Posição sobre Iraque mostra novo papel da Alemanha

A guerra no Iraque sequer começou, mas a geografia política mundial já mostra transformações importantes devido à possibilidade de um ataque contra Bagdá. Pela primeira vez depois da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha toma a iniciativa de questionar os Estados Unidos, seu aliado militar em assuntos de defesa, e deixa claro que é contra uma guerra. Para analistas alemães, a iniciativa do chanceler Gerhard Schroeder aponta para um novo papel de Berlim nas decisões internacionais relacionadas à segurança. Entre 1945 e o final da Guerra Fria, os alemães dependeram da Casa Branca para sua reconstrução, para a proteção do território e para a consolidação da democracia. Agora, tudo indica que o poder econômico que já havia sido consolidado pelos alemães será seguido por uma atuação internacional mais pró-ativa no campo militar. Antes mesmo das declarações sobre o Iraque, a Alemanha já começou a mostrar que gostaria de ocupar uma nova posição internacional. Os diplomatas alemães foram os organizadores da Conferência de Bonn, que literalmente construiu um novo governo no Afeganistão, no ano passado. Além disso, Berlim já começa a enviar tropas militares para iniciativas da ONU, fato pouco comum desde os anos 40. Na avaliação de Ingo Peters, diretor do Centro de Estudos de Relações Transatlânticas da Universidade Livre de Berlim, a posição do governo alemão não é apenas "para consumo interno". Muitos analistas acusaram Schroeder de usar tema do Iraque para ganhar votos nas eleições gerais no ano passado. Mas para Peters julgar a posição da Alemanha apenas como uma estratégia eleitoral é ter uma "visão míope" dos fatos. "A Alemanha perdeu o medo de se pronunciar sobre o que pensa sobre fatos militares e isso é, de fato, uma novidade nas relações internacionais contemporâneas", afirma o acadêmico. CustosMesmo os que apóiam as declarações do primeiro-ministro sobre a guerra alertam, porém, que a Alemanha pode sofrer se mantiver a postura contrária ao ataque norte-americano. Isso ficou claro quando, ao vencer as eleições no ano passado, Schroeder não foi felicitado pelo presidente George W. Bush, prática comum entre líderes ocidentais após uma eleição. "Um dos perigos pode ser a perda de influência da Alemanha e seu isolamento político, o que acabaria sendo o efeito contrário do que seria desejado por Berlim", explica Peters. O professor Hans Maull, da Universidade de Trier, aponta que a Alemanha somente conseguirá atingir seus objetivos políticos se conseguir ter uma relação de respeito com os Estados Unidos. "Isso não quer dizer aceitar as determinações de Washington, mas sim entender sua posição", afirmou. Na avaliação de Charles Heck, editor de uma revista alemã Diálogo sobre Política Externa, a realidade é que, com o fim da Guerra Fria e de suas ameaças, ambos os governos parecem ter perdido o interesse em cultivar as boas relações que mantinham. "As relações entre a Alemanha e os Estados Unidos estão em um dos pontos mais baixo em décadas", conclui Heck.

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