EFE/Salvatore Di Nolfi
EFE/Salvatore Di Nolfi

Português assume a ONU em meio a crise econômica e política

Antonio Guterres, ex-premiê de Portugal, consegue superar obstáculos e deve ser o sucessor de Ban Ki-moon como secretário-geral

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2016 | 05h00

Depois de uma década sob o comando de um diplomata, a ONU volta a ser liderada por um político. Antonio Guterres tem o caminho aberto para substituir Ban Ki-moon a partir de 2017 e chega com uma bagagem de décadas lidando com líderes globais.

Se por uma década a debilidade política do sul-coreano, que tinha dificuldades para se fazer entender, levou a voz da ONU a desaparecer, o poliglota Guterres representa um retorno de um político com convicções no comando. 

Ele foi primeiro-ministro de Portugal, com uma atuação fundamental na transição no Timor Leste. Durante seu mandato, presidiu também a União Europeia e foi o principal interlocutor do maior bloco do mundo. Com o Brasil, estabeleceu uma relação privilegiada e convenceu os demais parceiros da UE a dar o status de “aliado estratégico” ao País. 

Além disso, foi por dez anos o responsável na ONU por um dos departamentos mais delicados de toda a organização: o de refugiados. Diariamente, era obrigado a tratar com fronteiras, líderes e pessoas. Milhões de pessoas. 

Muitos, porém, o acusam de não ter tido sucesso ao lidar com a crise de refugiados, a pior desde a 2.ª Guerra. Seus aliados insistem que ele tentou, que chegou a atacar o comportamento dos países ricos, criticou a falta de dinheiro de governos a sua entidade e alertou para a xenofobia de seu próprio continente.

Ao assumir a ONU, porém, o português terá de lidar com a multiplicidade de crises pelo mundo: refugiados, clima, fome, falta de crescimento econômico, aumento da xenofobia e, claro, o pior desastre humanitário do século 21 no Oriente Médio. 

O Estado apurou que sua prioridade, assim que assumir o cargo, será colocar a ONU como protagonista num esforço para acabar com a guerra na Síria. Kofi Annan, um de seus antecessores, chegou a buscar um papel maior para a entidade, mas foi silenciado e ameaçado por escândalos de corrupção.

Para pessoas próximas a ele, esse será seu maior desafio em sua carreira política. No entanto, Guterres garante que aprendeu com os erros de Annan. Hábil, ele conseguiu superar todos os obstáculos na corrida pelo posto. Originalmente, a eleição deste ano estava desenhada para escolher a primeira mulher ao cargo. Guterres superou esse cenário. Sendo um representante da Europa Ocidental, muitos duvidavam de sua habilidade em convencer Moscou a ceder, num momento de tensão entre o Kremlin e o Ocidente. Ele também superou esse obstáculo.

Cuidado. Guterres, se quiser sobreviver, não pode bater de frente com os EUA, com os russos e nem com os chineses. Mas, nem por isso, o português quer que a ONU abandone seu papel político no mundo, algo que desapareceu com Ban.

Guterres, assim, assume o emprego “mais impossível do mundo”, num cenário internacional de crise e em uma ONU falida. Pior: ele também sabe que se a tensão entre Moscou e Washington se aprofundar, o Conselho de Segurança viverá um impasse de anos e colocará todos os seus planos na geladeira.

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