Postura nuclear do Irã é tortuosa, diz Goldemberg

"O Brasil brinca com fogo" ao se abster de votar a censura ao Irã pela Junta de Governadores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), avalia o professor José Goldemberg, ex-secretário brasileiro de Ciência e Tecnologia. "Essa associação com o Irã, ao meu ver, não beneficia o Brasil. A posição brasileira pode ser vista pelos iranianos como um encorajamento" ao desenvolvimento de um programa nuclear bélico, argumentou Goldemberg. Em entrevista concedida à Agência Estado, Goldemberg qualificou como "no mínimo, tortuoso" o comportamento do Irã com relação a seu programa nuclear.

RICARDO GOZZI, Agencia Estado

27 Novembro 2009 | 17h40

Além disso, as explicações dadas por Teerã à comunidade internacional são consideradas por ele pouco convincentes. "Quando todo mundo achava que o programa baseava-se em Natanz, revelou-se mais tarde o uso de uma instalação subterrânea em Qom. E, enquanto a discussão se prolonga, o Irã pode desenvolver mais centrífugas", o que aumentaria a capacidade de seu programa nuclear, avançou o professor. "Há alguns anos eram 500, 600. Hoje já se fala em pelo menos 3.000 centrífugas de enriquecimento de urânio", observou.

Goldemberg lembrou que o diretor-geral da AIEA, Mohamed ElBaradei, "é considerado uma pomba, é pacífico", e que a aprovação da censura pela entidade pode levar a novas sanções contra o Irã no âmbito do Conselho de Segurança (CS) da Organização das Nações Unidas (ONU).

"A negativa iraniana em aceitar o enriquecimento de seu urânio na Rússia parece ter irritado tanto a AIEA que acabou precipitando essa moção", analisa. "Para que essa moção tenha ido adiante, ele (ElBaradei) deve ter ficado muito irritado com o comportamento do Irã", opinou o professor, que foi secretário de Ciência e Tecnologia no governo Fernando Collor de Mello.

Ontem, em Viena, ElBaradei declarou-se "desapontado" com o comportamento do Irã, especialmente pela recusa em aceitar o acordo por meio do qual seu urânio seria enriquecido na Rússia. O enriquecimento de urânio é um processo essencial para a geração de combustível usado no funcionamento das usinas nucleares. Em grande escala, o urânio enriquecido pode ser usado para carregar ogivas atômicas.

Esperava-se que, com o enriquecimento no exterior, os temores referentes ao programa nuclear iraniano fossem aplacados. Os Estados Unidos e alguns de seus aliados suspeitam que o Irã desenvolva em segredo um programa nuclear bélico. O Irã sustenta que seu programa nuclear é civil e tem finalidades pacíficas, estando de acordo com as normas do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, do qual é signatário.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.