Patricia de Melo Moreira / AFP
Patricia de Melo Moreira / AFP

Portugal tem eleição com baixa interferência de ‘fake news’, diz especialista

Sem disputa polarizada, país elegeu premiê em meio a alertas observados em países vizinhos e no Brasil, indo na contramão de Reino Unido e Alemanha

Paulo Roberto Netto, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2019 | 11h00

Na contramão do referendo do Brexit, no Reino Unido, e das eleições legislativas da Alemanha, Portugal entrou e saiu do último ciclo eleitoral, encerrado no domingo, 6, com baixa interferência das chamadas "fake news", afirmam especialistas ouvidos pelo Estadão Verifica. No domingo, o socialista António Costa venceu as eleições legislativas e ampliou sua base na Assembleia da República, o parlamento português.

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Segundo Miguel Crespo, pesquisador do Laboratório de Ciências da Comunicação do Instituto Universitário de Lisboa (Media Lab/ISCTE-IUL), as eleições brasileiras e os casos europeus, em especial o Brexit, serviram de alerta para tentativas de interferências nos processos eleitorais em Portugal. Além disso, iniciativas de fact-checking surgiram em redações dos principais veículos da imprensa, o que criou um ambiente de fiscalização de declarações políticas.

“Parece-me bastante nítido que os políticos foram muito cuidadosos, principalmente nos ataques aos adversários, ao evitar fazer declarações sem fundamento, por existir uma rede que está atenta a desconstruir as tentativas de manipulação eleitoral”, afirmou o pesquisador. “As pessoas também ficaram mais alertas para o problema que é a desinformação e o compartilhamento de informações falsas.”

Antes mesmo da eleição, o Media Lab/ISCTE-IUL publicou, juntamente com a organização Democracy Reporting International, estudo prevendo que o seria “relativamente baixo” o risco de influência de campanhas de desinformação e manipulação em Portugal. O estudo citou uma série de fatores sociais e políticos, entre eles a ausência de uma disputa polarizada entre dois grupos, a alta confiança em órgãos eleitorais e em instituições governamentais, a baixa influência geopolítica de Portugal na União Europeia e a relevância pequena de movimentos antidemocráticos.

Diferentemente do Brasil, onde as eleições foram definidas em uma disputa de forças pró e anti-petismo, as eleições legislativas portuguesas não tiveram essa característica de polarização. “Foi uma eleição com a lógica de continuidade (de governo)”, afirmou Miguel Crespo. Não houve campo para as fake news terem um papel muito determinante”.

Alvos

Outro fator que diferencia o cenário em Portugal do observado em outros países é a forma como os conteúdos circulam. Diferentemente do Brasil, as peças de desinformação não foram produzidas e disseminadas de forma massiva, avalia o jornalista Gustavo Sampaio, diretor-adjunto do Polígrafo, agência de fact-checking lançada em novembro do ano passado e voltada para desmonte de boatos e verificação de declarações de políticos e figuras públicas.

Segundo Sampaio, houve tentativas de difundir no país boatos cujos alvos eram imigrantes e refugiados, a exemplo do que ocorreu na Alemanha, e também desinformação sobre “ideologia de gênero”. Os boatos ganharam algum impulso nas redes, mas não no mesmo nível que em outros países. “Não passamos por um ‘teste de fogo’, mas o que se verifica é que há um terreno que pode ser explorado, o que é um bocado assustador”, afirmou o jornalista. “Por um lado, ainda não são coisas muito sofisticadas ou nas quais se nota um grande investimento, mas, por outro, vejo que se houver uma pressão e as coisas forem bem feitas, podem ter impacto grande.”

Sampaio citou um incidente ocorrido na sexta-feira, 4, às vésperas das eleições. O primeiro-ministro António Costa foi abordado durante ato de campanha por um cidadão que o acusou de estar em férias em julho de 2017, quando um incêndio florestal em Pedrógão Grande provocou 64 mortes. A alegação é falsa: Costa não apenas estava em pleno trabalho como visitou o local do incêndio acompanhado das equipes de resgate. O boato circulou pela primeira vez em 2018 e já havia sido desmentido pelo Polígrafo.

"É um caso excepcional, único", disse Sampaio. "Não me lembro uma figura política na política portuguesa, em especial o primeiro-ministro, ter sido abordado na rua e questionado por uma informação falsa propagada nas redes. Isso abre uma nova época na política portuguesa”.

Além do boato contra Costa, outros falsos conteúdos que circularam acusavam a candidata Joacine Katar Moreira, do Livre, de fingir gagueira para angariar votos de simpatia. Já o Pessoas-Animais-Natureza, partido voltado à defesa dos direitos humanos, foi acusado falsamente de propor “perdão a estupradores”.

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