Posição de Garcia sobre Venezuela incomodou Dilma

Após apoio de assessor a adiamento da posse de Chávez, presidente pediu a ele que não tocasse mais no assunto

LISANDRA PARAGUASSU , BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2013 | 02h09

As declarações do assessor internacional da presidência, Marco Aurélio Garcia, apoiando a decisão da Venezuela de adiar por tempo indeterminado a posse do venezuelano Hugo Chávez em seu novo mandato, incomodaram a presidente Dilma Rousseff. Logo depois de Garcia dizer que o adiamento era constitucional e apoiado pelo Brasil, a presidente chamou seu auxiliar e pediu que não falasse mais no assunto.

Dias depois, por intermédio de assessores, mandou um recado: o Brasil espera que, caso Chávez não sobreviva, sejam convocadas eleições o mais rapidamente possível.

A afirmação foi passada como parte da conversa que Dilma manteve teve com o vice-presidente venezuelano, Nicolás Maduro. O "pedido" da presidente, no entanto, não foi parte da conversa entre os dois, que se resumiu à troca de impressões sobre a situação venezuelana, conforme apurou o Estado. Dilma apenas reforçou a Maduro a necessidade de manter as tensões sob controle.

Depois da conversa com a presidente, Garcia passou a se recusar a tratar do assunto, apesar de ter sido enviado pela própria Dilma a Havana para saber da saúde de Chávez. A impressão de que o Brasil poderia fazer vista grossa a alguma atitude pouco democrática na Venezuela incomodou a presidente. Daí a decisão de mostrar que, se por ora o governo brasileiro acredita que a situação venezuelana não feriu as normas democráticas, qualquer tentativa de evitar uma eleição no caso de impedimento de Chávez não seria aceita tão facilmente.

A conversa por telefone entre Dilma e Maduro, no dia 9 - véspera do dia em que Chávez inciciaria o novo mandato - partiu do venezuelano, que disse à presidente brasileira fazer questão de informar pessoalmente sobre a decisão do Tribunal Supremo de Justiça de adiar a posse. Na resposta, Dilma agradeceu e se disse preocupada com o que ocorre na Venezuela e também com a saúde de Chávez.

Na conversa, Maduro afirmou que havia a expectativa de que a situação médica do presidente venezuelano evoluísse, que ele estava consciente e é muito disciplinado, cumprindo rigorosamente o tratamento.

Dilma perguntou diretamente quando, então, seria a posse do presidente. Maduro respondeu que o Judiciário não se pronunciara sobre isso, mas que a primeira decisão, sobre o adiamento, tinha sido muito bem aceita pela sociedade venezuelana, com exceção de alguns grupos "de direita".

A presidente se disse, então, satisfeita com o "panorama de tranquilidade" e afirmou que isso é importante para diminuir as tensões no país. E encerrou a conversa dizendo que "não há um só dia em que não se pense na Venezuela e em Chávez".

Por enquanto, o governo brasileiro apenas observa a situação venezuelana e não vê motivos para maiores pressões. Na quinta-feira, em São Paulo, o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, afirmou que o Brasil espera uma evolução "de acordo com a institucionalidade e com o mínimo de sobressaltos para que a sociedade venezuelana possa se reorganizar no prazo mínimo".

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