Potências e Irã fracassam em fechar acordo nuclear

Depois de três dias de debates, ministros não conseguiram superar o impasse no processo e suspendem as negociações

Jamil Chade,

09 de novembro de 2013 | 21h53

A França rejeita um acordo, as grandes potências não se entendem, o Irã não cede e a guerra na Síria contamina a negociação para um acordo nuclear. Depois de três dias de debates, ministros não conseguiram superar o impasse no processo e suspendem as negociações.

"Avançamos. Mas ainda não conseguimos fechar (um acordo). Existem ainda algumas questões sobre a mesa", declarou o chanceler francês Laurent Fabius há muitos minutos em Genebra ao deixar a sala de negociações.

O centro do impasse era a pressão liderada pela França para que o Irã desse garantias de que interromperia a construção do reator de Arak, considerado como um ponto fundamental no caminho para a obtenção da tecnologia para construir uma bomba.

Um rascunho do acordo chegou chegou a ser colocado sobre a mesa. Mas o governo francês rejeitou o texto, enquanto o governo americano também pediu novas garantias para que um acordo, ainda que se mostrava mais flexível. Ambos alegavam que o que existia no acordo não seria suficiente para convencer parceiros, Israel, sauditas e congressistas americanos de que o Irã não continuaria caminhando em direção a uma bomba.

Desde quinta-feira, Irã, EUA, Rússia, China, Alemanha, França e Grã-Bretanha estavam reunidos e todos concordavam com o princípio de que, em troca de um congelamento da expansão do programa nuclear iraniano, parte das sanções que pesam sobre Teerã seriam reavaliadas.

O Irã aceitou parar a expansão de seu programa de enriquecimento a 20%, evitar ligar o reator de plutônio de Arak e deixar de operar suas centrifugas ultra-modernas. Mas isso foi considerado como insuficiente pelos franceses. "Temos de levar em consideração as preocupações de Israel", alertou Laurent Fabius, chanceler francês. Há dois dias, Israel apelou aos EUA a não assinar o acordo. "Esse não é nosso texto. Não o aceitamos. Não vamos cair num jogo de bobos", confirmou Fabius.

Paris insistiu que Arak deve ser destruído ou pelo menos que as obras sejam interrompidas. A previsão é que o reator fique pronto em meados do ano que vem. Uma vez completado, não haveria forma de destruí-lo, já que representaria um risco equivalente à explosão de uma bomba atômica.

Fabius ainda quer impedir todo o enriquecimento a 20% e, ao Estado, ele deixou claro: "Pontos fundamentais de um acordo ainda estão pendentes."

 

Síria. O Irã rejeitou as novas condições e o projeto que caminhava com certa velocidade foi freado. Se não bastasse, governos ocidentais fizeram questão de pressionar o Irã por sua posição de apoio ao governo de Bashar Al Assad na Síria, o que tornou a equação de um acordo nuclear ainda mais complicado.

A falta de uma posição comum das potências e o fato de que a Síria passou a fazer parte do debate irritou Teerã. "A janela de oportunidade não ficará aberta de forma indefinida", declarou Javad Zarif, o chanceler iraniano.

Diante de um processo que ameaçava fracassar, o presidente iraniano, Hassan Rohani, enviou seu recado, apelando que países não perdessem a "ocasião excepcional" de fechar um acordo. Ao Estado, seus diplomatas confirmaram que ele teme que um fracasso fortaleça grupos mais conservadores dentro do Irã que se recusam a fechar um acordo com o Ocidente.

Washington também insistia em sair de Genebra com algum tipo de compromisso de que o processo continuaria, temendo que um fracasso desse força a congressistas que defendem novas sanções. Não por acaso, a posição francesa irritou os demais negociadores ocidentais, que acusaram Paris de estar usando a pressão de Israel para ganhar protagonismo.

O Estado apurou que a atitude francesa estava relacionada com o mal-estar que a decisão de John Kerry de viajar às pressas até Genebra para fechar um acordo, sem avisar aos demais chanceleres. Há dois dias, os demais ministros tiveram de abandonar suas agendas e viajar até Genebra para não deixar Kerry sozinho.

O chanceler russo, Sergei Lavrov, tentou pressionar por um acordo. Mas a divisão entre as potências impediu que uma pressão conjunta fosse feita sobre Teerã. Uma nova etapa dos debates foi marcada para o dia 20 de novembro.

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