EFE/EPA/MIGUEL A. LOPES
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Portugal se prepara para eleição presidencial em pleno confinamento

Disputa tem sete candidatos; presidente Marcelo Rebelo de Sousa é favorito para a reeleição

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2021 | 10h23

LISBOA - Os portugueses vão às urnas no domingo, 24, em uma eleição presidencial marcada mais pela pandemia do que pela previsível vitória do conservador Marcelo Rebelo de Sousa, que busca um novo mandato. Diante da explosão de casos de covid-19, que fez Portugal ocupar o primeiro lugar no mundo em novos casos no que diz respeito à população, não haverá nenhuma manifestação nesta sexta-feira, 22, último dia da campanha eleitoral. 

O estado de emergência sanitária instalado em novembro e o segundo confinamento geral, decretado há uma semana, não perturbaram o calendário eleitoral do país, fixado em lei e praticamente inalterável. Dada a impossibilidade de adiamento das eleições, candidatos e observadores temem uma abstenção recorde, o que pode impactar na confiabilidade das pesquisas, unânimes em dar a vitória do atual presidente no primeiro turno.

Para estimular a participação dos cerca de 9,8 milhões de eleitores cadastrados - 1,5 milhão deles no exterior - as autoridades eleitorais organizaram, pela primeira vez uma votação antecipada. Cerca de 200 mil eleitores participaram no último domingo, 17.

Com o número de mortos de covid-19 quebrando recordes todos os dias, o governo decidiu aumentar as restrições e ordenou o fechamento de escolas por duas semanas a partir de sexta-feira. Equipes de voluntários têm ido de porta em porta coletar as cédulas de cerca de 13 mil pessoas colocadas em quarentena ou confinadas em asilos.

Há um ano, quando as eleições foram anunciadas, pareciam ser um mar de rosas para o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, ex-professor de direito de 72 anos que ficou conhecido como comentarista político na televisão, afirmou a cientista política Paula Espírito Santo, da Universidade de Lisboa. "Mas pode não ser tão simples". 

“Basta que haja uma abstenção de 70% para um segundo turno ser quase inevitável”, alertou o próprio Rebelo de Sousa esta semana, que disputará a posição com seis rivais. Os quatro presidentes que Portugal conheceu desde a chegada da democracia em 1974 foram reeleitos no primeiro turno.

O atual chefe de Estado, muito popular desde sua eleição há cinco anos, conviveu sem dificuldades com os socialistas do primeiro-ministro Antonio Costa, que para evitar uma derrota certa descartaram a candidatura.

No entanto, esse cenário tão previsível pode desmotivar os partidários do presidente para irem às urnas, ainda mais considerando que uma parte da direita o acusa de ter sido muito complacente com o primeiro-ministro, que chegou ao poder pouco antes dele graças ao apoio da esquerda radical.

Uma surpresa das eleições poderá vir do candidato da direita populista, André Ventura. Depois de ter fundado o partido anti-sistema Chega, o jurista de 38 anos ingressou no Parlamento nas eleições legislativas de 2019 com 1,3% dos votos. 

A maioria das pesquisas lhe dá um terceiro lugar, muito parecido com a ex-deputada socialista Ana Gomes, de 66 anos. A diplomata de carreira, altamente crítica do primeiro-ministro Antonio Costa, tornou-se uma forte ativista anticorrupção antes de se lançar na corrida presidencial.

Em Portugal, o chefe de Estado não tem o poder executivo, mas desempenha o papel de árbitro em caso de crise política e pode dissolver o Parlamento para convocar eleições legislativas antecipadas.

Confira abaixo o perfil dos principais candidatos:

Marcelo Rebelo de Sousa: É o atual presidente e favorito para a reeleição. Pesquisas mostram vitória com 60% dos votos no primeiro turno para o ex-jurista de 72 anos. Mas previsões de alta abstenção podem complicar esse objetivo. Suas ações estabeleceram um precedente para o que pode fazer um chefe de Estado durante uma pandemia.

Pressionado por um primeiro confinamento em março de 2020, reuniu-se dezenas de vezes com especialistas - às vezes causando críticas sobre um excesso de iniciativa perante o governo do primeiro-ministro - e pediu mais investimentos em saúde pública. Fez objeções a vários ministros durante sua gestão, o que precipitou a renúncia de dois deles, vetou 23 leis em cinco anos - número acima da média.

"Não vou sair no meio de uma caminhada tão exigente e doloroso", disse ele ao apresentar sua candidatura para um segundo mandato, em que oferece continuidade. Sousa é um político de centro-direita que defende, acima de tudo, a estabilidade. 

Ana Gomes: A ex-deputada socialista Ana Gomes tem possibilidades de se tornar uma alternativa ao Rebelo de Sousa e pode causar dores de cabeça ao seu próprio partido, liderado pelo primeiro-ministro Antonio Costa, que não a endossa oficialmente.

Não é necessário para um aspirante a presidente em Portugal ter o apoio de uma formação política, embora seja comum os partidos apoiarem um candidato. Sua candidatura tem sido vista como elemento de divisão entre os socialistas. Gomes, de 66 anos, tem extensa experiência diplomática e fez do combate à corrupção sua bandeira principal. Promete fortalecer os meios de Justiça para acabar com a corrupção no Estado, que considera um dos grandes entraves à democracia portuguesa.

André Ventura: É a surpresa da disputa. Líder e único deputado do partido de extrema-direita Chega, está em terceiro lugar nas pesquisas, com estimativas de até 10% dos votos. Com uma estratégia de tensão, Ventura, ex-comentarista esportivo e consultor de 38 anos, apela com populismo ao voto de portugueses descontentes com um discurso ríspido que inclui a proposta de redução de deputados e a implementação da prisão perpétua.

João Ferreira: É o candidato apoiado pelo Partido Comunista Português (PCP). As pesquisas dão a ele 5% dos votos no final de uma campanha na qual ele pediu para enfrentar os desafios dos trabalhadores na pandemia. Biólogo formado e deputado europeu desde 2009, Ferreira, de 42 anos, preconiza o esquecimento da austeridade fiscal e o foco na garantia de benefícios sociais.

Marisa Matias: É a segunda vez que um candidato presidencial apoiado é apresentado pelo Bloco de Esquerda, embora as pesquisas projetem queda na seus resultados com apenas 3% dos votos. Socióloga Matias, de 44, apela para a proteção de empregos e combate à precariedade. Defende a estabilidade como função principal de um chefe de Estado.

Tiago Mayan: Auto-apresentado como o primeiro candidato "genuinamente liberal", Tiago Mayan, advogado de 43 anos e apoiado pela Iniciativa Liberal, tem projeção de 3% dos votos com uma mensagem que defende uma maior variedade política. Tem também se destacado por criticar abertamente o atual presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, por considerar que ele comprometeu sua independência ao dar cobertura política ao Governo da Costa.

Vitorino Silva: Conhecido em Portugal como “Tino de Rans” pela participação em diversos reality shows, apareceu nas eleições presidenciais de 2016, nas quais obteve 3,28% dos votos, e tenta novamente. Silva, de 49 anos, propõe dar prioridade à saúde, à restauração e ao pequeno comércio na distribuição das cobiçadas ajudas da União Europeia. Tem 2% de intenções de votos. 

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