Posso telefonar para um amigo?

Romney posicionou-se como moderado no debate da semana passada e Obama não soube se aproveitar da mudança do rival

THOMAS L. , FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA , THOMAS L. , FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA , O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2012 | 03h05

Análise

O debate da semana passada foi importante não apenas porque quem "ganhou" foi Mitt Romney e, por isso, energizou sua moribunda campanha. Foi importante porque o republicano ganhou de uma maneira que expôs e agravou os dois principais pontos vulneráveis do presidente Barack Obama nessa eleição, o que tornou insignificante, pelo menos por uma noite, a principal debilidade de Romney.

Talvez fosse possível prever esse desdobramento. Romney havia tido um desempenho tão ruim e ficado tão atrás nos swing states que, se essa campanha fosse uma partida de golfe, seria possível dizer que o presidente parecia convencido de estar com a vitória garantida, faltando poucos buracos para o fim. Então, Obama optou pela pior tática que poderia adotar num jogo decisivo: começou jogando para não perder. Continuou uma campanha sem inspiração, vaga e cautelosa e apenas esperou que Romney isolasse as bolas fora dos limites do campo. O republicano, encurralado, não teve outra escolha senão jogar de maneira agressiva para ganhar.

E o fez, reposicionando-se como republicano moderado de centro-direita. Sim, isso exigiu que ele descaracterizasse e disfarçasse questões fundamentais da sua plataforma sobre impostos e saúde. Mas como Obama não se aproveitou imediatamente dessa guinada abrupta de Romney, o republicano pôde apresentar sem contestação seus argumento, que atingiram diretamente os dois pontos mais vulneráveis do presidente.

A primeira e mais perigosa ameaça à reeleição do presidente vem de uma massa crítica que afirma: "Barack Obama, homem bom, pai dedicado. Ótimo que finalmente tenhamos eleito um afro-americano. Ele se esforçou bastante. Mas quer saber? Prefiro tentar algo novo, mesmo sabendo que não vai funcionar".

Esse sentimento é letal para Obama. Enquanto Romney não parecia uma alternativa confiável, o presidente o manteve à distância, apesar da economia estagnada. Mas o republicano reavivou esse argumento ao mencionar de maneira confiante e ríspida a mecânica de criação de empregos - em pequenas ou recém-criadas empresas e pelo empreendedorismo - e o poder catalisador dos mercados. Sua apresentação tinha frescor e um senso de possibilidade completamente ausente da monótona discussão de Obama sobre saúde, déficits e programas de governo. E quando o presidente teve uma chance de dizer onde realmente sua iniciativa destinada à criação de empregos em áreas ecologicamente sustentáveis estimulou todo tipo de inovações e microempresas, ele se esquivou. (Como alguns observaram, foi péssimo que as normas do debate não permitissem que ele telefonasse para um amigo.)

Confesso que conversar com inventores, empreendedores sociais e pessoas que criam empresas é muito animador para mim - e não sou o único que se sente assim. E se essa mensagem do presidente ao público peca por algum motivo é pelo fato de que frequentemente não é expressa com suficiente animação a respeito de inovação e empreendedorismo - os verdadeiros motores da economia americana. Nos últimos anos, todos os novos empregos nos EUA foram criados nas microempresas.

Obama sabe disso e, em seu discurso na Convenção Democrata, pelo menos se referiu a esse fato com eloquência, quando afirmou: "Respeitamos os batalhadores, os sonhadores, os que assumem riscos, os empreendedores - que sempre foram a força motriz do nosso sistema de livre iniciativa".

Sim! Sim! Sim! Sr. Presidente. E, no próximo debate, olhe para a câmera e diga para as pessoas o que fará num segundo mandato para multiplicar por dez o número dos que optam por assumir riscos. Dê aos que estão dizendo "bom sujeito, mas prefiro experimentar algo novo" um motivo concreto para se animar não só porque seu governo quer um seguro nacional de saúde, mas também porque pretende ter uma economia renovada, que garanta aos seus cidadãos o acesso a esse benefício.

Sua afirmação final foi incrível: (Se eu for reeleito,) "lutarei cada dia em benefício do povo americano e da classe média". Isso é óbvio! Em que grande jornada estimulante o sr. levará todo o país para inventar o futuro e criar mais bons empregos?

O outro ponto fraco de Obama explorado por Romney foi a paralisia política do país. O presidente tem razão - em grande parte esse impasse foi organizado por republicanos, para levá-lo ao fracasso. Mas fato é que muitos americanos hoje olham para seus políticos e se sentem como os filhos de pais que estão permanentemente se divorciando - e estão cansados disso. Seu maior anseio é ver os políticos trabalhando juntos novamente. Então, quando Romney contou que, enquanto era governador de Massachusetts, se encontrava semanalmente com os democratas para fazer as coisas funcionarem, isso com certeza despertou a esperança em alguns eleitores. Obama precisa enfatizar que também aspira restaurar o bipartidarismo e tem um plano para derrotar a paralisia e unir o país num segundo mandato.

O ponto fraco que Romney superou foi não ter se preocupado em se dirigir a 47% do país - ou não ter sabido como falar. Essa foi a primeira vez em que Romney falou diretamente a todo o país e não a um público exclusivamente republicano. Ele não precisou se preocupar com os adversários mais encarniçados com os quais teve de competir nas primárias republicanas ou satisfazer à base do Tea Party. Portanto, no fim, simplesmente mudou de posição e colocou-se no centro.

Será que ele realmente governaria dessa maneira? Não acredito - pelo menos não com todos os seus malabarismos matemáticos - mas foi uma mensagem muito mais eficiente do que a do Romney que vimos anteriormente. Esse novo Romney pareceu um homem que se candidata a um emprego de CEO de um país que precisa inverter a rota. Obama pareceu um homem que esqueceu - ou que não admitiu - ter de se candidatar novamente para o seu emprego. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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