Possibilidade de renúncia de ditador é remota

Análise: Kenneth M. Pollack / W. Post

O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2012 | 03h01

Um provérbio chinês diz: "O início da sabedoria está em chamar as coisas pelo seu nome certo." O nome certo do que ocorre na Síria - há mais de um ano - é uma guerra civil. A Síria é o Líbano dos anos 70 e 80. É o Afeganistão, o Congo ou os Bálcãs dos anos 90. O Iraque de 2005-2007. Não é uma revolta. Não é uma rebelião. Não é o Iêmen. E, certamente, não é o Egito ou a Tunísia. É importante aceitarmos esse simples fato, porque as guerras civis - principalmente as de origem étnica e sectária, como a da Síria - refletem e desencadeiam poderosas forças que refreiam o que pode ser feito a seu respeito.

Como terminam essas guerras? Em geral, há duas possibilidades: um lado ganha, como sempre pela violência assassina, ou uma terceira parte intervém com força suficiente para acabar com o conflito. Enquanto Washington não se comprometer a ajudar um dos lados ou a liderar uma intervenção na Síria, nada fará diferença. A história das guerras civis - e dos esforços para acabá-las - indica o que poderá funcionar e o que poderá fracassar.

No topo da lista das iniciativas que raramente conseguem pôr fim a uma guerra civil por conta própria é um pacto negociado. A probabilidade de que isso venha a funcionar sem o uso da força para impor ou garantir um acordo é mínima. É por isso que a missão de Kofi Annan como enviado da ONU e da Liga Árabe estava fadada ao fracasso desde o início.

E é por isso que a fixação do governo Barack Obama na suposta influência da Rússia sobre o regime sírio e a ideia de uma solução semelhante à adotada no Iêmen, na qual o presidente Bashar Assad renunciaria, são igualmente equivocadas. É muito improvável que Assad renuncie, porque - como Radovan Karadzic, Saddam Hussein, Muamar Kadafi e muitos outros - ele está convencido de que, se fizer isso, seus adversários o eliminarão e à sua família. E é possível que esteja certo.

Mesmo que ele deixe o cargo por vontade própria, sua renúncia ou a fuga do país não terá nenhum sentido. A guerra está sendo liderada por Assad, mas é paga pela comunidade alauita do país e por outras minorias, que acreditam estar lutando não apenas por seu lugar privilegiado na sociedade, mas por sua própria vida. Se Assad renunciar ou fugir, o resultado mais provável será a ascensão de outro líder alauita ao seu posto, o qual continuará a luta. Agarrar-se à esperança de que "os dias de Assad estão contados" não só é incorreto como é, em grande parte, irrelevante. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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