Portugal revolta britânicos

Em 3 de maio, a pequena Madeleine, que faria 4 anos uma semana depois, desaparecia em Portugal. Trata-se da filha de um casal britânico que estava em férias com ela e seus dois outros filhos no Hotel da Praia da Luz, no sul do país. Começou a terrível batalha dos pais, dois médicos, para encontrá-la. A mãe conseguiu audiência com autoridades mundiais de grande destaque como o papa e o casal George e Laura Bush. Os policiais portugueses vasculharam o país. Nenhum vestígio de Madeleine. No fim de semana, um lance teatral. A polícia portuguesa ouviu os pais, Kate e Gerry McCann, e os pôs "em observação", sob a assustadora suspeita de terem "desempenhado um papel no desaparecimento da filha". Mas a polícia os deixou livres. O casal deixou Portugal no domingo e deve voltar em alguns dias.Na Grã-Bretanha, o comportamento dos policiais portugueses causou irritação. Se Portugal ousa fazer acusação tão horrível, por que não prendeu o casal? Os policiais apontam o casal como réu, mas o deixam solto! As provas de culpabilidade são vagas. De um lado, nem foi confirmada a morte da criança. Depois, o cenário apresentado pela polícia portuguesa é bizarro: o casal McCann teria ido ao restaurante em 3 de maio depois de ter dado um sedativo à filha. Esse sedativo se teria revelado fatal.Os pais, em vez de avisar a polícia, teriam ocultado o corpo de Madeleine, e o teriam transportado 25 dias depois num carro alugado para dar-lhe sumiço. Provas? A imprensa inglesa, que toma ruidosamente a defesa do casal McCann, as considera ridículas. Teriam sido encontrados traços de DNA da menininha no carro alugado 25 dias depois de seu desaparecimento. E os pais teriam ocultado o cadáver durante quatro semanas! Além disso, esse DNA não teria saído de uma mancha de sangue. Poderia ser de um simples contato da menina com seu bichinho de pelúcia, do qual a mãe jamais se separou depois do drama.Outro indício: cachorros teriam detectado um "odor de cadáver" no carro, mas três meses após a suposta morte da criança. Ora, os britânicos dizem que a sensibilidade dos cães só funciona até um mês após uma morte. E mais: como uma mulher vigiada continuamente pela mídia teria conseguido recuperar o cadáver decomposto e livrar-se dele? Outro fato apresentado pelos jornais ingleses: Kate, católica fervorosa, adorava a criança, que havia sido intensamente desejada e fora gerada numa fecundação in vitro.Ante a cólera da imprensa inglesa, a polícia portuguesa silencia. Os jornais de Lisboa atacam os ingleses: "Eles tentam vender a qualquer preço a inocência dos McCanns", diz o Correio da Manhã. O diário Público é mais circunspecto: "Ou a polícia tem provas do que sugere e demonstra a hipótese que muitos consideram inverossímil, ou avança parcialmente na obscuridade e arruína sua imagem, não só aos olhos do país, mas aos do mundo." *Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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