Portugal prende pela primeira vez em sua história um ex-primeiro-ministro

Portugal prende pela primeira vez em sua história um ex-primeiro-ministro

Ex-premiê José Sócrates é acusado de corrupção, fraude fiscal e lavagem de dinheiro; crimes ocorreram entre 2005 e 2011

Jamil Chade/correspondente na Suíça, O Estado de S. Paulo

22 Novembro 2014 | 08h55

GENEBRA - O ex-primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, foi detido na noite de sexta-feira, 21, suspeito de lavagem de dinheiro, corrupção e fraude fiscal. Essa é a primeira vez que a Justiça do país prende um ex-chefe de governo e a previsão é de que ele preste depoimento ainda neste sábado, 22. Sócrates foi preso ao desembarcar em Lisboa, vindo de Paris. 

"No âmbito de um inquérito, dirigido pelo Ministério Público e que corre termos no Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), e onde se investigam suspeitas dos crimes de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção, na sequência de diligências, desencadeadas nos últimos dias, foram efectuadas quatro detenções. Entre os detidos encontra-se José Sócrates", diz o comunicado da Procuradoria Geral da República de Portugal.

Chefe do governo socialista entre 2005 e 2011, o ex-primeiro-ministro foi o responsável por assinar um resgate de 80 bilhões de euros para o país, mas que acabou exigindo reduções de salários e milhares de demissões. 

Sócrates, porém, acabou sendo identificado como parte da Operação Montebranco, da polícia local e que tinha como objetivo atacar a lavagem de dinheiro. Na mesma operação, um dos responsáveis pelo Banco Espírito Santo, Ricardo Salgado, também foi preso em julho. Salgado foi uma das pessoas que auxiliou Sócrates a fechar o resgate de 80 bilhões de euros com a UE. 

Agora, o ex-primeiro-ministro é investigado por "transferências de dinheiro sem justificativa conhecida". Ao seu lado foram também detidos dois executivos de construtoras e um representante da farmacêutica multinacional Octapharma. 

Foi durante sua gestão que Portugal aprovou uma anistia fiscal a quem tivesse dinheiro no exterior não declarados. Foi justamente se beneficiando de sua própria anistia que Sócrates repatriou da Suíça ao país cerca de 20 milhões de euros que estava na sucursal do banco Espírito Santo. Naqueles anos, o banco registrou resultados recordes. 

Quando as investigações sobre Sócrates começaram, ele chegou a declarar em julho que "há mais de 25 anos" que apenas tinha um conta bancária". "Nunca tive ações e nem contas no exterior", declarou. "O primeiro que fiz quando sai do governo foi pedir um empréstimo ao meu banco". 

Mas segunda a revista Sol, Sócrates já teria em 2010 um patrimônio de 20 milhões de euros no UBS, na Suíça. Mas, ao trazer de volta ao país usando uma offshore de um amigo, o ex-primeiro-ministro pagou apenas 5% de impostos. 

No retorno a Portugal, o dinheiro foi depositado no Banco Espírito Santo, justamente de seu aliado Salgado.

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