nova fuga migratória, principalmente para o Brasil.

De acordo com estimativas, o PIB de Portugal deve recuar 1,3% em 2011. O grau de endividamento do país, que tem uma dívida pública que ultrapassa 80% do PIB, aumenta os temores de que, após Grécia e Irlanda, Portugal seja o próximo a pedir ajuda a Bruxelas.

O país vem sendo pressionado a aceitar a ajuda do fundo de estabilidade europeu (EFSF, na sigla em inglês), para reduzir o custo de financiamento do déficit. "Se as taxas continuarem elevadas (acima de 6%, como agora), Portugal não terá alternativa", disse Laurence Boone, economista do Barclays na França. O governo, porém, nega a necessidade.

O primeiro-ministro José Sócrates e seu Partido Socialista (PS) não têm maioria absoluta no Parlamento e estão sofrendo o desgaste da crise econômica e das medidas de austeridade.

Como não faz parte do governo, Cavaco Silva e o Partido Social Democrata (PSD) não foram tão afetados pela crise. Azar de seu adversário, o ex-deputado Manuel Alegre, apoiado pelo PS, que tem apenas 23% das intenções de voto.

"Quando o governo vai mal, o candidato oficial sofre por tabela", afirmou André Freire, sociólogo e professor do Instituto Universitário de Lisboa.

"Se não houver crescimento, antes de meados do ano teremos eleições antecipadas para o Parlamento", disse o economista João Sousa Andrade, da Universidade de Coimbra - a escolha de novos deputados está prevista para 2013. Se a votação fosse antecipada, segundo pesquisas, o PSD teria 39,8% dos votos, enquanto os socialistas ficariam com 27,2%.

"Não se espera eleições para o futuro próximo, mas os mercados sabem que o governo Sócrates é frágil", afirmou Marc Ostwald, estrategista da Momentum Securities.

Pressão. Se vencer, no entanto, Cavaco Silva não afasta a possibilidade de dissolver o Parlamento. "Será uma grande pressão sobre o presidente", disse o cientista político Carlos Jalali, da Universidade de Aveiro. Pedro Passos Coelho, líder do PSD, já sugeriu publicamente a troca de governo caso Portugal recorra a ajuda externa.

Logo após a sugestão, Cavaco Silva disse que "tem pouco apetite" para utilizar a "bomba atômica", como é chamado o mecanismo que lhe permite dissolver o Parlamento. Seus dois antecessores, Mário Soares e Jorge Sampaio, contudo, fizeram uso do instrumento.

Maritheresa Frain, analista que trabalhou com Cavaco Silva, considera a possibilidade remota. "Ele esgotaria todas as chances de um acordo político antes de intervir diretamente", afirmou. "A Constituição lhe dá essa prerrogativa, mas seria uma profunda irresponsabilidade", disse Paulo Pisco, deputado do PS.

Premiê de 1985 a 1995, Cavaco Silva foi o primeiro chefe de governo de centro direita após a Revolução dos Cravos, em 1974, que restabeleceu a democracia. No cargo, comandou a entrada do país na Comunidade Econômica Europeia e foi responsável pela liberalização da economia portuguesa. Desde 1976, nunca um presidente deixou de ser reeleito em Portugal.

Pesquisas

50%

das intenções de voto tem Cavaco Silva, do PSD

23%

tem Manuel Alegre, do PS

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