José Sarmento Matos for The Washington Post
José Sarmento Matos for The Washington Post

Portugal já vacinou quase toda a população. O que acontecerá agora?

Com indicadores de gravidade da pandemia em tendência rápida de queda, país ostenta taxa de mortalidade equivalente a metade da média da União Europeia e cerca de 10% da dos Estados Unidos

Chico Harlan e Mia Alberti, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2021 | 10h01
Atualizado 01 de outubro de 2021 | 14h59

LISBOA - A campanha de vacinação de Portugal está quase no fim e já ultrapassou os seus objetivos. Nos centros de imunização em massa, apenas uma leva de adolescentes está nas filas. Cerca de 85% da população de Portugal está totalmente vacinada - com exceção da minúscula Gibraltar, a taxa mais alta do mundo.

"Na verdade, ficamos sem adultos para vacinar", disse Lurdes Costa e Silva, a enfermeira-chefe de um centro de vacinas de Lisboa.

O feito de Portugal transformou o país em um laboratório pandêmico de ponta - um lugar onde questões hipotéticas sobre o desfecho da pandemia podem começar a surgir. O principal é como uma nação pode controlar totalmente o vírus quando as taxas de vacinação estão tão altas quanto possível.

A resposta é promissora. Com indicadores de gravidade da pandemia em tendência rápida de queda, país ostenta taxa de mortalidade equivalente a metade da média da União Europeia e cerca de 10% da dos Estados Unidos.

Lisboa está triunfante: uma cidade de música ao vivo e festa, onde os boêmios podem encontrar calçadas pegajosas de cerveja. O tráfego voltou ao normal e a celebridade do momento é o ex-comandante de submarino que liderou a campanha de vacinação do país.

Mas a experiência de Portugal também indica necessidade de cautela: um lembrete de que, após 1 ano e meio desta pandemia, as ferramentas científicas atuais ainda podem não ser suficientes. O vírus ainda causa restrições, dias perdidos de trabalho e doenças - em casos raros, graves. Ele se espalha com menos rapidez do que em lugares com taxas de vacinação mais baixas - o que beneficia a todos, incluindo as crianças de 12 anos ou menos ainda não elegíveis para vacinação. Mas a imunidade coletiva permanece indefinida. Os cálculos diários sobre o risco permanecem, mesmo sem grandes grupos de pessoas não vacinadas para culpar.

"Alcançamos um bom resultado, mas não é a solução ou o milagre que se poderia pensar", disse a ministra da Saúde de Portugal, Marta Temido, em uma entrevista. "O novo normal não se parece muito com a vida antes da pandemia".

O governo deve reabrir boates e suspender o horário obrigatório de fechamento dos bares às 2h, no caminho para o que o primeiro-ministro chama de "liberdade total". Na realidade, porém, algumas precauções permanecerão. O uso de máscaras em ambientes internos ainda será obrigatório em algumas situações. Os passaportes de vacina continuarão a ser necessários para viagens e eventos com muitas pessoas.

Talvez o sinal mais revelador da persistente inquietação de Portugal seja os muitos funcionários da saúde ainda estarem preocupados com uma nova onda no inverno que se aproxima no Hemisfério Norte e um aumento nas hospitalizações. E ainda estão preocupados com a vulnerabilidade dos idosos à devastação do vírus. Em Portugal, os idosos são vacinados a um nível que se aproxima do estatisticamente impossível: dados oficiais indicam que a taxa é de 100%. Mas muitos também foram vacinados há mais de seis meses - e estudos de todo o mundo, dos Estados Unidos a Israel, alertaram sobre uma queda na proteção dos idosos após este tempo.

Um dos maiores alertas veio de um instituto de ciências em Lisboa, onde investigadores têm medido os níveis de anticorpos em milhares de pessoas - incluindo cerca de 500 em lares de idosos portugueses. Logo depois que os residentes de asilos foram vacinados, todos com a vacina da Pfizer-BioNTech, 95% desenvolveram anticorpos, descobriram os pesquisadores. Mas neste verão, quando o último lote de amostras de sangue chegou, os cientistas realizaram os mesmos testes - apresentando o sangue a elementos sintéticos do vírus - e os resultados foram mais preocupantes do que o que eles esperavam.

A equipe de funcionários da casa de saúde, cujo sangue também foi testado, ainda tinha anticorpos. Mas mais de um terço dos residentes perderam anticorpos inteiramente. Jocelyne Demengeot, 58, investigadora principal do Instituto Gulbenkian de Ciência, descreveu a descoberta como um “sinal longe do ideal".

Falando em uma entrevista em seu instituto, onde cientistas conduzem reuniões ao ar livre, ela disse que os resultados não indicam necessariamente a perda de proteção contra doenças graves e morte. Ainda havia uma chance de o sistema imunológico dos idosos ter sido treinado pela vacina para enfrentar melhor as exposições subsequentes. Mas esperar para descobrir na vida real era arriscado. O instituto alertou a força-tarefa do governo responsável pela vacinação.

Uma abordagem de guerra

Mas, do outro lado de Lisboa, em uma instalação militar no alto de uma colina com muito vento, o admirado czar das vacinas de Portugal estava preocupado com outra coisa.

Para Henrique Gouveia e Melo, a maior parte das informações que chegaram sobre os idosos foi extremamente reconfortante. Mesmo depois de seis meses, eles não estavam lotando leitos de hospital. Os níveis de casos entre os idosos estavam caindo.

O vice-almirante da Marinha passou grande parte de sua carreira avaliando riscos e achava que o maior risco para Portugal - o coronavírus - exigia uma visão mais ampla. Em uma das três telas de computador em sua mesa, ele puxou um gráfico mostrando os níveis de vacinação, país por país. As taxas em muitos países ocidentais foram de decentes a boas, ainda aumentando lentamente. Mas então ele parou em duas ex-colônias portuguesas, Angola e Moçambique.

Em ambos os lugares, como em muitas nações africanas, as taxas de vacinação permanecem na casa de um dígito - dando espaço para infecções galopantes e novas variantes capazes de escapar das vacinas e contaminar o mundo. Gouveia e Melo apontou para sua tela. “Esses países se vingarão de nós”, disse ele.

As explicações para o sucesso da vacinação em Portugal vão muito além de uma pessoa: o país tem uma política bastante centrista e pouco polarizada e uma confiança de longa data em vacinas. Mas os médicos notam que a campanha de vacinação foi cheia de percalços até que Gouveia e Melo assumiu, exigiu coisas feitas à sua maneira, e traçou uma estratégia de grandes centros de vacinação e declarações públicas claras.

Daquele ponto em diante, ele se tornou a voz do combate à pandemia no país: um capitão de submarino de 1,80 metro que passou quatro anos de sua vida debaixo d'água, com um interesse em drones e que agora está obcecado pelas métricas das entregas de vacina, eficiência e mortalidade em declínio.

Ele transmitiu a sua mensagem noite após noite nos estúdios de televisão portugueses, vestido com uniformes militares para transmitir o sentido de uma guerra - e executando o plano de combate traçado. Em março, quando as notícias sobre raros coágulos sanguíneos ligados à vacina da AstraZeneca levaram a Europa ao pânico, Gouveia e Melo tentou contextualizar o risco. Ele descreveu dois caminhos, um para quem escolheu a vacina e outro para quem escolheu esperar. Na estrada para os vacinados, um franco-atirador mataria um em cada 500 mil, disse Gouveia e Melo. Na estrada para os não vacinados, um atirador mataria um em cada 500. "Então", disse ele, "que estrada você quer?"

Mas agora, disse Gouveia e Melo, a situação era outra. Ele pensou que a melhor jogada de Portugal seria se concentrar em ajudar os outros - não apenas por razões “morais”, mas para sua própria segurança. Ele chamou a ideia de doses de reforço de "estúpida". Para ele, a missão doméstica havia acabado - e sua força-tarefa, dissolvida esta semana, não era mais necessária. Portugal ganhou uma oportunidade de ajudar em outro lugar. “Você não pode vencer vacinando todos em seu próprio país”, disse ele. “A guerra termina depois que vacinarmos a todos no mundo.”

Pesando os riscos

Em uma das mesmas casas de repouso que ofereceram sangue aos pesquisadores, dois cientistas chegaram no mês passado, dirigindo uma hora ao norte de Lisboa, dando uma notícia que não tem interpretação certa. Os cientistas ofereceram ao diretor da casa de saúde uma apresentação de slides. Um dos últimos slides mostrava um gráfico: 37% dos residentes estavam agora sem anticorpos. “Isso não significa que não estejam protegidos”, lembrou o diretor, Joaquim Moura, das falas dos cientistas.

Mas Moura ficou preocupado com as informações. Mesmo se Portugal pudesse em breve aplicar doses de reforço para os idosos - como fizeram os Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha - o que deveria mudar nesse ínterim? Como pesar os riscos?

Para os 89 moradores do Centro de Assistência Social de Runa, a vacinação foi transformadora. Aliviou o medo extraordinário de uma catástrofe, do tipo que se desenrolou em outras instalações de idosos por todo o país e ao redor do mundo.

Tão importante quanto, a vacinação permitiu ao centro reabrir suas portas. Pessoas que haviam sido isoladas de suas famílias - caindo em depressão, “perdendo o gosto pela vida”, disse Moura - agora estavam vendo seus filhos. Muitos fizeram viagens de ônibus para o shopping nas proximidades. Graça Carita, 85, que ficou viúva aos 38, saiu para um encontro. Francisco Pratas, de 83 anos, que no ano passado passara a dirigir o carro no estacionamento da casa de repouso apenas para proteger o motor, agora conseguiu sair do portão e dirigir até a praia. “Fazendo esse tipo de coisas”, disse Pratas, “nossas vidas renascem”.

Alguns dos residentes que perderam anticorpos eram muito frágeis para receber a notícia eles mesmos, então a enfermeira-chefe da instalação enviou e-mails para suas famílias. Os e-mails não sugeriram que quaisquer mudanças dramáticas fossem necessárias, mas dizia que havia uma "necessidade maior de reforçar as medidas de proteção já em vigor" - uso de máscara, lavagem das mãos e distanciamento.

A enfermeira transmitiu uma mensagem semelhante aos residentes com quem se encontrou pessoalmente, incluindo Maria Apolínia, 88, e o marido dela, João Lopes Neves, 90. Cada um teve então de tomar as suas próprias decisões sobre se ou como ajustar o seu comportamento.

Maria e João estão casados há 62 anos e, mesmo durante os piores dias de confinamento da pandemia, eles tinham um ao outro. A saúde dele era pior do que a dela, então eles dormiam em alas separadas, mas passavam o dia juntos, das 10h às 18h, às vezes sentados à mesa de leitura, compartilhando o jornal.

Mas, até serem vacinados, eles estavam separados de seus três filhos e sete netos, cujas realizações e crescimento estavam acontecendo fora de vista. Mesmo meses depois que esse contato foi restaurado, depois de muitas visitas à casa de suas filhas para fartas refeições de boi e coelho, Maria chorou com a memória do ano passado.

Então, quando a casa de saúde lhes deu a notícia - Maria ainda tinha anticorpos, mas João não - eles conversaram. Maria diz que se sentiu “triste”. Mas João ignorou. Eles concordaram que era um sacrifício muito grande ser cuidadoso e perder novamente as coisas que importavam. Talvez as doses de reforço estivessem chegando, talvez não, mas eles continuavam agendando almoços com os filhos, mesmo que os riscos tivessem mudado um pouco. “Nós vamos de novo neste domingo”, disse Maria.

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