Potências não liberais ficam entre a ascensão e o declínio

Desorientação mostrada por líderes ocidentais favorece aos que detêm poder criando falsa realidade

LILIA, SHETSOVA , THE AMERICAN INTEREST, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2014 | 02h00

Quais são os desafios da atualidade que podem afetar a ordem mundial, a segurança internacional e o avanço mundial do progresso? O vírus Ebola? A guerra no Oriente Médio? O Estado Islâmico? Vários observadores ocidentais consideram a ascensão da China um desafio comparável, mas não necessariamente devemos concordar com eles.

Minxin Pei ressaltou a questão analítica. Segundo ele, a política americana em relação à China "baseia-se na premissa de uma constante ascensão chinesa", no entanto, acrescenta que "as elites americanas ainda não se deram conta de que a fortuna da China está em declínio".

Ao mesmo tempo, uma série de respeitados analistas - entre eles Francis Fukuyama, Andrew Scobell, Andrew Nathan e o próprio Pei - concordam que "o vigor do regime autoritário da China está se aproximando dos seus limites" e que "o desempenho aparentemente excelente que o país tem apresentado até aqui oculta muitas bombas-relógio que deverão explodir no futuro".

Se o modelo chinês estiver perdendo sua sustentabilidade, o aumento da atividade de Pequim na área da política externa e sua postura mais agressiva em relação aos vizinhos poderão ser considerados elementos de sua tentativa de usar a fórmula da "compensação" do Kremlin para os crescentes problemas internos unindo a sociedade na busca de status e de ambições internacionais.

Caso tal pressuposto seja válido, precisaremos refletir sobre os riscos que a decadência das potências mundiais não liberais representará para a comunidade internacional. Na realidade, esses riscos poderiam ser muito maiores para o mundo do que os decorrentes de sua ascensão.

Em todo caso, já constatamos que caímos numa armadilha analítica a esse respeito: nossa compreensão dos modernos processos políticos não só está defasada em relação aos acontecimentos atuais, como muitas vezes ela distorce a visão que temos deles, dificultando a formulação de uma trajetória política adequada.

Com frequência, nas últimas décadas, as previsões dos especialistas falharam redondamente. Foi o que aconteceu com a "sovietologia", segundo a qual a União Soviética seria estável até o momento do seu colapso.

O livro Anticipations of the Failure of Communism, de Seymour Martin Lipset e Gyorgy Bence, explicou assim o erro da "sovietologia": "Os estudiosos buscavam instituições e valores que favorecessem a estabilização do Estado e da sociedade". Eles deveriam enfatizar também "os aspectos, as estruturas e os comportamentos anômalos que poderiam causar uma crise". Essa abordagem talvez nos permitisse olhar a China sob uma ótica diferente.

Enquanto a questão da ascensão ou do declínio da China é tema de frequentes debates, a decadência da Rússia é clara como cristal. Além disso, enquanto a China pode influir profundamente no panorama econômico global e minar futuramente a estabilidade da região da Ásia-Pacífico, a Rússia já está solapando o sistema de relações internacionais, e desafia as democracias liberais e sua capacidade de responder.

Os países ocidentais ainda tentam entender esse desafio como um mero conflito regional. Putin declarou sem rodeios: a velha ordem entrou em colapso e o Kremlin está pronto para apresentar novas regras.

Sinais. Ainda estamos no processo de desvendar a história. Não conhecemos o quadro que se desenhará daqui em diante, mas podemos arriscar algumas conclusões preliminares.

A guerra russo-ucraniana e a anexação da Crimeia pela Rússia são os legados do colapso soviético, que favoreceram a reencarnação do seu poder personalizado sob uma capa anticomunista. Historicamente, em busca de sua sobrevivência, o sistema russo recorreu a uma mobilização militar patriótica. Hoje, com a redução dos recursos, é improvável que retorne por conta própria à posição dos tempos de paz. Em todo caso, a União Soviética continua prendendo a região em seu abraço mortal.

A revolução ucraniana demonstrou que o modelo de Estado pós-soviético - que se baseia na fusão de poder e propriedade e no império da força e não da lei - é insustentável. A Ucrânia era apenas o elo mais fraco. Por outro lado, a decadência da Rússia poderá aumentar a vulnerabilidade de outros países pós-soviéticos, principalmente os que dependem diretamente dela, criando uma zona de instabilidade na Eurásia.

O atual ingresso da Rússia no cenário global é uma espécie de força revisionista tentando não apenas desestabilizar o sistema de governança internacional, mas também desacreditar os princípios e as normas ocidentais numa época em que as democracias liberais perderam sua missão normativa.

Embora o Ocidente esteja reagindo à atual crise internacional utilizando os estereótipos da Guerra Fria (hoje obsoletos), o Kremlin aperfeiçoou o próprio modelo, embaralhando a fronteira entre guerra e paz e tornando as tentativas de restabelecer a paz e as tréguas instrumentos de guerra.

A Rússia testa agora a capacidade do Ocidente de estabelecer os próprios limites, principalmente no que diz respeito às relações internacionais. Esses limites são confusos, porosos e estão recuando, fazendo com que o Kremlin procure forçá-los a recuar ainda mais. A Rússia empreende uma experiência que permitirá que outras potências não liberais, fundamentalmente a China e o Irã, percebam até onde a civilização liberal está disposta a ir para defender seus princípios.

É impossível que as relações entre a Rússia e o Ocidente voltem ao status quo anterior. Suas trajetórias são extremamente divergentes, o que limita o espaço para compromissos táticos e torna insustentáveis as iniciativas para o diálogo. A conquista de um novo status quo não passará de uma breve pausa antes de uma nova escalada das tensões. Por isso, precisamos criar um novo mecanismo para lidar com tensões crônicas.

O sistema russo ainda poderá funcionar por um bom tempo em seu estado de decadência. Até recentemente, Putin talvez tivesse a chance de ser reeleito em 2018. Mas, com a anexação da Crimeia e o início da guerra na Ucrânia, o Kremlin destruiu a lógica do tempo de paz e gerou processos que não poderá mais frear, mesmo que queira.

Todos os compromissos e os acordos implicariam prescindir do modelo militar, mas como fazer isso se o sistema não pode mais funcionar em tempos de paz? O modelo dos tempos de paz implicaria o fim do isolamento e a mudança para uma sociedade aberta, o que significaria a morte do sistema de poder personalizado.

Seria de se esperar que o Kremlin se contentasse com uma capitulação do Ocidente na questão da Ucrânia que atendesse às seguintes condições: Kiev não procuraria fazer parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Moscou influenciaria o processo de integração da Ucrânia à economia europeia, a questão da Crimeia seria excluída da agenda no futuro próximo, seria reconhecida a soberania de fato dos pequenos Estados de Donetsk e Luhansk controlados pelos separatistas, de preferência no âmbito do Estado ucraniano e as outras regiões ucranianas seriam descentralizadas.

Essa "fórmula de paz", defendida, em parte, no Ocidente, inevitavelmente não seria cumprida - tanto pelos separatistas que vivem da guerra quanto pelo povo ucraniano, que perguntaria: "Para que combatemos e morremos, então?".

As forças revanchistas da Rússia também exigiriam da Ucrânia novas vitórias sobre o Ocidente. Quem espera que esta "fórmula de paz" funcione não compreende as origens da crise ou se engana conscientemente.

O problema tampouco está no fato de que, fazendo da Ucrânia um instrumento da política interna da Rússia, o Kremlin não possa permitir que ela se una à Europa. A Ucrânia em si já não constitui o problema; ela se tornou o instrumento por meio do qual a Rússia trava uma batalha muito mais ampla.

O líder russo pressiona pela imposição de uma nova ordem mundial. Segundo a lógica do sistema russo, essa reivindicação é bastante razoável. De fato, Putin não tem alternativa senão agir dessa maneira. Ele precisa aumentar incessantemente suas exigências, de maneira que seja impossível atendê-las, pois precisa alimentar continuamente a máquina militar-patriótica, que necessita de uma série permanente de pretextos que se somem à ladainha de reclamações e humilhações (reais ou imaginárias).

Putin está sendo levado pela corrente e não poderia parar, mesmo que quisesse. Ele sabe que, enquanto intensificar as tensões, poderá reivindicar o papel de exterminador ou de salvador (em períodos conturbados, um papel exige o outro), mas, se parar, se tornará Aquelá (do Livro da Selva), o lobo solitário que deve deixar o grupo por não conseguir pegar sua presa.

Temos, pois, uma fórmula para intensificar as tensões. A Rússia de Putin não pode abandonar o modelo militar-patriótico. Isso equivaleria à derrota do regime/ou de seu líder. Mas continuar com esse modelo exige manter o clima de conflagração militarista, forçando o Ocidente a uma reação que esgotará ainda mais os recursos já limitados do sistema russo. Ironicamente, esse sistema volta hoje a percorrer o caminho que, em 1991, levou ao colapso da União Soviética.

Ao mesmo tempo, podemos fazer uma série de observações.

A Rússia está minando o sistema de governança global destruindo a rede de acordos e tratados internacionais construída com a participação soviética após a 2.ª Guerra. A paralisia do Conselho de Segurança durante a guerra russo-ucraniana é outro sinal desse fato. Como será possível buscar uma solução para o conflito se uma potência que tem poder de veto faz parte do Conselho?

Putin só poderia preservar esse poder tornando-se outro Stalin. Ele, no entanto, não pode fazer isso - não só porque provavelmente carece de uma natureza ditatorial, mas também porque o país carece de uma ideia aglutinadora (como o comunismo na época soviética) que mobilize as pessoas para o projeto de construção de um mundo utópico - a mera busca de inimigos não pode ser essa ideia. Além disso, tal mudança exigiria uma máquina repressiva perfeita e uma sociedade fechada. A integração das elites e do Estado corrupto no Ocidente contribui para a erosão do regime, cuja consolidação atual pode ser atribuída à inércia e não ao medo e à legitimidade. Portanto, temos mais um impasse: o sistema russo dificilmente poderá tornar-se uma ditadura, e tampouco transformar-se.

O sistema político russo começou a minar seus próprios alicerces e não tem mais como garantir os interesses de sua base, o que talvez indique o início da agonia do regime. Deveremos nos preparar para a tentativa do sistema de sobreviver por meio de uma mudança de regime e de liderança.

Usar a guerra, a ira, a animosidade e a hostilidade como meios para unir o povo poderá originar uma atmosfera 'hobbesiana' na sociedade. E quando a autoridade que transformou o ódio em veículo de unificação não consegue fazer jus às esperanças do povo, não é difícil imaginar qual será o objeto desse ódio. Em todo caso, enterradas as chances de uma reforma pacífica, o Kremlin oferece novamente à Rússia o instrumento da mudança próprio do século 19: a revolução, com todas as suas assustadoras implicações.

Depois de imensos esforços, o Ocidente por fim concordou com um regime de sanções, que já começa a desestabilizar a economia russa. Mas o regime russo teme mais a perda de sua legitimação militar-patriótica do que o sofrimento provocado pelas sanções (por enquanto).

Dilema. Fundamentalmente, o Ocidente está diante de um dilema. Por um lado, manter o regime de sanções exacerbará a crise econômica da Rússia, provocando agitação e desenterrando forças que, em comparação, fariam o atual regime parecer angelical. Não se pode, ainda, excluir a possibilidade de que o regime, sentindo-se acuado, busque a retaliação.

Ao mesmo tempo, o Kremlin declara que as sanções impostas pelo Ocidente são na realidade uma tentativa de provocar uma mudança de regime em Moscou. No fundo, é verdade. As sanções poderão minar o regime político russo, mas a simples ideia de que possam causar uma mudança de regime em Moscou alarma profundamente os líderes ocidentais. Na realidade, seu medo de desestabilizar a Rússia e desencadear uma série de acontecimentos imprevisíveis é um importante fator que induz a proceder com extrema cautela - hesitação interpretada pelos governantes russos como um convite para testar a determinação do Ocidente.

Por outro lado, suspender as sanções enquanto a Rússia não cessa de agredir a Ucrânia indicaria que o Ocidente está disposto a sacrificar sua liderança global, escancarando um capítulo 'darwiniano' das relações mundiais.

De fato, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia fez uma proposta à Europa (mas não aos EUA) de abolição mútua das sanções, o que é uma admissão direta de que começa a sentir seus efeitos. O presidente Putin terá de começar a procurar uma saída. Mas isso significará que está disposto a retroceder? Não, esse não é o seu estilo. Ele buscará um compromisso e manterá o país no paradigma da guerra.

Os tradicionais mecanismos do compromisso e do diálogo com o Kremlin não funcionarão nessa situação. É aí que está o dilema: esses mecanismos funcionaram no passado para as relações entre o Ocidente e a URSS, embora em um número limitado de esferas.

Pelo menos nos anos 70 e 80, Moscou tentou ser uma parceira responsável. Mas como poderá o Ocidente comprometer-se com um diálogo com o Kremlin atual, que fez da mentira e da falácia os principais elementos de sua política?

O Ocidente se encontra num impasse, portanto, é bastante compreensível que continue procurando uma maneira de ajudar Putin a sair da situação desvantajosa em que ele próprio se colocou.

Alguns observadores brincam com a ideia de oferecer a Putin a Ucrânia (e todo o espaço pós-soviético) em contrapartida à possibilidade de ele facilitar um acordo com o Irã. Mas quão ingênuo seria isso. Acaso Putin não exigiria do Ocidente uma nova ordem mundial? Ele não se contentaria apenas com a Ucrânia.

Outros sugeriram reiteradamente que a Rússia poderia tornar-se nossa aliada na guerra contra a Al-Qaeda, o Estado Islâmico e o Taleban. É verdade, ela poderia. Mas o preço que o Ocidente teria de pagar por essa aliança seria alto. Os EUA teriam de se comprometer, por exemplo, a não empreender nenhuma medida que pudesse ser interpretada como uma reivindicação de hegemonia, e a União Europeia teria de prometer que não se intrometeria e deixaria que o Kremlin interpretasse as regras globais do jogo. O Ocidente concordaria?

Ou consideremos, então, a invenção mais recente das diplomacias austríaca e alemã: exclui-se a Ucrânia da agenda nas discussões com o Kremlin (demasiado controvertidas) e nos preocuparemos com o diálogo entre a UE e a União Eurasiática visando a eliminar as bases de uma postura de confronto da Rússia. A ideia mostra que a Europa realmente não tem onde procurar uma solução. De fato, à primeira vista, ela parece racional: precisaríamos dialogar para esfriar as emoções e chegar pelo menos a algum tipo de entendimento mútuo. Por outro lado, será que a Rússia não usaria esse diálogo como um meio de cooptação de seus parceiros ocidentais e tentativa de simulação?

Finalmente, os que insistem em ajudar a Rússia não se cansam de repetir: "É preciso encontrar um canal secreto para tratar com a Rússia". Isso supostamente convenceria os russos de que é possível manter um diálogo mutuamente benéfico que proporcionasse alguma tranquilidade. Henry Kissinger esperou muito tempo nos bastidores para se tornar esse "canal secreto". Minha resposta é: os senhores estão subestimando Putin. Por que motivo acreditam que Kissinger seria mais eficiente do que Merkel? Teria realmente a ver com o "canal"?

A questão é que, a essa altura, o sistema russo já engatou a marcha da hostilidade e só poderá sobreviver odiando o Ocidente e qualquer "canal" que esse escolher! Acaso a "máquina do ódio" poderia manter-se em ponto morto? Evidentemente poderia, mas só depois de ter provas convincentes da capitulação do Ocidente, ou se ameaçada por uma crise que a obrigasse a mudar - ou seja, mudar, não seu modelo de sobrevivência, mas suas táticas.

O mais devastador para as democracias liberais é o fato de que o sistema russo tenta sobreviver falseando os princípios e as normas que elas mesmas estabeleceram. O sistema russo não tem condições de produzir uma ideia ou ideologia como fez a União Soviética. Ao contrário, ele torna irrelevantes as ideologias. Atualmente, ele experimenta uma nova maneira de seguir em frente - confundindo as fronteiras entre a realidade e o blefe, a verdade e a mentira, o moral e o imoral, princípios e conformismo, guerra e paz.

Mundo da falsidade. Os arquitetos da nova ambivalência afirmariam com todo o prazer: "Vocês acusam a Rússia de ser um país corrupto, mas o Ocidente é igualmente corrupto. Não destruímos tratados e leis internacionais; nós os defendemos. Não ameaçamos ninguém; vocês é que tentam nos cercear". Argumentos, valores, persuasão, verdade são inúteis nesse tipo de discussão. Império da Lei? Ele não tem nenhuma função nesse mundo da falsidade. Não há normas. O que parece ser uma norma em um momento poderá se tornar o seu oposto no momento seguinte. Portanto, embora careça de uma ideologia, o Kremlin formulou um mecanismo bastante eficiente: "A transformação da informação, da cultura, e do dinheiro em armamentos (armamentização) " - ver Peter Pomerantsev e Michael Weiss, The Menace of Unreality: How the Kremlin Weaponizes Information, Culture and Money.

A desorientação do Ocidente só contribui para ampliar o campo de manobra dos que criam essa falsa realidade. Não saberíamos como recuperar o sentido original dos princípios e das normas compartilhadas que foram postos de lado ou desacreditadas pelo Ocidente nas últimas décadas.

Estamos assistindo à batalha desesperada de um sistema que se recusa a sair de cena enquanto ainda pode obter mais algumas vitórias. Em todo caso, uma potência não liberal em declínio, e não em ascensão, poderá revelar-se uma ameaça ainda maior para o mundo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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