(NewsHour with Jim Lehrer/PBS via The New York Times)
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'Posições de Francisco irritam republicanos'

Para padre jesuíta e integrante da ala progressista da Igreja Católica dos EUA, papa deverá incomodar os conservadores

Entrevista com

Thomas Reese

Cláudia Trevisan CORRESPONDENTE / WASHINGTON , O Estado de S. Paulo

13 Setembro 2015 | 07h00

Em sua primeira visita aos Estados Unidos, o papa Francisco deverá incomodar os conservadores do Partido Republicano com sua defesa dos imigrantes, dos pobres e de medidas de combate ao aquecimento global. Ao mesmo tempo, poderá frustrar os democratas se der ênfase à família integrada por um homem e uma mulher e condenar o aborto. A avaliação é do padre Thomas Reese, jesuíta e integrante da ala progressista da Igreja Católica dos EUA. Para ele, um dos papéis do papa é ser um profeta, que “conforta os aflitos e aflige os que estão confortáveis”. Os conservadores americanos já se incomodaram com o discurso de Francisco na Bolívia, no qual ele criticou o capitalismo sem amarras. Segundo ele, há uma grande discussão na igreja sobre o “efeito Francisco”, que se traduziria no aumento de fiéis em razão da popularidade do papa. Mas o impacto será limitado se não houver mudanças na atitude dos clérigos.

Em 2014, Reese foi convidado pelo presidente Barack Obama para integrar a Comissão sobre Liberdade Religiosa Internacional dos EUA, um organismo independente que faz recomendações sobre o assunto ao Executivo e ao Congresso. Em 1998, foi nomeado editor-chefe da de respeitada revista semanal católica America, publicada pelos jesuítas. Sete anos mais tarde, renunciou ao cargo. Na visão de integrantes da ala liberal da igreja, o gesto foi motivado por pressão do Vaticano, insatisfeito com a linha editorial pouco ortodoxa de Reese. Atualmente, ele é analista do jornal National Catholic Reporter. A seguir, trechos da entrevista.

Quais serão os principais temas da visita do papa aos EUA?

Há uma série de tópicos que o papa levantará em sua visita aos EUA e eles são consistentes com coisas sobre as quais fala desde o início de seu papado. Ele tem um grande amor e preocupação em relação aos pobres e também é muito preocupado com o meio ambiente. Esses são dois tópicos que abordará quando falar com o país mais rico e poderoso do mundo. Vai dizer ‘vocês foram abençoados e têm uma responsabilidade de cuidar dos pobres e do meio ambiente’. A crise dos refugiados certamente será tratada no discurso na ONU. A preocupação com refugiados e imigrantes que vêm aos EUA será algo que ele levantará. Um dos papéis do papa é ser um profeta. Eu descreveria um profeta como alguém que conforta os aflitos e aflige os que estão confortáveis. O profeta é uma pessoa que fala a verdade aos poderosos. Sabemos que, como arcebispo de Buenos Aires, ele fez isso com os líderes econômicos e políticos da Argentina e com frequência os deixou incomodados. 

Muitas das posições do papa coincidem com posições do presidente Obama e do Partido Democrata – como na questão climática, imigração, restabelecimento de relações com Cuba, apoio o acordo com o Irã. Isso deixa os conservadores irritados?

Sim, muito (risos). Há comentaristas conservadores no rádio e na TV que gostariam de ver a Igreja Católica e os evangélicos como o Partido Republicano na oração. Eles querem que a Igreja fale apenas sobre aborto, casamento gay, controle de natalidade ou liberdade religiosa, questões que estão sintonizadas com o Partido Republicano. Eles não querem que a Igreja fale sobre receber bem os imigrantes, proteger o meio ambiente, cuidar dos pobres, pois essas questões são próximas dos democratas. Alguns dos conservadores acham que a Igreja estava do seu lado na política partidária e agora estão insatisfeitos com o papa Francisco. Na verdade, a Igreja Católica não se enquadra em nenhum dos dois partidos. Ela tem posições fora de sintonia com ambos. 

Os conservadores também ficaram insatisfeitos com a crítica do papa ao capitalismo sem amarras, em seu discurso na Bolívia.

Sim, ele tem uma crítica muito forte do capitalismo sem regulação, ou capitalismo libertário, o que muitas pessoas nos EUA simplesmente não aceitam. O papa Bento XVI tinha as mesmas posições, mas ele não as articulava em uma linguagem clara. O papa atual é muito mais explícito. O Bento falava como um acadêmico. O papa Francisco fala como escritor de um artigo de opinião. Na encíclica Caritas in Veritate, o papa Bento falou que havia um papel para o governo na regulamentação da economia e na redistribuição da riqueza. Nos EUA, mesmo uma liberal-democrata como Nancy Pelosi (líder do partido na Câmara) nunca usaria as palavras ‘redistribuição de riqueza’. O papa Bento estava à esquerda dos democratas em relação a temas econômicos. Mas ninguém prestava atenção. Como o papa Francisco usa linguagem explícita, as pessoas estão prestando atenção.

Quão política será a visita?

Aguardo com expectativa o discurso do papa na sessão conjunta do Congresso. O que eles farão, especialmente os republicanos? Se o papa falar ‘vocês devem receber bem os imigrantes, se preocupar com os pobres, proteger o meio ambiente?’ Os democratas irão à loucura, aplaudirão, gritarão. O que os republicanos farão? Sentar em cima das mãos? Ao mesmo tempo, se ele falar que toda a criança merece um pai e uma mãe e a vida deve ser protegida (condenação do aborto), os republicanos darão pulos e os democratas não saberão o que fazer. Será uma peça extraordinária de teatro político. 

A imigração transformou-se em uma questão extremamente controvertida nas eleições presidenciais, especialmente com Donald Trump. Qual o peso que o tema terá na visita?

A imigração é grande preocupação da Igreja Católica nos EUA. Muitos dos novos imigrantes são católicos e os bispos nos EUA estão preocupados com eles. O papa Francisco se encontrará com alguns deles em Nova York. Tanto em suas palavras quanto em suas ações, mostrará sua preocupação com os imigrantes e refugiados.

Qual o apelo do catolicismo nos EUA, especialmente para os jovens?

O papa Francisco tem um grande apelo, entre católicos e não católicos, jovens e velhos. Mas a Igreja não tem o apelo que ele tem. A expectativa é que o papa traga pessoas de volta à Igreja e a um debate sobre o “efeito Francisco”. Apesar de as pessoas se sentirem atraídas pelo papa Francisco, quando vão à sua paróquia não encontram o papa Francisco. Elas encontram o padre. A menos que os clérigos abracem as prioridades do papa, o “efeito Francisco” será mínimo. Mesmo sendo extremamente importante para a Igreja, o papa não é a Igreja. Nosso catolicismo é celebrado nas paróquias locais. Se as pessoas não encontram padres que tenham amor e compaixão vão se afastar de novo.

Os clérigos nos EUA são particularmente conservadores ou há uma mistura?

É uma mistura. Uma das dificuldades é que os padres jovens são mais conservadores que os mais velhos. Os mais velhos passaram pela experiência do Concílio Vaticano Segundo e tendem a ser um pouco mais liberais. Os mais jovens foram atraídos pela agenda e as prioridades dos papas João Paulo II e Bento XVI. Agora eles têm um papa que está mudando a agenda e as prioridades, o estilo da igreja de uma maneira que não entendem e com a qual se sentem incômodos.


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